Com crescimento de 12%, agro puxa PIB, mas pouco contribui com bem-estar
Agropecuária cresce exportando soja enquanto alimentos ficam mais caros no país.
A economia brasileira cresceu 1,4% no primeiro trimestre de 2025, puxada pela alta de 12,2% da produção agropecuária entre o início de janeiro e o final de março. Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística na sexta-feira (20) e confirmaram o bom momento do agro.
Sem as secas nem as inundações de 2024, o setor caminha para colher a maior safra da história brasileira em 2025. Serão cerca de 328,4 milhões de toneladas de grãos, também segundo o IBGE. Mais da metade disso será soja.
“A agropecuária está sendo favorecida pelas condições climáticas favoráveis e conta com uma baixa base de comparação do ano passado. É esperada uma safra recorde de soja, nosso produto agrícola mais importante”, confirmou a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, ao comentar o PIB do trimestre.
Acontece que toda essa produção e crescimento pouco contribui com o bem-estar da população brasileira. Primeiro, porque dois terços da soja produzida aqui será exportada, cenário que não contribui para a disponibilidade de alimentos no país nem reduz seus preços; segundo, porque a atividade agropecuária extensiva quase não gera empregos no Brasil, não distribui renda e, portanto, pouco estimula o crescimento de outros setores.
Fora as questões econômicas, ainda há todo custo ambiental que essa atividade gera.
“Se a gente levar o país a sério, não é algo a se comemorar”, disse o economista Weslley Cantelmo, presidente do Instituto Economias e Planejamento. “ Tem o desmatamento, a utilização de água, a perda de biodiversidade… E ainda é num setor que não gera tantos empregos e que tem uma economia associada bastante simplória”.
Outros setores com mais impactos positivos para o toda a economia praticamente mantiveram sua produção estável do final do ano passado para o final do primeiro trimestre de 2025. O setor de serviços cresceu 0,3%; já a indústria encolheu 0,1%.
Juros e dólar
As indústrias de transformação e construção tiveram quedas 1% e 0,8%, respectivamente, frente ao quarto trimestre de 2024. Eles, assim como a indústria como um todo, estão sendo negativamente afetados pela “política monetária restritiva”, disse Palis.
A política monetária citada tem a ver com as altas da taxa básica de juros, a Selic, implementadas pelo Banco Central (BC) a partir do ano passado. Os juros encarecem o crédito e reduzem o consumo e investimentos.
Eles pouco afetam, porém, o financiamento à produção de soja, que é subsidiada pelo governo por meio do Plano Safra. O setor agropecuária também acabou se beneficiando com a alta do dólar, pois suas exportações passaram a valer mais.
“O resultado do agro é bastante esperado. A questão do câmbio ajudou bastante”, complementou Cantelmo. “Tem cada vez mais a produção sendo voltada para exportação. Mas isso gera a tensão sobre inflação”.
Em abril, a alta acumulada em 12 meses dos itens de comida e bebida chegou a 7,81% – a maior desde fevereiro de 2023, no segundo mês deste mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que prometeu alimentos mais baratos.
Emprego e distribuição
O peso do preço dos alimentos acaba recaindo sobre os trabalhadores, que não se beneficiam do crescimento do agro. Para José Luis Oreiro, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), isso tem a ver como o setor trabalha.
“Do ponto de vista da geração de emprego, o impacto é muito restrito, porque o agronegócio brasileiro é extremamente produtivo, tem alta produtividade tanto por trabalhador como por hectare. Emprega muito pouca gente”, afirmou.
Por essas e outras razões, a riqueza gerada pelo agro acaba não tendo efeitos sobre outras áreas da economia nacional, diferentemente do que acontece com o crescimento dos serviços e da indústria, principalmente. “O resultado positivo do PIB é sempre bom, mas é importante ressaltar que o agronegócio não tem tração sobre a economia brasileira. Não tem a capacidade de arrasto sobre os demais setores de atividade econômica, até porque as máquinas, equipamentos e insumos utilizados no agronegócio são basicamente importados”, acrescentou Oreiro.
Considerando isso, Pedro Faria, economista e doutor em história pela Universidade de Cambridge, diz que o agronegócio é um setor que concentra renda no Brasil à medida que cresce. “Você gera um excedente que é muito concentrado na mão dos proprietários da renda da terra”, afirmou ele.
Soluções
Para economistas, é preciso estimular outras áreas da economia para que o Brasil não fique tão dependente do agro. Juliane Furno, economista e professora de economia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), defende que medidas para direcionar os dólares que exportadores do agro recebem para a compra de máquinas para a indústria com um câmbio mais favorável, por exemplo.
“Precisamos de mudanças significativas, inclusive algum direcionamento para as importações, garantindo que as divisas que o agronegócio possam ser utilizadas para importar máquinas e equipamentos para a indústria de transformação”, disse.
Mauricio Weiss, economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diz que o governo também precisa conseguir espaço no Orçamento para investimento e fomento à pesquisa, que geram ganhos de produtividade.
Weiss ressaltou que, além disso, é fundamental que a taxa básica de juros da economia seja reduzida. Com os juros nesse patamar, o investimento em títulos da dívida pública brasileira, que tem risco zero, passa a valer mais a pena do que um investimento em produção. “É preciso baixar os juros, pois é um entrave para o investimento. Não só em termos de custo, como também de fonte alternativa para aplicação dos recursos em títulos e não em bens de capitais”, explicou.
Eric Gil Dantas, economista do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) e autor de um dos artigos do livro Os Mandarins da Economia: Presidentes e Diretores do Banco Central Do Brasil, ressaltou que não há sinalizações para uma queda significativa dos juros no curto prazo. “Infelizmente, Gabriel Galípolo [presidente do BC] vem dia após dia mostrando uma continuação do Campos Neto. Viveremos mais anos com a Selic estrangulando a economia e destruindo as contas públicas”.
- Editado por Thalita Pires.
Fonte: Brasil de Fato
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