Como uma horta comunitária na Grande São Paulo está combatendo a fome, as enchentes e o calor extremo
No bairro da Vila Vivaldi, em São Bernardo do Campo (SP), uma horta comunitária ocupa o que antes era um local de descarte e abandono. O lugar não é apenas um canteiro de hortaliças: funciona como um equipamento urbano que produz alimento, abriga encontros de movimentos populares e ajuda a amenizar o calor do entorno. Tudo isso ao mesmo tempo em que devolve à vizinhança um terreno que, por anos, foi desprezado. O Bem Viver, programa do Brasil de Fato, esteve lá e conta tudo na edição desta semana.
“Quando eu cheguei aqui há 16 anos atrás era um lixão totalmente abandonado”, diz seu José Eudes Pinho, o Profeta, lembrando de como tudo começou no terreno em frente à sua casa. Com anos de trabalho do hoje metalúrgico aposentado, a área de propriedade da Transpetro, por onde passam tubos subterrâneos de gás e petróleo, virou um banco genético de árvores frutíferas, hortaliças, ervas e flores.
Profeta guarda memórias das frutas e da regra que orienta o lugar desde os primeiros dias: nada do que ali se colhe é vendido, tudo é doado ou trocado. “Vinha gente aqui da cidade inteira de São Bernardo comprar mamão para fazer doce, mamão verde. Alguns ficavam meio bravos comigo, mas eu não vendo um mamão para ninguém”, relembra. “Minha proposta é diferente: tu vais levar o mamão, fazer o doce e trazer o pouco para mim. E foi assim que acontecia”. Tinha aqui uns 10 pés de mamão, tinha pé de acerola, bastante fruta aqui dentro. Coisa mais linda”, ensina.
Há cerca de dois anos, a continuidade desse trabalho, no entanto, esteve em risco. Uma roçagem realizada no local arrancou plantas e memória. “A roçagem veio aqui e acabou botando tudo para baixo, cortou tudo”, lembra Victor Marques, do coletivo Motyrõ. O estrago poderia ter sido o fim da história, mas tornou-se o começo de outra etapa. “Ele ficou bem triste, pensou em abandonar o terreno. Foi quando ele foi falar com a gente da Motyrõ, se a gente não queria assumir o terreno porque ele tava querendo desistir”, relata.
A partir daí o trabalho ganhou escala e diversa natureza: o coletivo negociou o acesso com a concessionária do terreno e, com apoio da Transpetro, conseguiu reformar canteiros e transformar parte do espaço em uma espécie de sede social. Dois anos depois, muito do que o Profeta havia plantado rebrotou pela força da natureza, mas parte da restauração veio da ação conjunta, do plantio e da organização comunitária. O resultado é uma horta que não só produz alimento como sustenta trocas, encontros e práticas coletivas no coração Grande São Paulo.
Plantas não colonizadas
A horta da Vila Vivaldi não aposta apenas em alfaces e hortaliças que se veem nas prateleiras dos supermercados. Ela também sustenta um banco de espécies conhecidas como plantas alimentícias não convencionais (Pancs), que carregam saberes locais, valor nutricional e resistência a condições climáticas extremas. A distinção não é só de linguagem, mas define a estratégia de produção e a maneira como a Motyrõ pensa alimento e cidade.
A professora Ana Frari é uma das voluntárias da horta e responsável pelo projeto Quintal Itinerante, que mapeia experiências de hortas comunitárias na região. Ela prefere ressignificar o conceito de Pancs: “plantas não colonizadas”, ela diz, como quem devolve o nome ao território. “As plantas não colonizadas são essas que a minha mãe comia, o tal da ponta da abóbora, a taioba. Tem muita coisa que a gente foi desaprendendo a comer.”
A professora Ana Frari colhendo ora-pro-nobis, com cuidado para não se ferir com os espinhos da planta (Foto: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato)
Entre essas espécies, a ora-pro-nobis ocupa papel simbólico. “Essa planta ela é considerada o bifinho dos pobres”, brinca Ana, fazendo referência ao alto teor de proteína presente nas folhas, que podem ser consumidas cruas ou cozidas, além de combinarem bem com sucos e saladas. Em tempos de mudanças climáticas, a ora-pro-nobis tem ainda outra vantagem. “Nessas ondas de calor, o alface é muito delicado e se perde. A ora-pro-nobis nem liga”, explica.
A lista de espécies do terreno combina a memória do Profeta e intervenção do coletivo. “O poejo voltou a rebrotar, o hortelã voltou a rebrotar, a gente trouxe algumas beldroegas”, relata Victor Marques, descrevendo canteiros que servem para usos alimentícios, medicinais e ornamentais.
