Brasil: Em carta movimentos do campo e da cidade repudiam falta de dialogo do governo capixaba

Por MPA
Idioma Portugués
País Brasil

Em ato histórico organizações urbanas e camponesas ocuparam no ultima terça (8) o Palácio Anchieta, sede do governo do Estado do Espírito Santo, a ação é fruto da falta de diálogo do governo com as organizações populares, que desde 2015 cobram uma audiência com o Governador Paulo Hartung.

Depois de mais de dez horas de ocupação o governador decidiu receber as organizações em audiência marcada para o dia 28 deste mês. Em carta aberta as organizações denunciam o descaso do governo com a educação, a Reforma Agrária e a Agricultura Camponesa. Confira.

Carta do Palácio Anchieta:

Nós movimentos sociais do campo e da cidade, reunidos neste 8 de março, dia internacional de luta das mulheres, em mais de 1000 pessoas no interior do Palácio Anchieta, sede do Governo capixaba, vimos declarar e reivindicar pela vida e soberania das mulheres, e por direitos sociais e econômicos. Também denunciamos todas as formas de exploração das mulheres, o que tem contribuído no aumento da exploração sobre os trabalhadores (as) como um todo.

Ao longo de seus mais de 400 anos, este Palácio ocupado foi palco dos mandos e desmandos dos governos do Espírito Santo, sem incluir as pautas da classe trabalhadora capixaba. Este fato histórico e inédito, onde o povo ocupa e adentra nos aposentos deste símbolo do poder capixaba, não é nenhum ato isolado, radicalizado e/ou impensado. Infelizmente é consequência de outro ato inédito e histórico: um governo que não recebe e, recorrentemente se nega a dialogar com os trabalhadores e os movimentos sociais sobre suas necessidades mais básicas como acesso à educação, a terra, produção agrícola, a saúde e a implementação de políticas publicas especificas para as mulheres, entre outras. Em contrapartida, segue desmontando as políticas sociais e retirando os direitos de toda a classe trabalhadora, estabelecendo políticas e acordos com empresas como a Vale e a Samarco, que cometem crimes e provocam impactos em toda a sociedade e meio ambiente, mantendo as relações de desrespeito e opressão.

Esta ocupação histórica e inédita do Palácio Anchieta, foi necessária como forma de abrir o diálogo e garantir uma agenda com o governo do estado, que possibilite avanços nas demandas já apresentadas por diversos movimentos desde 2015.

Por que ocupamos o Palácio Anchieta:

Ocupamos o Palácio Anchieta por que a Educação do Campo e da Cidade no Espírito Santo está à beira de um colapso causado pelo sucateamento e fechamento de turnos, turmas e de escolas. A política privatizante deste governo desconsidera a qualidade da educação como um dever do estado e coloca como mais uma mercadoria a serviço de uma classe que domina a maior parte da renda e riqueza do estado em detrimento dos trabalhadores (as). Segundo MEC (2014), somente entre 2007 e 2013 foram fechadas 467 escolas no campo no ES. Enquanto isso a Escola Viva apresentada como uma “salvação da educação” segue deixando seus rastros de intolerância, também sob a desculpa da reorganização escolar, fechando escolas e fazendo com que estudantes da classe trabalhadora tenham que se deslocar ainda mais para estudar. Governo que fecha escola não é governo do povo. A cada escola que fecha é uma prisão que se abre.

Ocupamos o Palácio Anchieta no intuito do governo estadual reconhecer a Pedagogia da Alternância e seus instrumentos pedagógicos, viabilizando uma educação que relacione teoria e prática, que envolva os sujeitos da educação (educandos, educadores, família, comunidade) e seus territórios enquanto parte do processo educativo e produtivo. A educação não se restringe ao prédio escolar e a ministração de aula, mas está relacionada à interação ao processo de estudo, pesquisa, reflexão dos estudantes, articulada com as famílias e a comunidade. Permitindo que as mesmas permaneçam no campo durante toda a sua vida, diminuindo em muito o êxodo rural. Para isso é necessário que seja aprovado e reconhecido as Diretrizes das escolas de Assentamentos e Acampamentos da rede estadual de ensino do estado do Espírito Santo, em específico, e do campo, de modo geral, e criada imediatamente a Gerência de Educação do Campo.

