Brasil: Cargill já devastou 40 mil hectares de terras no Pará, denuncia Pe. Edilberto Sena
A devastação da Floresta Amazônica e outros impactos ambientais causados pela atuação de multinacionais exportadoras de soja como a Cargill Agrícola S/A são temas que precisam ser tratados com mais seriedade no Brasil. A constatação é feita por entidades como a Frente em Defesa da Amazônia, que reúne em torno de 15 organizações ligadas à defesa do meio ambiente
ENTREVISTA - Segundo um estudo divulgado pela Organização Não-Governamental Greenpeace, cerca de 1,2 milhão de hectares de florestas foram convertidos em plantações de soja até 2004. Um hectare equivale a área de um campo de futebol.
Em 2003 a Cargill inaugurou um porto de grãos irregular na cidade de Santarém (PA). Desde então, entidades ambientalistas e a Justiça tentam exigir da Cargill a realização do Estudo de Impacto Ambiental da obra, que até agora não foi feito. Para saber mais sobre os danos que a atuação desta empresa trouxe para a região, a Agência Notícias do Planalto, conversou com o padre Edilberto Sena, da Frente em Defesa da Amazônia. No início de outubro, ele recebeu o prêmio Mahatma Gandhi, na Índia, em reconhecimento ao trabalho da Frente contra a devastação das florestas pelas multinacionais. Ouça agora a entrevista.
Agência Notícias do Planalto: Padre Edilberto, como a Cargill começou a ter interesse por esta região do estado do Pará?
Edilberto Sena: Em 2000, com a crise do “mal da vaca loca” na Europa e o grande crescimento econômico da China, a soja se tornou uma “commoditie” (produtos "in natura" cultivados que podem ser estocados por certo tempo sem perda de sua qualidade) de alto valor. A soja passou a ser uma entrada de dólar de grande importância e o agronegócio tinha valores internacionais. O Brasil, segundo maior produtor de soja do mundo, precisava crescer e se abriu a essa nova fronteira agrícola. Em 2000, a multinacional de grãos a Cargill veio a Santarém, porque já tinha feito antes seus estudos técnicos e resolveu instalar seu porto moderno na cidade. Nesse ano nós juntamos quatro pequenas associações e fizemos uma documentação denunciando ao Ministério Público Federal a ilegalidade daquela instalação na frente da cidade. O Ministério Público acatou a denúncia e processou a Cargill. A empresa por meio de recurso foi ao governo do estado do Pará, que deu uma licença ilegal para a Cargill continuar sua obra. O Ministério Público Federal continuou o processo porque ela não tinha feito o Estudo de Impacto Ambiental (EIA).
ANP: E com o começo das atividades desta multinacional, quais foram os danos causados à Floresta Amazônica?
ES: A Cargill exportou de 2003 a 2006, através do Porto de Santarém, dois milhões de toneladas de soja. No entanto apenas 5% desta exportação é produzida na região. São apenas 40 mil hectares de terra. Eu digo apenas comparada a desgraça que está sendo feita em estados como o Mato Grosso e o Rio Grande do Sul. Porém 40 mil hectares de terra explorados por monocultura possui um efeito tremendamente danoso. Para nossa estrutura e nosso ecossistema é gravíssimo. Só para ter uma idéia em Belterra (município próximo à Santarém) foi feita a primeira devastação em 1934. Sessenta anos depois, a mata de Belterra estava em recuperação. Chegaram os sojeiros e foram derrubando de novo, porque a terra ainda é da União. Eu tenho um documento de um deles que derrubou 2.440 hectares e plantou soja, o outro derrubou 900 hectares. Se você fizer um sobrevôo, vai ver a desgraça.
ANP: Existem outros problemas causados pela monocultura da soja na região?
ES: Estão utilizando agrotóxicos, inseticidas, herbicidas. Esses produtos são jogados ou com as mãos ou através de aviões. Como nossa região é de muita chuva, imagina como essa água contaminada vai escorrendo para os igarapés e os rios, poluindo a região. Outra coisa é que esta produção fantástica fez com que o Produto Interno Bruto (PIB, que é soma de todas as riquezas produzidas no município) de Santarém desse um salto. Os economistas da região fizeram uma análise há poucos dias, constatando que o PIB teve um crescimento muito grande nos últimos cinco anos. Mas eles se perguntam onde está o resultado deste lucro fantástico: está em Minnessota (maior estado da região Centro-Oeste dos Estados Unidos) no centro da Cargill, porque o pessoal leva para fora. Se você vier a Santarém, vai ver ruas esburacadas, filas no hospital. Aumentou a população, os serviços são os mesmos de antes e os lucros estão nas mãos de poucas pessoas.
ANP: Padre Edilberto, qual sua opinião sobre as ações dos governos perante esta situação que se estende por décadas no Pará?
ES: Nós lutamos 20, 25 anos para mudar estes governos e governos. Então o governo Lula quando assumiu o poder, assumiu o compromisso de ser fiel a todos os compromissos feitos anteriormente. Foi buscar as lideranças dos movimentos populares que eram quase todas ligadas ao Partido dos Trabalhadores, para assumir cargos no Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente de Recursos Naturais Renováveis), no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), na Polícia Federal. Retirou da luta as lideranças, que primeiro tinham que se comprometer com o trabalho, com isso diminuiu a liderança da base e isso veio enfraquecer as organizações populares.
Vocês acabaram de ouvir o padre Edilberto Sena, da Frente em Defesa da Amazônia (PA).
De Brasília, da Agência Notícias do Planalto, Gisele Barbieri