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Autor Inês Castilho Idioma Portugués Pais Internacional Publicado 2 agosto 2017 13:09

Mulheres, a primeira vítima do capitalismo

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"Difícil imaginar quantas horas Silvia Federici ficou debruçada sobre livros e documentos históricos, em arquivos e bibliotecas, até compor o quadro sobre as circunstâncias históricas específicas em que se desenvolveu a perseguição às bruxas e as razões pelas quais o surgimento do capitalismo exigiu um ataque sistemático e brutal contra as mulheres."

28 de Julho, 2017

“Somos as filhas das bruxas que vocês não conseguiram matar”, escreveram algumas mulheres nos muros de cidades brasileiras, durante a primavera feminista. Talvez por isso a vinda da historiadora feminista italiana Silvia Federici ao Brasil, na semana passada, para lançar Calibã e a Bruxa – Mulheres, corpo e acumulação primitiva, atraiu em torno de si e de seu livro centenas de jovens, no centro e na periferia do Rio de Janeiro e São Paulo. Uma semana de celebração para o movimento feminista brasileiro, que ao mesmo tempo recebia na Bahia a norte-americana Angela Davis para um curso sobre feminismo negro, no Recôncavo Baiano. Alás!

A reportagem é de Inês Castilho, publicada por Outras Palavras, 26-07-2017.

Silvia Federici é uma historiadora italiana de 75 anos, militante feminista desde 1960 e a partir de 1967 radicada nos Estados Unidos. Professora emérita da Hofstra University, em Nova York, participou ativamente dos debates internacionais sobre a falta de remuneração do trabalho doméstico, questão polêmica no feminismo dos anos 70. Na década de 80, foi por três anos professora universitária na Nigéria, quando testemunhou a onda de ataques neoliberais aos bens comuns da população. De volta aos Estados Unidos, deu início à pesquisa que a acompanhou por quase trinta anos e resultou no livro agora publicado no Brasil.

Sua vinda ao país deve-se à Fundação Rosa Luxemburgo, com parceria do Instituto Goethe, em apoio ao coletivo Sycorax, responsável pela iniciativa de traduzir o livro, disponível na internet, juntamente com a editora Elefante (responsável pela edição impressa). O lançamento no Rio de Janeiro aconteceu no Museu da Maré e no espaço da Cia. Mystérios e Novidades, na Gamboa; e em São Paulo, no auditório da Galeria Olido e Centro Cultural Arte em Construção, na Cidade Tiradentes, no extremo da Zona Leste de São Paulo.

Calibã e a bruxa

Difícil imaginar quantas horas Silvia Federici ficou debruçada sobre livros e documentos históricos, em arquivos e bibliotecas, até compor o quadro sobre as circunstâncias históricas específicas em que se desenvolveu a perseguição às bruxas e as razões pelas quais o surgimento do capitalismo exigiu um ataque sistemático e brutal contra as mulheres.

“Realizei uma longa viagem pela história para entender como se deu a sujeição das mulheres na origem do capitalismo, e para isso fui até a Idade Média, no período de crise das relações feudais”, conta.

Seus estudos se dão no contexto das crises demográfica e econômica na Europa dos séculos 16 e 17 e das políticas da época mercantilista: o cercamento das terras, a nova divisão sexual do trabalho que confinou as mulheres à esfera reprodutiva, o tráfico de escravos, a conquista colonial.

Marx estudou esse período de uma perspectiva masculina. Ocupou-se somente da esfera produtiva, do trabalho assalariado, e ignorou toda a esfera reprodutiva da vida e da mão de obra: a gestação, aleitamento e cuidado com as crianças, a sexualidade, o cuidado com os velhos e os doentes, o alimento, a limpeza. O mesmo ocorreu com Foucault em sua história da sexualidade. Uma história de homens”, considera Silvia Federeci.

Ela mostra como a Inquisição foi um instrumento para disciplinar o corpo das mulheres, que gestam e disciplinam outros corpos, para o novo sistema de exploração do trabalho. Estabelece conexões com o período que atravessamos, de intensificação do capitalismo, recrudescimento da violência e assalto aos bens comuns – em que são caçadas “bruxas” de diversos tipos, com a criminalização dos movimentos sociais e o espantoso número de assassinatos e conflitos no campo. Uma outra volta do parafuso.

