Biodiversidade, sustento e culturas #128

"Os povos continuam lá. E sua integridade e sua presença não são fáceis de erradicar porque a comunidade movimenta fontes de confiança, de emoção, de cuidado e de carinho. As propostas de vida integral e harmônica com a natureza da maioria dos povos originários na complexa imensidão que nos molda continuarão sendo relevantes. A unidade dos povos é necessária porque tudo está interconectado. Os povos se saúdam e se autogovernam através de suas florestas, rios, sementes, desertos, nuvens, oceanos e lagoas. Os territórios devem estar nas mãos dos povos. Os povos fazem propostas, são antifascistas, seguem a agroecologia e a vida comunitária, trabalham, festejam, sustentam a cultura e as sementes ancestrais, fazem propostas de paz e de reforma agrária integral. A diferença é evidente. A luta é pela vida e os povos do mundo nos convidam a isso".

EDITORIAL

Uma revista se forma a partir de fragmentos que devem se encaixar para oferecer algo significativo. Nunca é apenas uma coleção de textos escolhidos aleatoriamente e reunidos aos demais.

Por mais de 30 anos, nosso papel tem sido buscar o significado oculto ou evidente do acontecer dos povos e comunidades em sua luta contínua contra tudo o que os oprime, incapacita, marginaliza ou os força a migrar para outras regiões, outros países ou para as cidades, a fim de dar uma reviravolta nas vidas que levavam.

Buscamos reunir quatro discussões com temas em comum. Há a guerra “mundial”, como um guarda-chuva abrangente, e embora a América Latina aparentemente não tenha todo o estrondo, o furor, nem a destruição que são divulga1 dos em outros lugares, a quantidade de assassinatos e desaparecimentos configura uma violência e brutalidade globais, permanentes.

1 Essa guerra, sendo contínua, midiática e, ainda assim, distante, parece não existir e, ao mesmo tempo, é a constante ansiedade que nos é imposta pelas notícias, mesmo que qualquer reportagem possa ser fake news. 2. O autoritarismo e a confusão digital estão propensos a aprisionar os jovens com seu negacionismo climático, da mesma forma como as telas de cada celular do planeta. 3. A Natureza é uma vítima silenciosa das guerras? Ou já está clamando, exigindo seus direitos e se manifestando, e apenas os povos conscientes conseguem ouvi-la e interpretá-la? 4. Trata-se da invasão do agronegócio como uma guerra contra a subsistência e, claro, da distorção genética que, com seus grilhões, busca impedir que as sementes se transformem de uma forma natural.

Tudo isso junto é a guerra e a violência que ela acarreta. Sua intolerância e sua moral dupla colocaram o mundo em xeque.

Eis, portanto, os ganchos aí colocados. Como a mídia digital e as telas estão contribuindo para o mal-estar que não é fruto dessa guerra distante, mas que a guerra é, em parte, consequência de todo esse choque, inquietação, ansiedade, desinformação e confusão promovidos pelas telas incorporadas em dispositivos totalmente pessoais, individuais e intimamente ligados à nossa existência.

Os e as jovens são os que mais claramente sofrem os efeitos disso, e a extrema direita vai se aproveitando dessa desinformação, e se apressa em adestrar jovens homens e mulheres em seu estado de perplexidade, por mais paradoxal que pareça, como bem aponta Leonardo Melgarejo.

Analisar a ascensão renovada da direita, e pior ainda se ela for extrema, nos faz refletir sobre as vulnerabilidades de nossas sociedades urbanas e rurais, instruídas, com escolarização ou sem ela. Por isso, é crucial que as pessoas se reúnam novamente em Porto Alegre, questionando o autoritarismo e o militarismo e, ao mesmo tempo, reivindicando a agenda dos povos e da natureza.

Se há algo que caracteriza este século 21, é que a confusão não reconhece fronteiras de classe, etnia ou cor da pele. A direita quer todo mundo nivelado pela ignorância, pela cegueira e pelo medo. Essas condições não são meramente condições culturais, pois carregam um peso político, uma carga de exploração, espoliação e brutalidade que se estende desde o canto mais isolado de uma fábrica, da oficina doméstica de alguém que trabalha montando algum componente em uma cadeia de suprimentos, ou em uma parcela de terra na encosta de um morro, até os arranha-céus que explodem com os mísseis. Até os hospitais e escolas que desabam, deixando crianças inertes, assassinadas.

