Sepé e as ruínas vivas

Idioma Portugués
País Brasil

O MST sente-se orgulhoso e seguidor das lições de coragem, luta, dedicação à causa, espírito de sacrifício e sentimento de amor à terra, legados do povo guarani e de Sepé. Antes de morrer, em 1756, o guerreiro indígena gritou ao Brasil e ao mundo: "esta terra tem dono"! E o dono é o povo. Nós, do MST, temos o compromisso de manter acesa a chama da soberania nacional e da vida digna

Caros amigos e amigas do MST,

Nesta edição queremos socializar a celebração dos 250 anos da morte de Sepé Tiaraju, que acontece na próxima semana em São Gabriel (RS). O MST sente-se orgulhoso e seguidor das lições de coragem, luta, dedicação à causa, espírito de sacrifício e sentimento de amor à terra, legados do povo guarani e de Sepé. Antes de morrer, em 1756, o guerreiro indígena gritou ao Brasil e ao mundo: "esta terra tem dono"! E o dono é o povo. Nós, do MST, temos o compromisso de manter acesa a chama da soberania nacional e da vida digna a todos os brasileiros e brasileiras. Abaixo, compartilhamos as palavras de Frei Sérgio Antônio Görgen, deputado estadual (PT-RS), sobre o tema: "Sepé e as ruínas vivas

O dia 7 de fevereiro de 2006 marca os 250 anos do assassinato de Sepé Tiaraju, considerado nas próprias crônicas de guerra do exército português "o maior general deles". Três dias depois, ocorreu o Massacre de Caiboaté, com o martírio de 1.500 guaranis missioneiros em uma coxilha do atual município de São Gabriel (RS). Longe de lenda, Sepé é um sujeito histórico concreto, datado, alferes e corregedor do Povo de São Miguel Arcanjo. Foi um dos principais comandantes da resistência guarani-missioneira à implementação do Tratado de Madri em terras do hoje Rio Grande do Sul.

Suas virtudes pessoais, o conjunto dos fatos que o envolveram e as circunstâncias de sua morte fizeram dele muito mais que um personagem individual. Ele se transformou na condensação histórica da luta, dos sonhos, dos feitos e do heroísmo de um povo. É um mito fundador que se tornou um símbolo maior de um projeto cheio de contradições, próprias do tempo, mas pleno de afirmações, conquistas e valores. Basta dizer que ali entre os sete povos missioneiros não havia escravos, sina triste que assolava quase todas as partes do mundo em que chegou a dita civilização cristã européia.
A civilização missioneira afirmava uma sociedade de iguais. Era baseada na propriedade coletiva, no cuidado com as crianças e com os idosos, na terra como um trabalho de todos. A educação básica era acessível e o trabalho feito com alegria, pois se cantava ao ir e ao voltar do labor diário. Havia um diálogo cultural contraditório e fecundo entre os jesuítas europeus os ameríndios guaranis, que resultou na democracia e na participação popular na eleição direta dos dirigentes das cidades missioneiras. Registrou-se o fantástico desenvolvimento das artes, da indústria, da agricultura e da pecuária.

A lança portuguesa e a pistola espanhola interromperam um rico processo civilizatório que já dava passos de adulto. Após o Massacre, sentindo o significado desta derrota, os guaranis tomam a iniciativa de tocar fogo na catedral de São Miguel. E aquela pujante catedral em ruínas permanece em pé como que uma cicatriz antiga, uma ferida mal curada no passado do povo. É um símbolo vivo de ruínas mortas. Sepé é o símbolo vivo das ruínas vivas, das gentes excluídas, pobres, exploradas, esquecidas, desprezadas, teimando em buscar seu lugar ao sol, um pedaço de terra repartida, emprego digno, uma infância decente, uma velhice respeitada e ter sua dignidade reconhecida. As ruínas de pedras estão em São Miguel das Missões. As ruínas de gente estão nas favelas, nos campos, nas fazendas, nas matas, nas cadeias, nas ruas, embaixo das pontes, nas fábricas, nas vilas, nos barracas de lonas pretas dos acampamentos, nas áreas indígenas, nas beiras de rios e nas beiras de estradas. A catedral é memória visual repleta de beleza plástica. Sepé é memória perigosa carregada de sonhos revolucionários.

Ainda não foi encarado de frente este nosso mal estar civilizatório. Há no inconsciente coletivo de nossa sociedade um sentimento de culpa mal resolvido. Por isto, para muitos, é mais fácil dizer que Sepé é uma lenda do que reconhecer que só existimos por conta do assassinato de um projeto civilizatório infinitamente melhor que o nosso.

Na terra de todos, cravou-se o latifúndio. No trabalho feliz, cravou-se a escravidão e a exploração. Em vez de pão nas mesas de todos, luxo nas mesas de alguns, fome e miséria nos lares de muitos. Em vez de dignidade de todos, humilhação das grandes massas que precisam do favor alheio para sobreviver.

Sepé morreu lutando. O general português Gomes Freire venceu. A fúria expansionista dos impérios europeus, abençoados por uma Igreja aliada aos poderosos, fez sentir o peso de suas espadas. O massacre brutal destruiu milhares de lares e milhares de sonhos. Sobre os destroços da civilização guarani plantaram-se sesmarias, que fizeram crescer injustiças, desigualdades, ódios, dores e mortes. Este é o projeto, com as adaptações dos tempos, que impera até nossos dias.

Mas de tempos em tempos renasce das entranhas da terra, na organização e nas lutas dos pobres, o sonho e o projeto de um mundo de irmãos, uma sociedade de iguais, uma terra de justiça, uma vida de dignidade.

As ruínas de pedras são intocáveis e como estão ficarão, se fielmente conservadas. Trata-se da prova visível da destruição promovida pelos impérios europeus. As ruínas de gente podem continuar sendo ofendidas, pisadas, esquecidas, desprezadas, feridas, reprimidas, dilaceradas e destruídas, mas sempre conservarão a possibilidade de reerguer-se, superar-se, ressurgir. Até chegar o dia em que o sonho se transforme em realidade viva.

Continuam vagando pelo sul da América grupos guaranis, herdeiros de etnia e de sangue desse projeto, dos massacrados em Caiboaté. O corpo é muitas vezes cambaleante, mas o olhar está sempre firme e fixo no horizonte, farejando e intuindo os sinais da utopia de um dia chegar na terra sem males.

Assim também o povo brasileiro, reencontrando-se com suas raízes mais profundas, cravadas no chão fértil da cantante civilização guarani, retomará a construção desse projeto de sociedade justa e feliz, interrompido a canhonaços nas coxilhas do Rio Grande do Sul no fatídico fevereiro de 1756".

Um forte abraço,

Secretaria Nacional do MST.

Mais informações em: www.projetosepetiaraju.org.br

Fuente: MST Informa

Comentarios