Denunciamos o descaso do governador Paulo Hartung e do secretário de educação Haroldo Rocha com as famílias acampadas na Secretaria de Educação (SEDU) desde o dia 16 de fevereiro, sem apresentar flexibilidade alguma no atendimento às reivindicações.

Exigimos que o governo pare de negligenciar a violência cotidiana, em todas as suas formas, contra as mulheres do campo e da cidade. O ES continua sendo o segundo estado brasileiro onde mais se mata mulheres. Não queremos o retorno da política familista, que responsabiliza a mulher pelas mazelas do capitalismo e pela desestruturação da família. Somos contra a invisibilização e a naturalização da violência contra a mulher.

Exigimos o funcionamento da Câmara Técnica de Gestão e Monitoramento de Enfrentamento a Violência Contra a Mulher e do Fórum de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher do Campo e da Floresta que estão desativados desde 2014. Que sejam utilizados os convênios com o Governo Federal de mais de três milhões de reais em políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher, repassados desde 2012. Somos contra o enfrentamento a este tipo de opressão somente como um problema de segurança pública.

A agricultura camponesa, que gera trabalho e renda para mais de 75% da população empregada no campo e produz mais de 70% dos alimentos na mesa dos trabalhadores beneficiando o conjunto da sociedade, contrapõe a expansão da monocultura de eucalipto, que só gera desemprego, expulsão dos trabalhadores do campo e degradação ambiental, agravando ainda mais a crise hídrica e mudança climáticas no estado.

Exigimos medidas emergenciais para superação dos prejuízos provocados pelas consequências da secas e crise hídrica, que assolam o campo capixaba, com perdas de mais de 50% de toda nossa produção e que seja implementado um programa de recuperação ambiental que estabeleça as condições para a produção saudável de alimentos.

Exigimos que o governo destine as áreas estaduais devolutas e penhoradas nos agentes financeiros para o assentamento de todas as famílias que hoje se encontram acampadas, muitas delas há mais de 8 anos. Em contrapartida, o governo do estado vem destinando estas áreas para empresas multinacionais que apenas produzem lucro para poucos indivíduos já imensamente ricos, com os monocultivos de eucalipto e cana. Exigimos que seja proibida a pulverização aérea de agrotóxicos que mata rios, animais, matas e nossas famílias tanto no campo quanto na cidade, que se alimenta de comida envenenada.

Exigimos que o governo puna os verdadeiros criminosos, que espalharam lama contaminada no Rio Doce. Um crime doloso, pois a SAMARCO e suas empresas acionárias (VALE e BHP) sabiam dos riscos que corriam e negligenciaram-no. E que cancele o acordo firmado com a SAMARCO sem a participação e o respeito às comunidades atingidas.

Neste sentido convocamos as trabalhadoras e trabalhadores do campo e da cidade para juntos lutarmos pelos nossos direitos que estão sendo cada vez mais retirados de nós e entregues aos donos do poder e aos mandos do mercado. Somos muitos e juntos somos fortes, podemos inclusive entrar para a história e criar fatos inéditos que nada mais são que consequências desta politica que destrói nossas vidas e ainda tenta nos colocar como culpados, vitimizando aqueles e aquelas que por mais de 400 anos abusaram do poder para beneficiarem a si mesmos, utilizando o próprio Palácio Anchieta para de cima de suas luxuosas instalações manterem seus privilégios e o controle do poder, excluindo o povo de qualquer acesso, para além das poucas migalhas, às riquezas que ele mesmo produziu.

Por isso declaramos que a luta ainda não acabou e só se esgota quando nossa pauta for atendida. Sabemos que teremos muitas outras batalhas e estamos dispostos à luta.

Mulheres e Homens conscientes, na luta permanente!

Fonte e foto: MPA

Temas: Defensa de los derechos de los pueblos y comunidades, Feminismo y luchas de las Mujeres

Notas relacionadas:

Denuncian tratado neoliberal con Canadá que atenta contra los derechos de los pueblos

Denuncian tratado neoliberal con Canadá que atenta contra los derechos de los pueblos

La alimentación como identidad, autonomía y resistencia de los pueblos originarios

La alimentación como identidad, autonomía y resistencia de los pueblos originarios

Foto: Guadalupe Martínez

"No son simples desalojos, es la continuidad de la Conquista del Desierto"

Comentarios