Crise climática é crise do capital: sem participação popular, transição energética só reproduz injustiças

Idioma Portugués
País Brasil
A mesa desta manhã debateu a disputa geopolítica mundial, os impactos da crise climática e os desafios da transição energética justa e popular. Foto: Nivea Magno / MAB

A primeira mesa da manhã desta terça-feira (03) debateu a necessidade de que, no contexto de mudanças e eventos climáticos extremos, a transição energética seja feita de forma justa, com a participação e em favor do povo.

“A crise climática não é obra do ser humano, como se todos fossem igualmente culpados. É uma crise do capital”, alertou a integrante da coordenação nacional do MAB, Elisa Estronioli na manhã do segundo dia da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Atingidas. A mesa debateu a disputa geopolítica mundial, os impactos da crise climática e os desafios da transição energética justa e popular.

Na ocasião, Elisa explicou que a crise é, na verdade, obra do capitalismo, que orienta toda a produção para a acumulação privada e não para o benefício de todos. Assim, “temos a riqueza cada vez mais concentrada, os trabalhadores cada vez mais explorados e os bens comuns da natureza sendo consumidos num ritmo muito maior do que os ciclos da natureza conseguem se repor, rompendo o equilíbrio da vida e do planeta”, continuou Elisa.

A crise climática não está nunca desconectada do capitalismo e os sinais são claros: “Ao mesmo tempo em que o mundo permanece numa crise, a acumulação de riqueza também nunca foi tão acelerada. O 1% mais rico tem 45% da riqueza mundial, e parece que, quanto mais os bilionários ganham dinheiro, mais o planeta esquenta. Será coincidência?”, questionou.

Elisa Estronioli abordou a importância da pressão e organização do MAB por uma transição energética justa e popular. Foto: Nivea Magno / MAB

Elisa seguiu apontando que a transição energética é uma das estratégias construídas pelo capital em resposta à crise econômica e à crise climática, e que o verdadeiro debate não é sobre a fonte da energia – se eólica, solar, hidrelétrica – mas, na verdade, “é um debate sobre disputa tecnológica e disputa sobre bases naturais vantajosas”. Segundo ela, é importante compreender que “não vai existir transição energética de verdade no Brasil se a gente só olhar para as fontes e não discutir o conjunto da política energética”.

“No MAB a gente afirma que a transição energética precisa ser justa e popular. Justa porque não pode ampliar as desigualdades, não pode fazer as coisas de qualquer jeito violando os direitos dos atingidos e tem que garantir energia barata para todos. Popular porque precisa ser orientada para um projeto de soberania, com o povo no controle, com forte participação, e não para favorecer só as empresas”, concluiu Elisa.

Por uma transição feita pelo povo e para o povo

“Nós temos água potável, nós temos sol, nós temos ventos, os minerais raros e uma série de recursos naturais, que hoje são a ganância de quem já os explorou e acabou com eles ou de quem não os têm”. A análise é de Fabíola Antezana, da Secretaria de Políticas Externas do Sindicato dos Urbanitários do Distrito Federal e da Plataforma Operária e Camponesa da Água e da Energia (POCAE).

Fabíola Antezana apontou elementos da transição energética no Brasil e a importância do debate amplo e inclusivo sobre a questão. Foto: Nivea Magno / MAB

Fabíola comentou que o nosso modelo energético hoje está quase que totalmente entregue ao mercado financeiro estrangeiro, de modo que a exploração dos nossos recursos vai quase toda para fora do Brasil. Ela explicou ainda sobre o perigo de não aprofundar as propostas de transição energética que, muitas vezes, estão a serviço do capitalismo.

“Venderam um discurso para nós que a transição energética era a única saída possível para enfrentar as mudanças climáticas, mas quando vemos o que está acontecendo nos outros países, a gente percebe que essa transição pode acelerar o processo das mudanças climáticas”.

Reafirmando a necessidade de uma transição justa e popular, Fabíola lembrou que quando se começou a discutir estes novos modelos no Brasil, pareceu possível acreditar que alguns problemas seriam superados: a falta de participação popular, o impacto sobre as mulheres, a falta de meios de subsistência. Entretanto, advertiu ela, “nas usinas de produção de energia eólica e solar no Brasil, 60% das terras são griladas pelas grandes empresas”. 

Durante sua fala, ainda relatou que o setor elétrico no Brasil possui energia excedente, produzindo mais energia do que é consumido pela população. “Hoje temos empreendimentos parados, porque não tem quem consuma. Se eu tenho um sistema que já está assim, porque produzir mais energia?”, indagou Fabíola, reafirmando que hoje o Brasil produz grande parte de sua energia em benefício de potências econômicas e não do povo brasileiro.

A mesa contou também com a participação de Esther Ferrer, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI); de Sandra Alves, da Coordenação Nacional do Movimento Camponês Popular (MCP); Eliane Fozel, Trabalhadora Petroleira de São Paulo; e Jeiéli Laís dos Reis, Coordenadora do Coletivo Nacional de Gênero do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

A realidade das atingidas e a experiência da Usina Veredas Sol e Lares

Para dialogar com as falas de Elisa e Fabíola, participaram da mesa atingidas de três territórios diferentes do Brasil, partilhando a sua realidade e reafirmando a necessidade de organização.

Fernanda Maria, da Zona Leste de São Paulo, contou: “Sou atingida por enchentes e quero afirmar que a luta e a força da jornada das mulheres é uma luta por justiça, dignidade e pela vida”. Mirene Alves, de Rondônia, relatou sobre a experiência da seca na Amazônia em 2024: “Passamos a seca e cinco meses depois veio a enchente e inundou tudo. Estamos abandonadas, mas estamos juntas aqui, hoje, para conseguir uma posição em favor das atingidas de Rondônia”, disse Mirene.

Joyce Silva apresentou a usina fotovoltaica flutuante Veredas Sol e Lares, em MG. Foto: Nivea Magno / MAB

Joyce Silva é da região do Vale do Jequitinhonha e Rio Pardo, em Minas Gerais, e durante sua exposição, explicou que a região está sendo gravemente atingida pela exploração do lítio. Entretanto, é lá que nasce, pelo MAB, um modelo energético justo, sustentável e popular,  a maior usina fotovoltaica flutuante da América Latina

Durante o momento, as participantes da Jornada assistiram trechos do documentário Veredas Sol e Lares: o MAB na luta por uma transição energética popular, que será lançado, em breve, nas redes nacionais do Movimento. Joyce finalizou lembrando que “Não foi fácil, mas nós conseguimos e foi graças à organização do MAB. Hoje temos a maior associação de atingidos da América Latina, em um projeto em que o povo ajudou a pensar, a construir e é o povo que está usufruindo hoje”.

Fonte: Movimento Dos Atingidos Por Barragens - MAB

Temas: Crisis capitalista / Alternativas de los pueblos, Crisis climática, Feminismo y luchas de las Mujeres

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