A biodiversidade, mesa da humanidade

Em toda a América Latina, os movimentos indígenas e camponeses estão lutando para que se resgatem os velhos cultivos e se recupere a biodiversidade

A alta dos preços de alimentos básicos assusta porque significa mais fome para os empobrecidos da terra. E o mais assustador é que os preços subiram não porque houve alguma tragédia natural que diminuísse o volume da produção agrícola, ou porque aumentou o petróleo. A razão maior do aumento é a política de monopólio das multinacionais que compram safras inteiras e se apoderam dos bens para especular e forçar o aumento de preços, à custa da fome e da miséria de grande parte da humanidade. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) acredita que o aumento de preços dos alimentos aumentará em 100 milhões o contingente de pessoas que passam fome no mundo, hoje calculado em 850 milhões. Na reunião dos países ricos, os presidentes disseram claramente que não podiam fazer nada para reverter este quadro.

Quem está fazendo alguma coisa para vencer a crise é a sociedade civil e especificamente os movimentos sociais do campo. Nesta semana, em muitos Estados do Brasil, celebrou-se o 25 de julho como o dia do trabalhador rural. E durante toda esta semana se realizam conferências e fóruns de reflexão e aprofundamento para muitas comunidades que se consagram, cada vez mais, a um ou vários ramos da agricultura ecológica.

Quando se entra neste assunto, uma descoberta espantosa é o fato salientado pelas Nações Unidas de que, em sua história, a humanidade tem consumido mais de sete mil espécies vegetais. Entretanto, nos últimos anos, deixou de cultivar mais de ¾ destas sementes e fica dependendo apenas de três – milho, arroz e trigo – para atender a quase 70% de suas necessidades caloríficas (Revista Fórum, junho de 2008). Por depender de tão poucos tipos de cultivo, a população fica muito mais vulnerável às crises de estoque, oferta e demanda. Estes cereais são impostos a todo o mundo substituindo cultivos ancestrais muito mais próprios para cada solo e cultura, como, por exemplo, na América Latina, o amaranto e o quinua, grãos que eram essenciais na alimentação de gerações inteiras. Cultivado por maias, astecas e incas, este cereal foi abandonado até a década de 60. Em 1979, a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos declarou o amaranto “o melhor alimento de origem vegetal para o consumo humano” (Revista Fórum, junho 2008, p. 38). Atualmente, redescoberto justamente pelas comunidades camponesas, ele ainda enfrenta o problema de não ter mercado. O fônio é um cereal da África ocidental reconhecido por suas propriedades nutritivas e por seu sabor positivo. Entretanto, a Nestlé, Monsanto e outras multinacionais ensinam os africanos a abandonarem o seu cultivo para dependerem do trigo, do arroz e do milho que estas monopolizam e importam. No interior do Brasil, em muitas regiões, as pessoas se alimentavam de beiju, tapioca e cuscuz, alimentos mais nutritivos e sadios que o pãozinho da padaria. No entanto, hoje, o trigo importado substitui o cultivo da mandioca e o costume alimentar do povo brasileiro. Os índios ianomâmi conhecem e cultivam mais de 40 espécies de mandioca. A nossa sociedade só conhece duas e, além disso, a política atual favorece o trigo, assim como a monocultura da soja ou da cana de açúcar que dão mais dinheiro aos ricos da terra.

Em toda a América Latina, os movimentos indígenas e camponeses estão lutando para que se resgatem os velhos cultivos e se recupere a biodiversidade. Para eles, isso depende muito da concepção que se tem da mãe Terra, precisa de uma reforma agrária justa e pacífica, assim como supõe que se valorize a agricultura familiar e camponesa.

Para quem conduz sua vida por uma visão ética e espiritual, os alimentos não são simplesmente instrumentos para matar a fome e garantir a sobrevivência da espécie. Tanto na Bíblia, como nas diversas tradições espirituais do nosso povo, o alimento é, acima de tudo, sinal e instrumento de relação social e amizade. Ninguém recebe alguém em casa sem lhe oferecer ao menos um cafezinho. E quantas vezes, a pessoa nem deseja o café, mas o toma para dar mais alegria a quem o recebe. Na espiritualidade afro-descendente, não existe culto sem alimento e se trata de comida abundante. Em toda a sua vida, o que caracterizou o modo de Jesus ser foi sua opção por partilhar a mesa com os pobres e excluídos da sociedade. Até hoje, nas Igrejas cristãs, a Ceia do Senhor deveria ser sacramento desta comensalidade aberta e inclusiva. Cuidar da biodiversidade na agricultura é garantir saúde nas nossas refeições e mais do que uma decisão social e política, é também um caminho espiritual.

Marcelo Barros é monge beneditino e autor de 30 livros, dos quais: “Dom Helder Câmara, Profeta para o nosso Tempo”. Ed. Rede da Paz, 2006.

Brasil de Fato, Internet, 1-8-08

Comentarios

17/09/2008
as sociedades da mesa america , por historia
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