Biodiversidade, sustento e culturas #129
Os povos da América Latina nos mobilizamos de forma contundente contra a edição gênica porque entendemos que ela é um dos instrumentos mais recentes dessa abordagem brutalista usada por governos, corporações, aparatos militares, centros de pesquisa cooptados, crime organizado e a indústria armamentista para impor o controle mais total possível sobre a humanidade — e sobre a Natureza.
Quando dizemos natureza, surge uma torrente de raciocínios: eles realmente pensam que esse controle é mais fácil de consolidar-se caso a natureza deixe de ser uma variável. Em outras palavras, querem impor em todos os lugares e em todos os momentos, apenas seus desígnios, as decisões tomadas por essas instâncias e, dentro delas, por algumas poucas pessoas escolhidas, contra o conjunto de seres vivos do planeta.
Esses entes (seria demais chamá-los “do mal”?) buscam erradicar toda a humanidade que os estorve, e os estorva cada pessoa que não é considerada integrante das “raças permitidas”, toda pessoa que questione ou critique o jugo imposto, toda pessoa que habite o território cobiçado, toda pessoa que não se submeta a ser mão de obra escravizada.
Será que seus autoproclamados líderes e visionários querem dispor do planeta como se ele não tivesse entretecido com toda a humanidade que eles desprezam?
Será que eles realmente acreditam que o artificial, não importa quantas credenciais ostente, pode substituir o fio histórico que teceu o natural até agora?
Será que confiam plenamente na propaganda de uma ciência ávida por fundos para seus projetos exagerados?
Seus personagens vão se tornando cada vez mais vilões de histórias em quadrinhos, e seus discursos, suas falas, correspondem a esse totalitarismo que exclui qualquer raciocínio que não venha do soberano.
A incapacitação é um dos métodos mais devastadores que o capitalismo utiliza para subjugar populações inteiras à dominação corporativa com modelos de laboratório (ou de escritório de design) que, na realidade, representam um enorme desperdício do planeta que habitamos, incluindo as próprias comunidades.
Desde essas comunidades – que se apoiam na memória ancestral, que é a história viva entrelaçada nas relações com seus cultivos, com suas sementes, com seus processos de formação e seus cuidados meticulosos com a mata e a água – toda essa força destrutiva que atropela e mata, buscando varrer tudo com cansaço e decepção (por terem se visto refletidas tantas vezes), contém em si uma espécie de suicídio. Esse suicídio inclui genocídios permanentes em curso, como os abomináveis genocídios na Palestina e no Líbano, mas também no Congo, no Saara, em Honduras e o processo de estrangulamento que os Estados Unidos impõem a Cuba, à Venezuela e à América Latina em geral.
Há um rastro contínuo de morte que os poderes constituídos estão desesperados para impor a fim de crescer e se multiplicar. Um grande paradoxo, pois seu caminho leva ao abismo.
O caminho dos povos, por outro lado, defenderemos incansavelmente. É um caminho de afeto e força, de cuidado e de visão de futuro que, como afirmou o Processo de Nyéléni, no ano passado em Kandy, Sri Lanka, envolve “articular a diversidade sem perder de vista o horizonte comum”. E isto, felizmente, é inegociável.
A tradução para português foi realizada pelo Centro Ecológico.