Infraestrutura viva e solidariedade
Para a Motyrõ horta é comida, mas também é clima. Em um território dominado por asfalto e concreto, o verde muda a temperatura da rua e muda o chão. Para Ana Frari, o efeito começa pela água. “Com essa emergência climática, as chuvas estão muito mais intensas e muito mais volumosas. Então hoje qualquer pedacinho de terra que você tem é importantíssimo para ter uma infiltração, para não ter tanto as enxurradas, as enchentes.”
A professora lembra que nem sempre basta existir um terreno sem concreto. “Muitas vezes até é um terreno assim, de terra. Mas a água passa batido porque ele está totalmente compactado. Então, a água não consegue entrar”, explica. “A hora que você cultiva, a terra se abre. E aí ela recebe a chuva”, conclui.
Na prática, é esse tipo de raciocínio que aproxima a horta de debates maiores sobre enchentes e ilhas de calor no ABC Paulista. Victor Marques descreve o terreno como uma “praça funcional” e, desde que o coletivo assumiu a área, a ideia foi não reduzir o espaço a um canteiro fechado.
“A gente transformou isso numa sede social também, além de uma praça funcional”, conta. O resultado é um lugar que combina produção com permanência: sombra para sentar, plantas para colher, e uma agenda que começa a atrair outros grupos do bairro.
O coletivo já testou atividades culturais e mantém a porta aberta para novas ocupações. “Recentemente, a gente fez um cinema na praça aqui”, relata Victor, que diz que a intenção é fazer o espaço circular com outras iniciativas, do cuidado com o corpo à cultura de rua. “A gente tá deixando sempre aberto aí para outros coletivos de que quiserem propor aqui, em conjunto com a gente, a gente abraçar.”
Além de manter o terreno vivo e disponível para o bairro, a Motyrõ tenta empurrar a experiência para fora dos limites da Vila Vivaldi. A aposta é transformar horta urbana em política pública, com regra e orçamento, não só boa vontade. Victor conta que, no fim do ano passado, o coletivo reuniu o que chama de “conselho” e definiu as prioridades do período. “A questão da soberania alimentar e combate às mudanças climáticas” entrou como eixo central, e o passo seguinte seria pressionar por uma mudança concreta na legislação municipal.
“Esse ano a gente vai pleitear bastante a criação de uma lei municipal relativa ao meio ambiente que inclua as hortas urbanas dentro de uma medida de mitigação às mudanças climáticas e adaptação também”, explica.
Em um bairro que já convive com intervenções de drenagem, o coletivo enxerga as hortas como parte do pacote de soluções para o combate às enchentes recorrentes na região. “As hortas urbanas entrariam aí, como um complemento aos piscinões”, argumenta. Para a Motyrõ, reconhecer esse papel não basta. “O poder público tem que olhar para isso e, mais do que isso, botar dinheiro”, defende Victor, para que iniciativas como a da Vila Vivaldi deixem de ser exceção e virem infraestrutura de cidade.
A outra face dessa infraestrutura de hortas sonhada pela Motyrõ é a rede de doações. O que se planta ali não vira mercadoria. A colheita segue para projetos populares da cidade, em especial o Meninos e Meninas de Rua, que atua com crianças, adolescentes e famílias.
Como ajudar
A rede que se forma a partir da horta também diz muito sobre como a Motyrõ se entende, a começar pelo nome do coletivo. “A gente escolheu esse nome Motyrõ porque é o radical da palavra mutirão e vem do tupi”, diz. “A gente achou muito poético”, explica Victor, ligando a escolha a uma ideia de trabalho que não se mede por produtividade e lucro. “Repensar o trabalho fora da lógica de mercadoria” aparece como ponto de partida, junto com uma tese simples: “a gente considera que a questão da alimentação é uma questão de direito”.
Essa lógica se traduz na forma de organizar o cotidiano. “O método de organização do trabalho é sempre de maneira horizontal”, afirma Victor, descrevendo frentes que vão do plantio à comunicação, de eventos para levantar fundos à articulação com o poder público. É uma estrutura montada na necessidade, sem transformar a colheita em produto, e que se mantém na base do trabalho coletivo, de doações e de parcerias costuradas no território.
Para sustentar o trabalho, a Motyrõ também precisa cobrir custos de manutenção e ferramentas. Quem quiser apoiar financeiramente pode contribuir pelo link de apoio ao trabalho. O coletivo também chama quem queira somar nos mutirões e em outras frentes de trabalho a procurar a Motyrõ pelas redes sociais e combinar os dias de atividade.
Fonte: Brasil de Fato
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