“Ultraprocessados podem ser piores que cigarros”
A frase do jornalista Michael Moss, que investigou a relação entre as indústrias alimentícia e tabagista, não é uma provocação: corporações dominaram a arte de fazer produtos que não conseguimos parar de comer.
O jornalista norte-americano Michael Moss passou anos investigando como a indústria de alimentos aprendeu a nos fazer comer muito mais do que precisamos. Em suas reportagens e livros, ele mostrou que os ultraprocessados são produtos meticulosamente formulados para estimular nosso desejo, combinando sal, açúcar e gordura em processos industriais complexos com o explorar nossos mecanismos biológicos de fome e saciedade.
Para entender como esse modelo se consolidou, Moss voltou sua atenção para uma indústria que já dominava a arte de vender produtos nocivos em larga escala: a do tabaco. Nos anos 1980 e 1990, empresas como a Philip Morris enveredaram no setor de alimentos: compraram gigantes como a General Food e a Kraft, e aportaram dinheiro, estratégias e uma lógica de negócio moldada em décadas de enfrentamento (e negação) de danos à saúde pública. “Você criou um produto que as pessoas sabem que não deveriam amar, mas não conseguem resistir”, ouviu Moss de executivos do tabaco.
Nesta entrevista, o autor de Sal, Açúcar, Gordura: Como os Gigantes da Alimentação Nos Fisgaram e de Hooked: Food, Free Will, and How the Food Giants Exploit Our Addictions (Viciados: Comida, Livre-Arbítrio e Como os Gigantes da Indústria Exploram Nossas Dependências, em tradução livre, obra ainda sem tradução para o português) discute como essa lógica segue operando hoje e por que, em suas palavras, os ultraprocessados podem ser “ainda mais problemáticos do que os cigarros”.
Confira os melhores trechos.
Seu foco tem sido investigar o que torna os ultraprocessados tão atraentes. No seu primeiro livro, você explorou ingredientes como sal, açúcar e gordura, e como a indústria dominou a combinação desses elementos para nos “fisgar”. Depois, você passou a investigar nossa própria biologia – por que somos tão suscetíveis a isso. Você pode explicar essa transição?
Quando comecei a apuração do meu primeiro livro, Salt, Sugar, Fat, eu estava tentando responder a uma pergunta básica: como nos tornamos tão dependentes de alimentos ultraprocessados? Como passamos a desejar menos uma refeição caseira com família e amigos do que algo como um lanche congelado de micro-ondas, consumido sozinho, andando na rua?
A investigação acabou se tornando quase uma história de detetive dentro da indústria. Em grande parte, a resposta estava na engenharia usada para maximizar o apelo dos produtos. Eles são desenhados para maximizar o apelo. Isso envolve aperfeiçoar o tipo e a quantidade de açúcar, trabalhar o teor de gordura – o que eles chamam de mouthfeel – e ter dezenas de tipos de sal que criam o que chamam de explosão de sabor.
Passei a ver esses elementos não como ingredientes, mas como armas para nos fazer querer mais e mais.
Além disso, há o marketing. As empresas de refrigerante, por exemplo, investem muito em estádios esportivos porque sabem que, se colocarem uma Coca ou uma Pepsi na mão de uma criança em um momento de felicidade, essa associação pode durar a vida inteira.
Mas, no fim do livro, um jornalista me perguntou se esses produtos eram tão viciantes quanto drogas e como, diante disso, eu poderia oferecer alguma esperança às pessoas.
Na época, achei a comparação exagerada. Mas, ao final do meu segundo livro, mudei de perspectiva. Passei a acreditar que, em alguns aspectos, esses produtos podem ser ainda mais problemáticos do que cigarros ou álcool – talvez até mais do que algumas drogas – porque exploram a nossa biologia.
Nós somos programados para buscar comida – e para comer em excesso – porque isso nos ajudava a sobreviver à escassez. Tudo em nós é projetado para nos deixar animados com comida e comer mais do que precisamos. Hoje, com os ultraprocessados, essa característica é explorada diariamente.
Você acha que cigarros e ultraprocessados são semelhantes, tanto na forma como a indústria nos fisgou quanto no fato de sermos um alvo fácil? Ou os alimentos são ainda piores?
