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Biodiversidad en América Latina y El Caribe

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Autor Biodiversidad, sustento y culturas Idioma Portugués Pais América Latina y El Caribe Publicado 1 septiembre 2011 15:49

Revista Biodiversidade, sustento e culturas, N° 67 em Português

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É indispensável apoiar a autonomia, os autogovernos, a autodeterminação dos povos, mas não de uma maneira retórica e distante, e sim desde os mesmos processos de trabalho de base, organizados e sistemáticos. Só assim será possível que a agricultura camponesa esfrie a Terra, contribua para o cuidado do planeta e para a promoção da justiça. Essa é a verdadeira luta, e não é uma tarefa fácil.

Editorial

A foto mostra uma área desmatada, com nuvens e o céu azul.

O morro está erodido, pelado, mas as nuvens continuam acariciando a terra. Isso é visto de uma cesta aberta, que simboliza, com seu trançado, a comunidade que é união e trabalho compartilhado.

E este horizonte aberto, apesar dos graves problemas, nos leva a pensar na manipulada e falida Conferência das Partes sobre Mudança Climática em Cancún e na enorme mobilização que veio das bases para gritar em prol de justiça social e ambiental. Faz-nos repensar os falsos remendos que continuam sendo promovidos com objetivos de lucro.

Mas, também, de uma infinidade de rincões, as organizações, comunidades e coletivos repensamos, vendo o panorama completo, as verdadeiras soluções que propusemos. Entendemos que o sistema industrial capitalista contemporâneo procura controlar a maior quantidade de relações, riquezas, bens comuns, pessoas e atividades potencialmente lucrativas, através de leis, disposições, políticas, “pesquisas”, extensão rural, programas, projetos e montes de dinheiro.

Os agronegócios, por exemplo, que implicam produzir (alimentos e agora agrocombustíveis) em grandes extensões de terra para colher grandes volumes e obter muito lucro a qualquer custo, têm incrustada uma lógica industrial que exerce uma violência extrema contra as escalas naturais dos processos e dos ciclos vitais, e, em sua “integração vertical”, promovem uma louca corrida para agregar valor econômico aos alimentos com mais e mais processos – grilagem legal de terras, que implica concentração, desmonte e desmatamento; sementes desenhadas em laboratório, patenteadas e certificadas; solos manejados (e empobrecidos) com fertilizantes e agrotóxicos megaquímicos, com monocultivo e mecanização agrícola; transporte, lavagem, processamento, empacotamento, estiva, armazenagem e novo transporte (inclusive internacional) até chegar a mercados, lojas, supermercados e restaurantes.

Isso torna o sistema agroalimentar mundial (toda uma trama de atividades relacionadas, muitas desnecessárias) o responsável pela emissão de gases de efeito estufa que podem chegar a 57% do total dos gases emitidos. Esses processos, somados, são o que mais contribui para o aquecimento que aumenta a crise climática.

A forma de produzir alimentos industrialmente produz lucros imediatos e inclusive lucros adicionais se as empresas vendem direitos de contaminação em outras partes reduzindo somente um pouquinho suas emissões, graças a mecanismos financeiros perversos que hoje têm tanto respaldo institucional (como REDD). Mas, está claro que seus métodos são tão insustentáveis que, nos últimos 50 anos, o uso de agrotóxicos e outras práticas industriais que erodem os solos causaram a perda média de entre 30 e 60 toneladas de matéria orgânica por hectare, ou seja, entre 15 e 20 bilhões de toneladas de matéria orgânica, o que significa estar perdendo o coração dos processos agrícolas que podem, sim, esfriar, estabilizar a Terra.

Não é de se estranhar, então, o caos ambiental do planeta, que, além do mais, subjuga as comunidades presas nesse sistema globalizador, que não resolve a alimentação das comunidades nem dos bairros, mas, sim, torna trabalho ignóbil e às vezes semiescravo o que antes era tarefa camponesa criativa, digna e de grande zelo.

Por isso, produzir nossos alimentos de forma independente do chamado sistema alimentar mundial é algo profundamente político e transformador. E isso porque recorre às práticas camponesas que, durante milênios, cuidaram dos territórios de uma maneira integral. As comunidades camponesas que cuidaram dos campos e florestas (em sua maioria indígenas) e, assim, do mundo, cuidaram por milênios das sementes como o legado comum mais valioso da humanidade e entendem que a fertilidade e estabilidade naturais dos solos dependem também da estabilidade e bons cuidados do território em seu sentido mais amplo (e suas florestas, águas, animais), através de saberes mútuos, compartilhados: verdadeiros bens comuns que vão além das meras práticas agrícolas convencionais.

A agricultura camponesa pode esfriar a terra, mas há que se entender que essa tarefa é também algo que deve ser comum, compartilhado, porque o cuidado do território assim o exige, e porque as corporações já são muito poderosas, muito influentes.

Por isso, se acreditamos de verdade na via camponesa para resolver o problema da crise climática (e outras várias crises relacionadas), então temos que, de forma bem radical, voltar a lutar pela defesa da terra em mãos camponesas, indígenas.

Sim. Há que se continuar buscando que os países reduzam suas emissões. Há que se continuar lutando para não permitir os sistemas de especulação financeira que agravam a situação, que enriquecem uns tantos e deixam a contaminação intacta, como o infame programa REDD. Há que se continuar freando os nocivos projetos da chamada geoengenharia.

Mas, o crucial é fazer um chamado em busca de uma reforma agrária integral, em nível planetário e país por país, que reconheça os territórios (terra, ar, água, biodiversidade, recursos) dos povos e seu caráter comunal, inalienável, não embargável e imprescritível. Deter o processo atual de grilagem legal agrária por parte de governos e companhias de especulação financeira. Empreender uma defesa dos territórios dos povos contra todos os projetos extrativistas que atentam contra a possibilidade de que, como camponeses, retomem um cuidado de solos, águas, florestas, processos vivos entre animais e plantas, com uma produção própria que não violente os processos naturais biológicos e sociais incluídos no cultivo, que circule distâncias pequenas, que reduza os processos compreendidos entre a produção e o consumo, que recorra o menos possível aos mecanismos monetários, que implique uma integralidade entre cultivar, coletar, caçar, pastorear ou cuidar de animais de criação doméstica, e que isso reforce modos de vida mais equitativos, comunitários e com desejos de justiça. É crucial que os governos e a sociedade civil que efetivamente têm boa vontade reconheçam que o modelo extrativista, industrial, não é compatível com o “bem viver” dos povos.

É indispensável apoiar a autonomia, os autogovernos, a autodeterminação dos povos, mas não de uma maneira retórica e distante, e sim desde os mesmos processos de trabalho de base, organizados e sistemáticos.

Só assim será possível que a agricultura camponesa esfrie a Terra, contribua para o cuidado do planeta e para a promoção da justiça. Essa é a verdadeira luta, e não é uma tarefa fácil. A soberania alimentar será alcançada mediante um trabalho em muitas frentes. Tê-la como ordem é crucial, mas promovê-la em nossa cotidianidade imediata é um desafio impostergável.

Biodiversidade se oferece como instrumento para discutir, buscar respostas, propostas, caminhos comuns. Aqui estamos com o horizonte aberto, apesar de tudo.

Para bajar la revista completa: Revista Biodiversdidade Nro 67


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