Envenenar água dos Guarani e Kaiowá “não é ameaça isolada”, afirma coordenador da Aty Guasu

Idioma Portugués
País Brasil
Retomada de área da TI Guyraroká em 2025, visava combater a pulverização de agrotóxicos e pressionar o Estado a retomar procedimento de demarcação. Foto: Renato Santana | Cimi

Ameaças, ofensas racistas e violência contra indígenas no Mato Grosso do Sul são recorrentes. Uso de agrotóxicos como armas químicas já afetou diversas comunidades

A grande tensão política que perpassou o segundo turno das eleições presidenciais também gerou repercussões para diversas comunidades indígenas do país. No Mato Grosso do Sul, um servidor foi afastado por ameaça de “envenenar a água” de indígenas Guarani e Kaiowá após o resultado da eleição presidencial. Denúncias de violência e ofensas racistas contra indígenas e comunidades em todo o estado também passaram a compor este cenário e ganharam atenção nacional.

Para o coordenador da Aty Guasu, a Grande Assembleia Guarani e Kaiowá, Voninho Benites, a ameaça de envenenamento expressa uma realidade de ameaças, violência e violações que são cotidianas aos indígenas do estado – especialmente para as comunidades afetadas pela desterritorialização e em luta pela terra.

“Ponha veneno na água”

Em áudios que circularam nas redes sociais após a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um homem afirma que os indígenas deveriam ser envenenados por terem votado no candidato do Partido dos Trabalhadores (PT). Os áudios são atribuídos a um servidor da prefeitura de Tacuru (MS), que foi afastado após a repercussão do caso.

Numa sequência de gravações, um homem afirma que “quem votou no PT só foi os índios (sic). Desgraçados”. Em outro áudio do mesmo conjunto de mensagens, um homem afirma que “tem que ponhar (sic) veneno na água, tem que matar essas pragas na água”.

O áudio viralizou nas redes sociais após denúncia do cacique Ivan Montiel, da aldeia Sassoró, que também é vereador no município. “Estão disseminando o ódio e o preconceito, um pensamento colonial que não vem de agora”, destacou o cacique. “Não vamos aceitar esse tipo de preconceito contra nossas comunidades, ameaçando colocar veneno em água”.

“Casos de envenenamento de água já aconteceram diversas vezes contra nossas comunidades. Não é uma ameaça isolada, faz parte de como matam nosso povo”

As lideranças formalizaram a denúncia junto ao Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso do Sul, que deu prazo de 48 horas para a prefeitura de Tacuru esclarecer a veracidade, a autoria e quais medidas estão sendo tomadas.

Em nota, a prefeitura de Tacuru (MS) se comprometeu a colaborar com as autoridades competentes, incluindo o MPF e a Polícia Federal (PF), e informou que ter instaurado um “Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apuração rigorosa dos fatos e das responsabilidades” e afastado os servidores de suas funções “até a conclusão das investigações”.

A Aty Guasu, a Grande Assembleia Guarani e Kaiowá, tem exigido que para além do PAD e do afastamento, o servidor responda por crime. Para Voninho Benites, coordenador da Aty Guasu, uma fala como esta não é apenas uma manifestação verbal de ódio.

“Tacuru está contextualizada em um Cone Sul onde muitas comunidades são atacadas e muitas lideranças têm perdido suas vidas”, relembra. “Casos de envenenamento de água já aconteceram diversas vezes contra nossas comunidades como em Ypoi, onde jogaram veneno diretamente no rio, como quando aviões largam veneno em águas que ficam perto de muitos de nossos territórios, adoecendo nossas crianças. Não é uma ameaça isolada, faz parte de como matam nosso povo”.

Rezadores Guarani Kaiowá em Encontro nacional de lideranças indígenas na TI Panambi – Lagoa Rica. Foto: Tiago Miotto | Cimi

Histórico de ataques químicos

O uso de agrotóxicos como arma química contra comunidades indígenas tem um longo histórico no Mato Grosso do Sul.

Em 2025, uma das sequências mais graves de ataques contra o povo Guarani e Kaiowá ocorreu na Terra Indígena (TI) Guyraroka, em Caarapó. A comunidade da TI viveu meses de terror e violência depois que decidiu retomar uma fazenda sobreposta à sua terra para evitar a aplicação de agrotóxicos nas proximidades de suas moradias – prática que, nos últimos anos, gerou diversos problemas de saúde para os indígenas.