Eu diria que podem ser piores. Com o cigarro, você sabe que está se entregando a um vício. Pode até aceitar o risco. Mas com a comida, acreditamos que estamos comprando algo bom para nós. E é difícil compreender que muitos desses produtos não são.
Além disso, comida é essencial para a vida. Você não pode simplesmente evitar.
A indústria fala em “share of stomach” – a disputa por espaço no nosso estômago. E, coletivamente, esses produtos acabam substituindo os alimentos que deveríamos consumir. Para mim, esse deslocamento é o principal problema.
Você lembra do momento em que percebeu que, para entender a indústria de alimentos, precisaria olhar também para o tabaco? Foi desde o início ou um houve um momento de descoberta?
Quando comecei a apurar Salt, Sugar, Fat, eu não pensava no tabaco. Eu não sabia que, no fim dos anos 1980, a Philip Morris havia comprado empresas como General Foods, Kraft e Nabisco, tornando-se a maior fabricante de alimentos.
Só descobri isso quando entrevistei Bob Drane, envolvido na criação dos Lunchables. A Kraft tinha excesso de carne processada e queijo e buscava uma nova forma de vender esses produtos. Drane criou os Lunchables – bandejas compartimentadas voltadas para crianças. O produto fez sucesso, mas o custo era alto, e os executivos queriam interrompê-lo.
Então ele foi até a Philip Morris. Explicou a situação, e os executivos basicamente disseram: você já fez a parte difícil. Criou um produto que as pessoas sabem que não deveriam amar, mas não conseguem resistir. E deram recursos para que ele continuasse.
Foi aí que caiu a ficha. O tabaco trouxe dinheiro e ousadia. Os executivos de alimentos eram mais conservadores; os do tabaco eram mais agressivos e confiantes. Essa combinação levou a indústria a outro patamar.
O tabaco influenciou o ecossistema mais amplo da indústria de alimentos?
Sim e não. Houve também uma forte pressão de Wall Street. As empresas passaram a focar no desempenho de curto prazo e no preço das ações. Isso levou a um comportamento mais conservador – menos inovação real, mais variações de produtos existentes. O tabaco trouxe ousadia, mas o mercado financeiro também teve um papel importante.
Você acha que o tabaco também influenciou a forma como as empresas lidam com críticas?
Sim. Executivos da Philip Morris alertaram os executivos de alimentos de que eles enfrentariam problemas semelhantes aos do tabaco, por causa de doenças como diabetes. Eles sabiam o que estava por vir.
E havia consciência interna disso. Um advogado da empresa me disse que conseguia fumar um cigarro por dia, mas evitava Oreo porque não conseguia parar de comer. Isso é bastante revelador.
Você pode falar sobre o processo envolvendo os Oreos e as gorduras trans?
Um advogado processou a empresa por causa das gorduras trans, que eram reconhecidamente prejudiciais. A empresa já estava removendo esse ingrediente, mas o maior risco era o acesso a documentos internos. Esses documentos poderiam revelar o que a empresa sabia. Por isso, o caso foi rapidamente resolvido por meio de acordo. Isso ajuda a explicar por que a indústria de alimentos não enfrentou processos como os do tabaco.
Por que a Philip Morris saiu do setor de alimentos?
No início dos anos 2000, eles começaram a vender essas operações. Parte disso foi para focar no tabaco globalmente, parte por causa de novos produtos como o vape, e parte porque perceberam o aumento da preocupação com os ultraprocessados. Provavelmente viram riscos no futuro.
Hoje vemos uma empresa como a British American Tobacco (BAT) investindo em produtos de bem-estar. O que você acha?
É uma estratégia muito inteligente. O mercado de bem-estar está crescendo – suplementos, alimentos funcionais – muitas vezes com pouca base científica.
Isso se conecta ao que chamo de “health washing”: reduzir um ingrediente problemático, como o açúcar, mas aumentar outros, ou adicionar proteína e vender o produto como saudável. É uma forma de se adaptar às tendências sem mudar o essencial.
Editada por Thalita Pires.
Fuente: ojoioeotrigo.com.br
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