É nos séculos de acumulação original do capital que se produz o fenômeno da caça às bruxas. Os anos de maior perseguição coincidem com as primeiras teorias econômicas modernas do mercantilismo e com o início da preocupação com problemas demográficos. Com a falta de mão de obra causada pela Peste Negra, que reduziu a população da Europa em 30% a 40% no século 14, os camponeses passam a ter mais poder para escolher terras, demandar pagamento e discutir tributos com os senhores. O medo das revoltas populares levou a nobreza decadente e a burguesia nascente a se aliar para elaborar as leis do Estado moderno.

“O capitalismo foi na verdade uma contrarrevolução”, afirma Silvia Federici.

Se na Europa pré-capitalista as mulheres tinham acesso às terras e outros bens comuns, agora são despojadas não só da terra como do trabalho assalariado, e seus corpos passam a ser vistos como instrumentos para controlar a população e aumentar a produtividade. Foram criminalizadas as parteiras, que também faziam os abortos, as benzedeiras e curandeiras com seus conhecimentos de poções e ervas medicinais, as adivinhas e suas visões espirituais, as hereges, as mulheres que viviam sós. Tirar das mãos das mulheres o poder sobre seus corpos abriu caminho para o desenvolvimento de uma medicina baseada em conhecimentos fora do alcance das classes populares.

Mas não se transformam camponeses em máquinas de trabalho do dia para a noite, lembra Dario Semino no artigo Brujas son negocios, uma resenha da tradução espanhola do livro. A conversão dos camponeses em trabalhadores assalariados no decorrer desses séculos demandou uma aceleração do tempo – não mais regido pelo sol e a lua, mas pelas horas e minutos marcados no relógio – e uma nova concepção do corpo humano, que passa a ser visto como máquina e submetido ao domínio da mente, numa relação hierárquica. O camponês precisa ser disciplinado, esquecer suas velhas formas de vida comunal.

“O capitalismo necessita de hierarquias”, lembrou Silvia mais de uma vez.

A caça às bruxas veio impor uma disciplina social, de organização do trabalho e de construção do papel das mulheres, criando uma imagem desvalorizada da feminilidade: obediente, silenciosa e casta, submissa aos homens.

“Houve um período, em certas partes da Europa, que se introduziu na moda feminina um instrumento de metal sobre a cabeça das mulheres que cerrava sua boca – o mesmo que usavam para os escravos.”

Mais de 80% das pessoas executadas por bruxaria entre os séculos 16 e 17 foram mulheres, a grande maioria pobre. Em Calibã e a Bruxa, Silvia mostra como, na Inglaterra, a maior parte dos julgamentos aconteceu em Essex, onde a terra havia sido cercada e privatizada no século 16. No sudoeste da Alemanha, a caça às bruxas se dá exatamente nas aldeias onde foram massacrados os servos que se rebelaram na chamada Guerra dos Camponeses.

“A incompatibilidade da magia com a disciplina do trabalho capitalista e com a exigência de controle social é uma das razões pelas quais o Estado laçou uma campanha de terror contra elas. Lendo os processos, vê-se que as acusações eram de que matavam crianças, copulavam com o demônio, eram inimigas de deus. A grande maioria contra mulheres pobres, despossuídas pela privatização dos bens comuns, ou mulheres velhas que viviam com ajuda dos vizinhos. Foi quando a mendicância passou a ser criminalizada”, diz ela.

Um dos indicadores de que a caça às bruxas foi ferramenta do capitalismo original é que a igreja católica não foi a única a ocupar-se com a perseguição. No apogeu da caça às bruxas, o número de execuções ordenadas pelos tribunais seculares foi ainda maior que o dos católicos, e as nações protestantes, inimigas do catolicismo, foram tão cruéis com as mulheres quanto a igreja romana.

“A Inquisição foi estendida ao Novo Mundo, e no Brasil foram acusados também homens negros escravos, além das mulheres escravas. Espero que Calibã e a Bruxa inspire as jovens brasileiras a aprofundar os estudos sobre esse período“, disse Silvia às plateias que a assistiram.