Depois da retomada realizada em setembro, a fazenda Ipuitã, vizinha à aldeia, foi palco de conflitos e de diversos ataques armados e ações abusivas de forças policiais contra a comunidade, inclusive com denúncia de agressão sexual a uma jovem. As violações à comunidade da TI Guyraroka já foram objeto de medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

No ano anterior, 2024, outra situação grave envolvendo o uso de agrotóxicos como arma química contra os indígenas foi registrado na TI Panambi – Lagoa Rica, no município de Douradina. Naquele ano, os Guarani e Kaiowá também estiveram durante meses sob o cerco de fazendeiros e jagunços, que montaram uma base em frente à retomada Yvy Ajere para atacar os indígenas (leia o artigo sobre o caso no relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2024).

Em meio aos conflitos, os Kaiowá e Guarani denunciaram que a água de um córrego utilizado por eles para lavar roupas, tomar banho e até para consumo apresentou uma coloração turva e esbranquiçada, e inúmeros peixes apareceram mortos, indicando um provável despejo irregular de substâncias tóxicas. Após entrarem em contato com a água, adultos e crianças apresentaram sintomas como diarreia, vômito, fortes dores estomacais e mal-estar. O caso foi denunciado às autoridades.

Aviões de fazendeiros, instalados em área dos Guarani Kaiowá, em Guyraroka, lançam agrotóxicos sobre plantações. Foto: comunidade Guyraroká

Em anos anteriores, a prática de pulverização aérea diretamente sobre acampamentos Guarani e Kaiowá também era recorrente. Em 2020, a Justiça Federal do Mato Grosso do Sul condenou um fazendeiro, um piloto de avião e uma empresa a indenizarem indígenas da comunidade Tey Jusu, na TI Dourados-Amambaipegua I, em Caarapó, pelo despejo de agrotóxicos em barracos de lona, em 2015. Na ocasião, crianças e adultos tiveram dores de cabeça e garganta, diarreia e febre.

Também em 2015, o tekoha Guyra Kambi’y, outra das comunidades que compõem a TI Panambi – Lagoa Rica, foi alvo de um ataque aéreo com dispersão de agrotóxicos. O Ministério Público Federal (MPF) caracterizou o ataque químico como “uma versão moderna do agente laranja usada na Guerra do Vietnã”.

Apenas um ano depois, 2016, caso semelhante ocorreu em Laranjeira Nhanderu, outra comunidade Guarani e Kaiowá em luta pela terra. Os indígenas apontaram que a pulverização aérea de agrotóxicos numa lavoura de soja vizinha à comunidade, localizada no município de Rio Brilhante, matou os peixes e contaminou um rio utilizado pelos indígenas.

A luta pela terra é o pano de fundo comum a todos estes casos, se repetiram em diversas outras comunidades do estado. As TIs Panambi – Lagoa Rica, Dourados-Amambaipegua I e Guyraroka aguardam regularização, e a comunidade de Laranjeira Nhanderu aguarda há décadas a conclusão da primeira etapa do processo demarcatório, o relatório de identificação e delimitação.

O mais recente relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, elaborado pelo Cimi, registrou que, em 2025, o Mato Grosso do Sul foi o estado com mais registros de violência contra a pessoa indígena, um dos três tipos de violência sistematizados na publicação – que incluem também a violência contra o patrimônio e a violência por omissão do poder público. Ao longo do ano, foram registrados no estado 102 casos de violência contra a pessoa, incluindo 37 assassinatos, 18 tentativas de assassinato e 18 casos de lesão corporal, além de episódios de racismo e discriminação, violência sexual, abuso de poder e ameaças várias.

Em abril de 2026, as denúncias foram novamente reforçadas em Brasília por uma delegação da Aty Guasu. A organização Kaiowá e Guarani apresentou aos órgãos federais uma lista de assassinatos de lideranças indígenas ligadas à luta pela terra, além de ataques armados, dezenas de atropelamentos, desaparecimentos, despejos ilegais e prisões arbitrárias.

“cortar a luz, cortar a água, que índio também não pode ter nada disso, é só lamparina. E eu acho que o índio também não podia voltar”

Ofensas no período eleitoral

“Bugrada”, “demônio”, “cão” e “ingratos” são alguns dos insultos e das ameaças que indígenas dos povos Terena, Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul passaram a receber após a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o mandato de 2027 a 2030. Relatos de manifestações racistas, ameaças à vida, à segurança e à integridade física dos indígenas foram registrados em municípios da região do Pantanal e do Cone Sul do estado durante e após o período eleitoral.

