Soja, o fio sutil entre a China e a destruição do ecossistema sul-americano
Há uma porção da América do Sul significativamente rebatizada de "República Unida da Soja". A área - que cobre grande parte do Brasil, quase toda a Argentina e grandes áreas da Bolívia, Paraguai e Uruguai - recebeu o nome de uma campanha publicitária lançada pela multinacional suíça Syngenta, desde 2017 de propriedade da chinesa ChemChina, líder mundial na venda de sementes e pesticidas.
A tradução é de Luisa Rabolini.
Se nesses locais até cinquenta anos atrás os cultivos eram mais variados, hoje é a soja que monopoliza o cenário expandindo-se em enormes extensões de território trabalhado com a monocultura de leguminosas. Devido à enorme demanda internacional, à soja foram destinados cerca de 46 milhões de hectares de terra da República, uma área que corresponde a quase o dobro da superfície de todo o Reino Unido.
Somente no Mato Grosso, estado brasileiro ao sul da Amazônia, desde a década de 1980, foi criada uma área onde atualmente 7 milhões de hectares são destinados ao cultivo de soja, em comparação com os 3 milhões de 2000. A mudança no lugar - chamado de cerrado - não aconteceu de maneira natural, mas através de uma reconversão do solo feita com o objetivo de tornar a terra adequada para o cultivo da soja. Para isso, foram utilizadas técnicas invasivas, fertilizantes e pesticidas químicos que tiveram um impacto drástico no território desta área da América Latina. Hoje, o Brasil produz cerca de 117 milhões de toneladas de soja por ano e é o principal consumidor mundial de pesticidas.
A pergunta, portanto, deve parecer óbvia: por que a demanda por soja cresceu a ponto de tornar conveniente produzir exclusivamente essa leguminosa?
As causas do aumento da demanda de soja
Devemos deixar imediatamente claro que o aumento da demanda não depende, de fato, do aumento do uso de leguminosas nas dietas veganas e vegetarianas. A motivação deve ser encontrada exatamente no seu oposto, isto é, no avanço vertiginoso da presença de carne nas mesas de todo o mundo.
Se até os anos 1960 o consumo de carne na Europa era em média de 50 quilos por pessoa ao ano - enquanto nos Estados Unidos já era de cerca 89 quilos - em 2017 a quantidade anual de produto consumido por cada habitante do Velho Continenteatingiu a cota de 80,6 quilos. De fato, o que faz a maior diferença no cálculo total é outro ator de que falaremos mais adiante, a China, que passou de uma média de 4 quilos ao ano por pessoa para os atuais 58,2. Enquanto isso, para confirmar os números dessa evolução, é importante dizer que a produção mundial de carne passou de 71 milhões de toneladas em 1961 para 323 milhões de toneladas em 2017, elevando assim para 70 bilhões o número de animais mortos a cada ano.
Mas, apesar de muitos de nós não saberem disso, para alimentar os animais dos quais nos alimentamos é necessário produzir uma quantidade muito alta de soja, especialmente OGM. De fato, é um alimento fundamental em todos as tipologias de criação intensiva, devido à concentração muito alta de proteínas de alto valor biológico e da presença de aminoácidos limitantes, especialmente a lisina. A ração para suínosconsiste de 20% de sementes oleaginosas dessa leguminosa e, até o momento, 70% da produção mundial de soja é destinada a alimentar os rebanhos das fazendas industriais.
Cultivar a soja suficiente para alimentar todos esses animais precisava - e ainda precisa - de um vasto território. Os principais atores internacionais, especialmente a China, tiveram que incentivar os agricultores de todo o mundo a mudarem os próprios cultivos, tornando conveniente para eles a produção de leguminosas graças às importações. Quando isso não é aceito por aqueles que vivem e trabalham nessas terras, uma das técnicas mais utilizadas por indivíduos, governos ou empresas - sobretudo multinacionais - é comprar em bloco enormes lotes de terra em áreas férteis, convertê-las em base aos próprios interesses; tudo isso passando por cima dos direitos dos pequenos agricultores, obrigados a abandonar suas terras e destruindo o ecossistema anterior, que muitas vezes era rico em biodiversidade, como no caso da República Unida da Soja. Esse fenômeno é chamado de land grabbing (literalmente apropriação de terras) e ameaça a conservação do meio ambiente, a segurança alimentar e os direitos das populações locais, além de criar um número cada vez maior de migrantes econômicos.
O papel da China
Como mencionado, a China é a nação em que, proporcionalmente, o consumo de carne aumentou acima de todas as outras. Com isso, também aumentou exponencialmente o número de animais presentes no país, fazendo com que o gigante asiático atingisse a cota de 700 milhões de suínos criados a cada ano, a metade das cabeças de todo o mundo. Como visto anteriormente, no entanto, as rações para alimentar o gado tem uma alta presença de soja e a China, apesar da extensão, não tem o território adequado para o cultivo da quantidade exigida. Por esta razão, apesar de sua política de importação, muitas vezes autárquica, Pequim teve que liberalizar as importações de soja, focando principalmente o mercado latino-americano e o estadunidense.
