Vendendo o paraíso: empreendimentos de luxo cometem crimes ambientais e expulsam a população nativa de Porto Seguro
No destino conhecido por ser retiro de bilionários, imobiliárias constroem condomínios, hotéis e casas de veraneio de alto padrão em territórios que deveriam ser preservados.
Desde pequeno, João Benedito Casimiro, hoje com 57 anos, fugia de casa, no centro de Arraial d’Ajuda, distrito do município baiano de Porto Seguro, e descia a ladeira em direção à Praia dos Pescadores.
Mas ninguém se preocupava, o território era seguro. Seus pais se conheceram naquela mesma praia. “Acho que fui feito dentro de uma canoa”, brinca.
Seu pai era um dos pescadores que davam nome à praia, então paradisíaca. Mesmo enjoando em alto-mar, por incontáveis vezes João o acompanhou na pescaria, acreditando que um dia também seria pescador.
“As pessoas falavam: esse menino vai acabar morando na praia. Nunca vi menino pra gostar de praia igual esse aí”. A profecia se realizou. João construiu um quiosque na praia em que cresceu, onde vive e vende seus pescados.
Hoje ele é conhecido por ser o último pescador do Arraial que ainda vive próximo ao mar.
João Pescador em seu quiosque, na Praia dos Pescadores, no Arraial D’Ajuda. Fotos: Julia Dolce.
A população nativa da sede e dos distritos de Porto Seguro, marco zero da colonização brasileira, tem perdido espaço para a especulação imobiliária voltada ao veraneio de luxo.
A partir dos anos 1980, a cidade foi se tornando um dos principais destinos do turismo de massa no Brasil. O município ocupa o terceiro lugar no ranking de quantidade de leitos hoteleiros do país, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro.
O avanço do turismo não veio sem consequências para a população local. Dos nativos do Arraial, poucos conseguem pagar os atuais custos dos imóveis à beira-mar. “Os moradores estão sufocados, com a corda no pescoço, tudo caro”, afirma João Pescador, como é chamado pelos moradores.
A casa em que ele mora é conhecida como Kiosk do João Pescador. É uma cabana de madeira decorada com o lixo que João retira do mar. O espaço tem um deck, algumas mesas e uma faixa de areia cercada por uma corda de náilon, que ele mesmo colocou. “É para as tartarugas desovarem”, explica.
Mas ele teme que seus dias na Praia dos Pescadores estejam contados. João relata estar sofrendo pressão e ameaças para deixar o local.
Em entrevista ao Joio, ele atribuiu parte dessa pressão ao ex-prefeito de Porto Seguro, Gilberto Abade (2009 a 2012, pelo PSB). Abade teria oferecido R$ 30.000 para que o pescador deixasse o quiosque.
A informação está no inquérito policial para investigar um episódio de furto ao quiosque, objeto de um boletim de ocorrência aberto pelo pescador em 2023. No curso da investigação, João disse à polícia que acreditava que Abade poderia estar por trás do episódio.
No inquérito, que foi arquivado por falta de provas, consta que o ex-prefeito negou qualquer relação com o caso do furto. A reportagem teve acesso ao documento, no qual Abade informou que teria oferecido a quantia a João para “indenizá-lo”, uma vez que sua casa estaria sobre a praia, área pública, e que, portanto, “seria demolida”.
A orla de Porto Seguro, no entanto, é repleta de empreendimentos de luxo irregulares que avançam sobre as praias, como o Joio contou nesta outra reportagem.
A reportagem consultou a defesa do ex-prefeito sobre o uso do termo “indenização” e questionou qual seria a relação entre ele e uma possível demolição do quiosque.
O advogado de Abade afirmou que o termo poderia significar uma “proposta de aquisição do direito de João” ou uma “suposta tentativa de negociação entre dois particulares”.
O suposto interesse imobiliário de Abade em relação a João tem contexto. O ex-prefeito não é exatamente uma figura neutra em relação à presença do pescador na praia.
Seus filhos são empresários do setor imobiliário e do ramo hoteleiro. Atualmente, são proprietários de um terreno vizinho ao quiosque de João, o Coqueiral, que no último 21 de novembro foi alugado para a realização de uma grande festa, com direito a shows e piscina.
Até o ano passado, a família de Abade também era proprietária do Sítio Pasárgada, terreno vizinho ao Coqueiral, imediatamente atrás do quiosque de João.
Em nota enviada à reportagem, a defesa de Abade negou o interesse da família na área ocupada por João, bem como a participação em qualquer tipo de pressão ou envolvimento em ameaças contra o pescador.
Mas João relata que não dorme mais sossegado: “é um olho fechado e outro aberto. Todo mundo quer morar no paraíso, querem saber só do dinheiro”.
Hoje, porém, ele tem peixes maiores para se preocupar.
Fonte: O Joio e O Trigo
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