Europa resiste aos transgênicos

Idioma Portugués
País Europa

Esforço da União Européia para liberar mercado ainda em 2006 sofre oposição da Grécia e de outros países. Na Grécia, conhecida como um país de contestadores, a população está toda de acordo em um ponto: alimentos transgênicos não devem ser plantados, vendidos ou consumidos ali

Este e alguns outros países da União Européia (UE) com postura semelhante estão na linha de frente de uma batalha envolvendo o futuro desse tipo de alimento na Europa, a única parcela do planeta que até agora não cultiva sementes nem compra produtos transgênicos. O problema básico é que os europeus, cuja cultura alimentar foi desenvolvida durante séculos, hesitam em plantar ou consumir tais produtos.

Diante da pressão internacional e, especificamente, de uma ação iniciada por Estados Unidos, Canadá e Argentina junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), a UE notificou todos os países membros de que deverão abrir suas portas a produtos transgênicos ainda neste ano.

Cinco países, porém, estabeleceram oito tipos de proibição. E outros usaram seu voto no Conselho de Ministros da Europa para bloquear a entrada de produtos transgênicos. A disputa cria mais um fosso entre a OMC e a UE e provoca também uma divisão entre os aliados europeus de um lado e Estados Unidos e Canadá, onde estão as maiores plantações transgênicas, de outro.

LOBBY E ULTIMATO

Segundo os europeus, os Estados Unidos não relutam mesmo em recrutar seus diplomatas para insistir junto aos países europeus para que aceitem as sementes transgênicas. "A primeira visita que qualquer novo ministro grego recebe é a do embaixador dos Estados Unidos, pressionando para que o país aceite esse tipo de produto", diz Theodore Koliopanos, deputado e ex-vice ministro do Meio Ambiente da Grécia. "A pressão é incrível."

Como a UE é um mercado comum, os legisladores em Bruxelas querem uma solução única para todos. Assim, uma semente que for vendida na Grã-Bretanha precisa ser vendida na Polônia e na Grécia também. Mas os que se opõem observam que o leite não pasteurizado, por exemplo, é legal na França, mas não na Grã-Bretanha.

Embora sejam mínimas, às vezes inexistentes, as evidências científicas de que os alimentos transgênicos prejudicam a saúde, em boa parte da Europa eles são tão impopulares que empresas gigantes da área de varejo não pretendem vendê-los. Em pesquisas, os consumidores dizem não estar convencidos de que sejam seguros.

"O ministro do Meio Ambiente que ceder e permitir que produtos transgênicos entrem neste país nunca mais será eleito", diz Nikos Lappas, dirigente do maior sindicato de agricultores da Grécia. "Obrigar os agricultores a adotarem a lavoura transgênica será um suicídio econômico, já que nosso mercado não aceita esses produtos."

Empresas de biotecnologia como a Monsanto e Syngenta reiteram que a entrada dos alimentos transgênicos na Europa deve ser aprovada imediatamente, porque os alimentos transgênicos já vêm sendo consumidos em grande parte do mundo há uma década, sem efeitos adversos notórios à saúde. Sua segurança, diz Christopher Horner, da Monsanto, já foi "ratificada por inúmeras autoridades científicas e agências reguladoras confiáveis".

De acordo com Simon Barber, da EuropaBio, "a UE implementou sistemas para tratar dos produtos geneticamente modificados e agora o mercado tem de ser autorizado a operar. Se países membros estão infringindo a lei, esperamos que a comissão tome medidas contra isso".

Funcionários da representação comercial americana sustentam que "a UE está estabelecendo prazos excessivos para as aprovações dos produtos transgênicos, o que provoca atrasos e impede a comercialização de muitos produtos cultivados nos Estados Unidos".

Lá, mais de 89 milhões de hectares são ocupados pela lavoura especializada em transgênicos - a maior do mundo - e quase nada é vendido à UE.

SEM MERCADO NEM SEGURO

Sementes e plantações transgênicas contêm genes enxertados em laboratório que lhes conferem vantagens, como mais resistência às pragas. Mas o pólen das plantas pode se espalhar de um campo para outro, misturando-se com o pólen de plantações convencionais.

A Grécia e outros países dizem que isso torna impossível o cultivo dos transgênicos, porque eles rapidamente se infiltrariam na agricultura e na cadeia de suprimento alimentar. Na maior parte da Europa, onde as pequenas fazendas são a regra, é difícil criar "zonas neutras" entre campos contíguos.

"Acho possível manter essas plantações separadas nos Estados Unidos, mas seria difícil na Grécia, por causa do tamanho", diz Julian Kinderler, do Instituto de Lei e Ética Biotecnológica da Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha.

Além disso, as empresas de seguro da área agrícola na Europa já avisaram que não darão cobertura para os agricultores que forem responsabilizados se suas plantações transgênicas contaminarem outras, convencionais.

"Se nosso mercado não vai comprar o produto e as seguradoras não nos garantem, como vamos cultivar os transgênicos?", diz Lappas, do sindicato dos agricultores da Grécia. "Este é um mercado global implacável e se todos nós começarmos a plantar milho transgênico, que já é produzido maciçamente, estamos acabados, já que outros países poderão fornecê-lo a um preço menor."

Em muitas áreas onde o cultivo de produtos transgênicos é proibido, pequenos agricultores apostam no apelo das plantações orgânicas, que por sua qualidade são comercializadas a preços mais altos. Na Polônia, por exemplo, 1,5 milhão de agricultores ainda cultivam seus produtos sem uso de pesticidas e o país tornou-se um importante produtor de alimentos naturais, de acordo com a International Coalition to Protect the Polish Countryside, que está movendo campanha pelo total banimento dos transgênicos do mercado polonês.

Fonte: Jornal Estado de Sao Paulo, 11-6-06

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