Os casos incluem ofensas em redes sociais, circulação de áudios com discursos discriminatórios, questionamentos sobre direitos básicos das comunidades indígenas e uma denúncia de impedimento ao uso de material de campanha durante a votação.

Em Sidrolândia, uma publicação no WhatsApp reuniu reclamações sobre o uso de fogos de artifício na aldeia Tereré. Na ocasião, uma pessoa utilizou a expressão racista “bugrada fdp” para se referir aos indígenas.

Em Nioaque, circulou um áudio com declarações racistas que questionavam o direito dos indígenas de participar das eleições e de acessar serviços básicos. Na gravação, o autor afirma que os indígenas não deveriam votar nem sair das aldeias e defende que não tenham acesso ao abastecimento de água ou à energia elétrica: “cortar a luz, cortar a água, que índio também não pode ter nada disso, é só lamparina. E água no poço. E eu acho que o índio também não podia voltar”.

O áudio também contém a afirmação de que os indígenas deveriam ser impedidos de sair das aldeias e circular pela região: “nós vamos começar a botar eles a trabalhar, mandar fechar a porteira para não sair mais para a cidade, que índio é só no mato”.

Ainda em Nioaque, uma fazendeira cuja propriedade está localizada em área reivindicada como território tradicional indígena teria enviado uma mensagem em um grupo de WhatsApp com ofensas ao vereador Sérgio Terena. Na mensagem, ela o chamou de “asno”.

Os relatos evidenciam diferentes formas de discriminação contra os povos indígenas, desde ofensas racistas em ambientes digitais até manifestações que questionam direitos políticos e o acesso a serviços essenciais. Os casos foram reunidos em um levantamento regional e demandam apuração para o esclarecimento das circunstâncias e a eventual responsabilização dos envolvidos.

“No Mato Grosso do Sul, os povos indígenas convivem há décadas com um cenário de violência sistemática, marcado pela demora na demarcação de seus territórios e pela imposição de condições precárias de vida”

Os Guarani e Kaiowá da retomada Guaaroka seguem na área e afirmam que por lá pretendem permanecer. Foto: Renato Santana | Cimi

Racismo e violência para além do período eleitoral

“As violências relatadas não são episódios isolados nem começaram no período eleitoral. No Mato Grosso do Sul, os povos indígenas convivem há décadas com um cenário de violência sistemática, marcado pela demora na demarcação de seus territórios e pela imposição de condições precárias de vida em reservas superlotadas, acampamentos, retomadas e beiras de estrada”, explica Matias Rempel, coordenador do Cimi Regional Mato Grosso do Sul.

“A negação de direitos básicos, como o acesso à água, à saúde, à educação e a condições dignas de trabalho, soma-se aos assassinatos e às tentativas de homicídio, à violência contra mulheres e crianças, às ações de forças policiais e grupos armados e às ameaças de fazendeiros”, prossegue o missionário.

“As manifestações racistas e as ameaças que ganharam visibilidade após as eleições expressam uma lógica de discriminação e perseguição que faz parte do cotidiano desses povos. Embora a violência atravesse diferentes governos, ela se intensifica em contextos políticos que legitimam o discurso de ódio e a ofensiva contra os direitos indígenas, como ocorreu durante o governo de Jair Bolsonaro. No Mato Grosso do Sul, esse cenário também se mantém sob o governo estadual, ligado ao setor ruralista e a um histórico de articulação política contrária aos direitos territoriais indígenas”, avalia.

“Crimes e ameaças com teor de ódio político somaram-se a diversas camadas de violações que estão permanentemente em curso, produzindo, nesta última semana, o cenário fúnebre amplamente divulgado pelas mídias sociais e veículos de comunicação”, lamenta Matias. “Infelizmente, esta não foi uma semana atípica para os povos do Mato Grosso do Sul. Pelo contrário, foi o fluxo ordinário da realidade imposta a estes povos que seguem sendo massacrados enquanto exigem o direito à demarcação de seus territórios”.

Nota da Funai

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) divulgou, na manhã desta quinta-feira (29), uma nota sobre as denúncias de violência e ameaças contra indígenas no Mato Grosso do Sul.

O órgão informou que acionou a Polícia Federal para que os fatos sejam apurados com celeridade e rigor, e informou que atua em conjunto com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e o Ministério da Igualdade Racial (MIR) para qualificar as denúncias e solicitar a investigação dos casos.

Fuente: CIMI

Temas: Acaparamiento de tierras, Agrotóxicos, Criminalización de la protesta social / Derechos humanos, Defensa del Territorio , Movimientos campesinos, Pueblos indígenas

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