A guerra é permanente e busca garantir que os mais ricos se apoderem de tudo. Hoje, está mais claro do que nunca que o cercamento medieval dos espaços comuns das comunidades intensificou a busca por poder e controle, a apropriação de tudo o que se possa imaginar. E a Natureza sofre com isso, mesmo quando não há pessoas presentes, o que sempre há, e apesar do aprimoramento da contabilização das baixas de guerra, “a natureza não tem lugar na contabilização da guerra, não é registrada, não contribui para uma agenda de contenção e definitivamente, não de reparação”, como afirma Esperanza Martínez em um dos textos desta edição. 

A monopolização de terras e a invasão do agronegócio são um brutal “refinamento” das condições de espoliação, devastação, incapacitação e expulsão, que emulam ou servem de modelo para a brutalidade perpetrada por exércitos, grupos paramilitares ou jagunços contra pessoas desarmadas. Florestas são incendiadas, nascentes, represas e córregos são privatizados, casas são destruídas e se proíbem as formas de habitar os territórios, as técnicas antigas, os saberes ancestrais, a relação com os sinais da chuva, do vento ou das nuvens, da umidade do solo e da temperatura. Cem anos após o assassinato de Emiliano Zapata, lembramos o lema “Terra e Liberdade!”, de que a terra pertence a quem a trabalha e que, juntamente com as montanhas e as águas, deve ser cuidada e cultivada pelos povos. É urgente deter a monopolização de terras e os novos latifúndios agroempresariais. Reconsiderar tudo o que acontece com essa invasão do agronegócio nos faz também compreender a lógica da guerra que, como diz novamente Esperanza Martínez, “não se limita aos cenários de guerra declarada. Se repete, com diferentes intensidades temporais, com as economias extrativistas em geral, como a mineração legal e ilegal, e a exploração de petróleo. Nesses territórios sacrificados, a violência não desaparece: ela se normaliza.”

Nesse cenário cotidiano que prefigura a brutalidade da guerra “mundializada” e midiática, a desfiguração das sementes já dura 30 anos contados na Argentina e certamente um pouco mais em outros países, acompanhada pelo envenenamento constante de tudo: água, a mata, animais, plantas, fungos, pessoas. E isso também é uma guerra contra a subsistência. Uma guerra contra os povos, contra a sua sustentabilidade e o seu horizonte de futuro.  A Palestina hoje significa um recrudescimento que grita para nós (para que nos neguemos, com nossa humanidade plena, ao crime planetário que simboliza o que se busca fazer a todos os povos da terra). Querem fazer desaparecer nossas relações mais elementares e que sirvamos como mão de obra escravizada em diferentes cenários do inferno ou exilar-nos, nos arrancando de nossos ambientes de subsistência. As descrições da Divina Comédia de Dante, sobre o inferno, ou mesmo da própria Bíblia, não vão além desse quadro de violência, confusão, pânico, desesperança, desfiguração do mundo, devastação dos ciclos da água, terra arrasada, imaginações corroídas pela Inteligência Artificial que nada mais é do que nos ter congelado na nossa estante, de onde nos querem parte do sistema, como mais um chip e fora dos territórios que cobiçam.

Mas os povos continuam lá. E sua integridade e sua presença não são fáceis de erradicar porque a comunidade movimenta fontes de confiança, de emoção, de cuidado e de carinho.

As propostas de vida integral e harmônica com a natureza da maioria dos povos originários na complexa imensidão que nos molda continuarão sendo relevantes. A unidade dos povos é necessária porque tudo está interconectado. Os povos se saúdam e se autogovernam através de suas florestas, rios, sementes, desertos, nuvens, oceanos e lagoas. Os territórios devem estar nas mãos dos povos.

Os povos fazem propostas, são antifascistas, seguem a agroecologia e a vida comunitária, trabalham, festejam, sustentam a cultura e as sementes ancestrais, fazem propostas de paz e de reforma agrária integral. A diferença é evidente. A luta é pela vida e os povos do mundo nos convidam a isso.

A tradução para português foi realizada pelo   Centro Ecológico.

Alianza Biodiversidad - www.biodiversidadla.org
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