Marx

O último capítulo do primeiro volume de O Capital foi dedicado ao período histórico de transição entre feudalismo e capitalismo, lembra Silvia Federici. Marx descreve o processo de acumulação primitiva nos vários séculos durante os quais os camponeses foram violentamente expropriados de suas terras pelos “cercamentos”, que os obrigaram a converter-se em trabalhadores assalariados para sobreviver.

“Os homens perderam as terras mas ganharam servas”, ironiza Silvia. “Marx explicou a acumulação primitiva do capital limitando-se à analise do mundo do trabalho produtivo, assalariado. Ignorou toda a esfera de reprodução da vida cotidiana e dos trabalhadores, do trabalho não remunerado, sem o qual não pode ocorrer a produção.”

Tinha início o “patriarcado do salário”, diz.

“O capitalismo precisa criar hierarquias: o que ganha mais, o que ganha menos, a que não ganha. O trabalho da mulher não é assalariado e portanto não é considerado trabalho. Racismo e sexismo são formas intrínsecas ao sistema, maneiras de dividir para controlar.”

Silvia relata que, ao contrário do estereótipo histórico, a queda do feudalismo foi um período de muitas lutas – contra o fausto da Igreja, que detinha poder político, o poder dos senhores feudais e dos comerciantes – por populações de artesãos e camponeses despossuídos de suas terras e de seus instrumentos de trabalho.

Bens comuns

A historiadora elaborou também uma perspectiva feminista sobre os Comuns, conceito importante para a luta anticapitalista nesse momento de expansão das fronteiras do capital sobre os territórios.

Nas pesquisas sobre o mundo feudal, reencontrou em solo europeu as terras comunais, águas e florestas de uso comum pelas populações campesinas, e sua despossessão progressiva dessas terras pelos cercamentos, obrigando-os a se deslocar.

Silvia trabalha com a noção primária de Comuns – as terras comunais de que foram sendo expulsos os camponeses nos séculos iniciais do capitalismo – e continuam a ser até hoje. Considera essa perspectiva oposta à de filósofos marxistas como Antonio Negri, que, segundo ela, nos anos 90, elaboraram o conceito de Comum a partir do trabalho coletivo possibilitado pela tecnologia. Ressalta o fato, sempre silenciado, de que os minérios que alimentam a indústria da comunicação digital vêm cobrando um alto preço em vidas humanas e recursos da natureza.

“São também bens comuns a história e a memória coletiva”, lembra.

Para Federici, os zapatistas são a maior referência de vida comunal por já experimentarem, há vinte anos, a forma de vida e trabalho comunitário.

“Uma geração inteira cresceu dessa maneira. Os zapatistas ainda usam dinheiro porque não conseguem produzir tudo de que necessitam para viver. Mas se organizam de forma autônoma, sem qualquer vínculo com o Estado”, lembra ela, que visitou o território indígena em Chiapas, sul do México.“

Na entrevista coletiva que concedeu a jovens jornalistas, ativistas e historiadoras

Robôs, homens, espiritualidade

Sobre a visão de que, no futuro, o trabalho será desempenhado por robôs, Silvia Federici é taxativa: robôs não são capazes de fazer o trabalho afetivo envolvido na esfera reprodutiva da vida, como a geração da vida, a educação das crianças. Aqui, discorda de Angela Davis quando esta diz que espera ver o trabalho doméstico inteiramente substituído pelas máquinas.

“O que precisamos é ressignificar esse trabalho, torná-lo comum, derrubar as paredes e tirar do isolamento as mulheres que o praticam.”

Aos homens, aconselha tomarem nas mãos a luta contra a violência de gênero que fere e mata mulheres, perpetrada por seus pares. Chama a atenção para a atual produção de uma masculinidade mais violenta, com a multiplicação dos empregos na área de segurança privada.

“É responsabilidade dos homens educar outros homens”, afirma.

Sobre um possível papel da espiritualidade na luta ela lembra Standing Rock – ocupação dos nativos norte-americanos Sioux, em Dakota do Norte (EUA), apoiada por centenas de outras etnias e por não-índios, para impedir que fosse construído um oleoduto em suas terras sagradas.

“A espiritualidade é importante pois nos reconecta com algo maior que nós e traz esperança, neste mundo em que tantos já não veem futuro. Como os nativos norte-americanos, é preciso pensar nas sete próximas gerações antes de cada decisão a ser tomada.”

Fonte: IHU


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