Cultivando liberdade: a diversidade como pilar da Reforma Agrária Popular

Idioma Portugués
País Brasil

Do anonimato do "primeiro corte de arame" à institucionalização do Coletivo LGBT+, o MST redefine a luta no campo através da emancipação humana e do respeito às diferenças.

A história do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que já ultrapassa quatro décadas de existência, é indissociável da presença de sujeitos LGBT+. Embora o debate tenha ganhado força coletiva apenas na última década, essas militâncias estiveram presentes desde os primórdios do movimento, “desde o primeiro corte de arame na região Sul”, como lembrado na intervenção do Coletivo LGBT+ no dia 20, durante o 14º Encontro Nacional do MST, realizado na Bahia, em 2026.

Nos primeiros anos, a ocupação dos espaços ocorria, sobretudo, onde as identidades “cabiam”: nas cirandas infantis, em secretarias estaduais ou em áreas de menor visibilidade política, mas fundamentais para o trabalho de base e para a construção das primeiras comunidades camponesas organizadas.

A virada de chave para uma visibilidade mais ampla começou a se desenhar a partir de 2010 e teve seu ponto de inflexão no Congresso Nacional do MST, em 2014, quando corpos diversos ocuparam a mística nacional de forma intencional e politizada. Viviane, militante do Rio Grande do Sul, destaca o contraste entre os períodos: “Estamos aqui no 14º Encontro, em 2026, e o último tão expressivo havia sido em 2009. Naquele momento, a participação ainda não era organizada. Hoje, ver tantos rostos diversos e sentir-se livre é uma vitória para nós”.

A partir desse processo, o MST passou a afirmar, de forma cada vez mais explícita, que não há Reforma Agrária Popular possível sem a inclusão de todos os sujeitos que constroem a terra e o projeto político do movimento.

Do ponto de vista organizativo, a formalização do debate ocorreu em 2015, com a realização do primeiro seminário sobre diversidade sexual na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Em 2016, uma plenária realizada em Caruaru (PE) reafirmou a necessidade da criação de um coletivo próprio. Esse acúmulo político resultou, em 2018, na alteração das normas organizativas do movimento — o conhecido “caderno de bolso”. Pela primeira vez, o documento deixou de se referir exclusivamente a “homens e mulheres” e passou a incorporar a noção de diversidade, reconhecendo explicitamente os sujeitos LGBT+ e garantindo sua participação nas instâncias de decisão.

Atualmente, esses sujeitos ocupam a linha de frente da produção agroecológica, da formação política e da gestão organizativa. Pedro Alex, conhecido como “Passarinho”, dirigente em Pernambuco, afirma que o enfrentamento à LGBT+fobia é tão estruturante quanto a luta contra o latifúndio: “Não avançaremos na justiça social sem nossa participação. Ser LGBT+ no campo é um desafio enorme. Na cidade, a aceitação parece maior; o campo ainda é muito fechado. Existimos para romper também as cercas do preconceito”.

A presença de militantes LGBT+ em coordenações de centros de formação e em setores estratégicos, como o de finanças, demonstra que “fazer o close” e “fazer a luta” são dimensões inseparáveis da militância popular.

A ampliação do debate também evidenciou a necessidade de cuidar das relações humanas para além da posse da terra. Para o MST, produzir alimentos saudáveis implica, igualmente, “produzir relações não adoecidas”. Essa compreensão se reflete no acolhimento de diferentes vivências e corpos, como o de Leucina (Leo), dirigente em Goiás, mulher autista e mãe de uma jovem bissexual. Leo ressalta que o respeito às suas necessidades específicas — como restrições alimentares e condições de segurança — expressa o novo momento vivido pelo movimento: “Não busco aceitação, busco respeito. A sexualidade não está em pauta; o que está em pauta é a nossa segurança e o acesso à saúde conforme as necessidades dos nossos corpos”.

Apesar dos avanços, os desafios permanecem estruturais e contínuos. A resistência de setores conservadores, interpretações religiosas limitantes e práticas de homofobia — inclusive entre gerações mais jovens — ainda atravessam os territórios. Por isso, a campanha permanente contra a LGBT+fobia no campo é tratada como uma tarefa coletiva, assim como o enfrentamento à violência contra as mulheres. Viviane reforça que essa luta precisa envolver todo o movimento, alcançando escolas, cooperativas e associações, como parte de um processo de “emancipação humana indispensável à Reforma Agrária Popular”.

No plano internacional, a experiência brasileira tem irradiado influência, contribuindo para a criação do Coletivo Nacional LGBTI+ da Via Campesina Brasil e incidindo diretamente na articulação da diversidade na Via Campesina Internacional. Esse intercâmbio fortalece o programa agrário do MST, agora construído também a partir das vivências cotidianas de quem enfrenta a dissidência sexual e de gênero sob o sol do campo. Em 2025, o coletivo celebrou 10 anos de organização formal, consolidando-se como um pilar estratégico da política popular do movimento.

O horizonte apontado é o da plena segurança, cidadania e dignidade. O 14º Encontro Nacional do MST, que reúne mais de 3 mil pessoas em Salvador (BA), reafirma a convicção de que esse caminho é irreversível. Como sintetiza a mística do coletivo: “LGBT+ Sem Terra não tem preço”. A determinação segue firme para que travestis, homens trans, bissexuais, lésbicas e tantas outras identidades não apenas ocupem a terra, mas sejam reconhecidas e respeitadas como parte essencial do projeto de uma nova sociedade. 

- Editado por Iris Pacheco.

Fonte: MST - Brasil

Temas: Movimientos campesinos

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