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Autor Charles C. Camosy Idioma Portugués Pais Internacional Publicado 9 agosto 2017 22:15

Precisamos resistir ao admirável mundo novo de 'Gattaca' antes que seja tarde

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"É hora de desafiar a cultura do descarte que seleciona e recompensa quem é produtivo e eficiente, descartando quem não é. Se esperarmos que nossos netos o façam, já será tarde. Não intervir quando temos os meios para prevenir uma doença mortal?”.

Desta semana em diante, é oficial: podemos editar material genético de embriões. Esse feito está sendo exaltado como um grande avanço na luta contra doenças, mas, como o filme "Gattaca" demonstrou tão brilhantemente há duas décadas, a normalização dessa prática envolve inúmeras e profundas questões éticas. Se esperarmos que nossos netos as resolvam, será tarde demais.

O artigo é de Charles C. Camosy, professor de Teologia e Ética Social da Universidade de Fordham., publicado por Crux, 07-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

Não é surpresa para ninguém que venha acompanhando o desenvolvimento da tecnologia reprodutiva mesmo de maneira casual - na verdade, muitos temos nos preparado para este momento desde que o filme "Gattaca" foi lançado, há 20 anos -, mas, desde a semana passada, é oficial: podemos editar material genético de embriões.

Pesquisadores removeram de um espermatozoide uma mutação genética que causa uma doença cardíaca hereditária e observaram o que acontece quando essa célula espermática se une com um óvulo geneticamente normal. O resultado foi que, em 42 das 58 tentativas, o embrião usou a cópia (saudável) do gene materno para preencher esta lacuna.

Isso representa uma taxa de 72% de sucesso de correção da anormalidade genética. Na reprodução sexual, o gene defeituoso é transmitido em cerca de 50% dos casos.

Mas, como o filme "Gattaca" demonstrou tão brilhantemente há duas décadas, a normalização dessa prática envolve inúmeras e profundas questões éticas.

A primeira, é claro, refere-se ao status moral e o tratamento do embrião.

Para começar, há importantes questões éticas a respeito da criação em laboratório de outro ser vivo da espécie Homo sapiens (procriação desconectada da frutífera união sexual entre homem e mulher), que tornam-se ainda mais sérias quando os embriões são criados e descartados como se fossem lixo.

Além disso, a comunidade médica, obviamente, não pode fazer experimentos em sujeitos que não tenham nenhum benefício com a pesquisa e simplesmente sejam abandonados à morte. Se considerássemos os embriões também como seres humanos, que é o que são, faríamos mais do que dar de ombros (ou talvez nem sequer tomar conhecimento) ao saber que os 58 embriões utilizados no estudo citado acima são simplesmente descartados como se fossem lixo hospitalar.

Mas as questões éticas tornam-se ainda mais profundas ao pensarmos nas maneiras em que a edição de genes poderá será utilizada no futuro.

Claro, poucos se opõem a aumentar as chances de um embrião não ter doenças, mas o que se considera como "doença" é uma questão notoriamente escorregadia e polêmica. As pessoas com deficiência, por exemplo, têm doenças? Ou apenas uma maneira diferente de estar no mundo?

A síndrome de Down é uma doença? Talvez. Mas as pessoas com síndrome de Down relatam ser mais felizes do que os que não têm a síndrome. A cegueira e o nanismo são doenças? Talvez. Mas pais esperançosos que têm essas condições por vezes selecionam embriões para implantação com quem possam compartilhar a experiência de mundo rica, apesar de diferente, com seus filhos.

Discute-se até mesmo se ter cabelo ruivo é alguma doença. Afinal, a cor de cabelo resulta da mutação da proteína MC1R, a qual está associada a maiores chances de desenvolver Parkinson e melanoma.

Existe uma diferença moral que estabeleça a fronteira entre editar uma mutação genética que causa uma doença cardíaca e editar uma mutação genética que resulta em pessoas ruivas?

Se não existir, e aprovarmos a edição de genes em crianças no futuro, estaremos em um passeio selvagem de edição de genes não apenas para evitar doenças, mas para o aprimoramento genético - às vezes referido como a criação de "bebês desenhados". Não acredita? Pensa que encontraremos alguma forma de estabelecer um limite rígido contra o uso desta nova tecnologia reprodutiva, proibindo o aprimoramento?

Pense novamente. Nós já estamos usando tecnologia reprodutiva para "desenhar" nossos próprios filhos. Há anos, vemos pais esperançosos pagando montantes absurdos para doadores de óvulos atraentes, atléticos e com altas pontuações em exames nacionais. As clínicas de fertilidade têm um menu suspenso no site para as pessoas escolherem os "perfis" de doadores com os traços desejados.

Considerando especialmente a autonomia reprodutiva que nossa cultura oferece aos pais hoje, há poucos motivos para pensar que a edição de genes por questões de doença não levará à edição de genes para aprimoramento.

É um problema cultural que o papa Francisco acertadamente tem chamado de "medicina dos desejos". Mais comum nos países desenvolvidos, segundo o papa, ela envolve a busca pela perfeição física, levando à marginalização e ao descarte daqueles que não são considerados adequados.

O que a medicina dos desejos vai fazer com a edição de genes? Não precisa ser nenhum gênio para descobrir. "Gattaca" previu que uma cultura com esta tecnologia considerará inválidas as pessoas que não foram geneticamente editadas para os melhores traços, cujos nascimentos seriam vistos como "religiosos".

Nesse mundo distópico, a procriação a partir do ato sexual só resultaria de uma superstição irresponsável ou vulgar. No nosso mundo, o diretor do Centro de Direito e Biociências de Stanford escreve livros intitulados The End of Sex and the Future of Human Reproduction (O fim do sexo e o futuro da reprodução humana, sem edição brasileira), exaltando esse mundo como um desenvolvimento maravilhoso.

Alguns são se impressionam tanto com essas previsões. Art Caplan, diretor do Centro de Bioética da Universidade de Nova York, diz que elas o deixam "maravilhado" e afirma que a tecnologia para o aprimoramento genético está tão longe que esta não é uma questão para nós, mas para nossos netos.

Mas mesmo que ele esteja certo sobre o tempo que deve levar para que essa tecnologia seja realidade, o momento de resistir à cultura que levará à distopia do futuro reprodutivo é agora.

Agora é o momento de desafiar os pressupostos de capacidade construídos sobre nessa corrida acrítico em direção ao desenvolvimento da tecnologia. É hora de desafiar a ideia de que as crianças são coisas a serem criadas e manipuladas em laboratório, em vez de serem bem-vindas como presentes de valor incondicional que não vem a partir da vontade e do desejo dos pais.

É hora de desafiar a cultura do descarte que seleciona e recompensa quem é produtivo e eficiente, descartando quem não é. Se esperarmos que nossos netos o façam, já será tarde. Não intervir quando temos os meios para prevenir uma doença mortal?”.

Fonte: IHU


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