A guerra de impostos entre a China e os Estados Unidos também influenciou inevitavelmente o comércio da soja. No embate entre os dois gigantes mundiais, o governo de Xi Jinping, de fato, aplicou à leguminosa produzida nos EUA - embora a medida tenha sido aplicada integralmente apenas em novembro de 2018 - um imposto de 25%, aumentando assim sua importação da América Latina, especialmente do Brasil. A escolha da China levou os países latino-americanos produtores de soja a aumentarem seu cultivo, que já é muito alto. Para fazer isso, a fronteira agrícola brasileira se deslocou mais para o norte, abocanhando pedaço a pedaço partes importantes da floresta amazônica.
Se Lula havia colocado um freio à exploração intensiva das terras brasileiras, já com o governo Temer a situação estava mudando. Com o advento de Jair Bolsonarona presidência do Brasil, a tendência acabou por inverter-se totalmente. Como havíamos relatado em um nosso artigo anterior, de fato, o novo presidente brasileiro conseguiu vencer as eleições principalmente graças ao apoio dos grandes fazendeiros de soja, garantindo-lhe sinal verde para a exploração das terras e privando os indígenas – que vivem naqueles lugares - de todo direito. Não por acaso, o primeiro ato realizado por Bolsonaro na qualidade de presidente foi precisamente aprovar uma série de leis em favor de grandes produtores e magnatas da indústria química destinada ao cultivo.
O mês de fevereiro de 2019 confirmou essa tendência. De fato, a secretária especial de assuntos estratégicos Maynard Marques de Santa Rosa anunciou neste mês um plano para integrar no sistema nacional de produção a zona dos afluentes ao norte do rio Amazonas. Esse plano de grande escala também inclui três projetos de infraestrutura - uma hidrelétrica, uma ponte e uma extensão rodoviária - que abrangerão grandes áreas da floresta tropical. Por enquanto o projeto ainda está em discussão no Parlamento brasileiro.
Por trás dessa corrida à soja, há empresas que gerenciam o seu comércio, como a francesa Louis Dreyfus, as estadunidenses Cargill, Archer Daniel Midland, Bunge, o conglomerado chinês Cofco e a brasileira Amaggi, de propriedade da família de Blairo Maggi, ex-governador do Mato Grosso e ex-ministro da agricultura. Todos esses atores, juntos, gerenciam 57% das exportações brasileiras de soja.
Conclusões
Se a tendência no consumo de carne não diminuir, segundo o professor e pesquisador americano Tony Weis - autor de The Global Food Economy: The Battle for the Future of Farming - em 2050 será necessário empregar dois terços das terras cultiváveis, destinando-as à soja, e as consequências no nosso planeta serão devastadoras: a biodiversidade dará lugar a extensões de monoculturas, e a Amazônia, pulmão da Terra, desaparecerá aos poucos. No nível macro, são necessários regulamentações importantes para assegurar que esse sistema resulte sempre menos conveniente para gigantes mundiais e grandes multinacionais; em nível micro, no nosso pequeno âmbito, devemos fazer a nossa parte medindo cuidadosamente o consumo diário de carne e escolhendo, sempre que possível, comprar de pequenos agricultores desvinculados da grande indústria alimentícia.
Fontes e aprofundamentos:
- Ian Verrender, Is globalisation coming to an end?, ABC, 19/06/2016
- Istituto per gli studi di politica internazionale (ISPI), Stefano Liberti, Il futuro del cibo. Soia e geopolitica: viaggio nella filiera alimentare che sta cambiando il mondo
- Francesco Betrò, Il Brasile ha abbandonato l’Amazzonia (e chi la difende), Lo Spiegone, 23/07/2017
- Francesco Betrò, La svendita dell’Amazzonia è una questione politica, Lo Spiegone, 07/09/2017
- Francesco Betrò, Omofobo e misogino, chi è il prossimo (probabile) presidente brasiliano, Lo Spiegone, 10/10/2018
- Francesca Rongaroli, Lo “sviluppo” in Amazzonia, secondo Bolsonaro, Lo Spiegone, 10/03/2019
- Marta Gatti, Diritto alla terra negato in Brasile, Osservatorio Diritti, 04/10/2017
- Matteo Savi, Lo scontro tra “Land Grabbing e diritti delle comunità”, Lo Spiegone, 15/05/2018
- World Wide Fund for Nature, WWF, L’Amazzonia nel piatto, 2014
Fonte original: Lo Spiegone
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