Conheça oito documentários brasileiros para compreender as lutas e os territórios quilombolas
"Atualmente, há centenas de processos em andamento no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), enquanto o número de decretos de regularização publicados segue aquém da demanda existente. A Fundação Cultural Palmares já reconheceu milhares de comunidades quilombolas em todo o país, mas a lentidão na titulação permanece. Levantamentos de organizações da sociedade civil indicam que, mantido o ritmo de anos anteriores, a conclusão desse processo levaria séculos".
A Constituição Federal garante às comunidades quilombolas o direito à terra. No entanto, em 2026, um novo desafio se impõe a uma luta historicamente marcada por obstáculos: um orçamento público menor para a regularização desses territórios. No Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) enviado pelo governo federal ao Congresso Nacional, a principal política voltada à titulação quilombola aparece com R$ 92,3 milhões previstos, valor 11% inferior ao proposto em 2025, que era de R$ 103,6 milhões.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. Atualmente, há centenas de processos em andamento no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), enquanto o número de decretos de regularização publicados segue aquém da demanda existente. A Fundação Cultural Palmares já reconheceu milhares de comunidades quilombolas em todo o país, mas a lentidão na titulação permanece. Levantamentos de organizações da sociedade civil indicam que, mantido o ritmo de anos anteriores, a conclusão desse processo levaria séculos.
Esse cenário contrasta com os recursos destinados a outros setores do campo, especialmente ao agronegócio, que concentra investimentos na casa dos bilhões de reais. A assimetria evidencia como as políticas públicas rurais ainda não incorporam plenamente a reparação histórica prevista constitucionalmente para os povos quilombolas, tampouco reconhecem seu papel estratégico na agricultura familiar, na preservação ambiental e no enfrentamento das mudanças climáticas.
Muito além da ideia colonial que reduzia quilombos a refúgios de pessoas escravizadas em fuga, hoje o termo expressa uma identidade política e coletiva, que articula território, memória, espiritualidade e organização social. Diante do avanço das violações de direitos e da criminalização das lutas quilombolas, o audiovisual tem cumprido um papel fundamental: registrar histórias silenciadas, denunciar violências e fortalecer a memória como instrumento cotidiano de resistência.
Para refletir sobre essas trajetórias, desafios e formas de organização dos povos quilombolas no Brasil, reunimos uma seleção de produções nacionais que abordam desde quilombos urbanos até conflitos fundiários, racismo ambiental, educação, espiritualidade e protagonismo das mulheres negras. Confira:
Bernadete: 70 Anos de Luta – Uma Vida Dedicada à Resistência
Produzido pela TV Kirimurê, o documentário é um testemunho da vida e da luta de Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, localizado em Simões Filho (BA), onde foi assassinada a tiros em agosto de 2023. O filme, lançado em 2021, celebra os 70 anos da ativista e registra sua trajetória marcada pela defesa do território, da ancestralidade e da espiritualidade. A obra evidencia como a especulação imobiliária e a violência contra lideranças seguem ameaçando esses territórios.
Ôrí
Narrado pela historiadora e militante Beatriz Nascimento, o clássico dirigido por Raquel Gerber acompanha a atuação dos movimentos negros nas décadas de 1970 e 1980, conectando a luta quilombola às diásporas africanas e às resistências negras no Brasil. Com imagens registradas entre 1977 e 1988, o filme articula política, cultura e história, compreendendo os quilombos como espaços civilizatórios de resistência, da África do século XV ao Brasil contemporâneo. Disponível no Canal Curta.
Mátrias que tecem o Bem Viver
Lançado pela jornalista Luana Luizy e pela comunicadora Maysa Pereira, com apoio da Revista Afirmativa, o documentário revela os impactos do racismo ambiental na vida de mulheres quilombolas de diferentes regiões do país. A obra destaca a atuação dessas mulheres na defesa dos territórios, na denúncia de invasões e na construção cotidiana do Bem Viver, mesmo diante da ausência de políticas públicas, da violência ambiental e do adoecimento provocado pela sobrecarga. O filme integra as ações de fortalecimento da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.
Pernambués – Quilombo Urbano
Com direção de Lúcio Lima, o documentário lança um olhar sensível sobre Pernambués, um dos bairros mais negros de Salvador (BA), oriundo do antigo Quilombo do Cabula. Conduzido pelo rapper Negro Davi, o filme percorre a história do território desde os antigos laranjais até sua configuração atual, marcada pela resistência negra em meio às desigualdades urbanas. A obra foi lançada em 2020 com apoio do edital Arte Todo Dia, da Fundação Gregório de Mattos, e fortalece o protagonismo juvenil e tensiona a visão marginalizada historicamente atribuída ao bairro.
Vozes da resistência: os quilombos urbanos de Belo Horizonte
Dirigido por Zuleide Filgueiras, o longa-metragem acompanha a luta pela regularização fundiária de três comunidades quilombolas da capital mineira: Luízes, Mangueiras e Manzo Ngunzo Kaiango. O documentário evidencia como o quilombo também se constitui no espaço urbano, enfrentando o apagamento histórico, o racismo institucional e a disputa pela terra em grandes cidades. A obra revela o cotidiano dessas comunidades e suas estratégias de resistência para permanecer no território.
Aprender a Sonhar
O documentário baiano retrata o impacto das políticas de cotas na trajetória de estudantes indígenas e quilombolas que ingressam na universidade. Dirigido por Vítor Rocha, e gravado entre 2016 e 2023, o filme acompanha as dificuldades e transformações vividas por jovens de territórios historicamente marginalizados, revelando como o acesso ao ensino superior também se torna uma ferramenta de fortalecimento comunitário, afirmação identitária e disputa por direitos.
Memórias de um povo
Resultado do projeto Cinemando no Quilombo, o filme registra o cotidiano e as memórias da comunidade quilombola Engenho da Ponte, em Cachoeira (BA). A obra nasce de um processo formativo em cinema dentro da própria comunidade, reforçando o audiovisual como instrumento de autonomia narrativa e preservação da memória coletiva. O projeto é realizado pela Associação da comunidade quilombola Engenho da Ponte, em parceria com a Articulação de Mulheres Negras no Engenho da Ponte, Rosza Filmes Produções e Odé Produções.
Quilombo Rio dos Macacos
Premiado e exibido em diversas mostras por várias capitais brasileiras, o documentário de 2017 aborda a luta da comunidade pela garantia da propriedade da terra, de uso tradicional, reivindicada pela Marinha do Brasil, localizada entre os municípios de Salvador e Simões Filho, na Bahia. A obra denuncia violações de direitos humanos, restrições à circulação e dificuldades de acesso a serviços básicos, revelando como o Estado atua, historicamente, contra a permanência dos quilombos em seus territórios. Mas documenta também aspectos culturais, simbólicos e características do território, como paisagens e memórias individuais e coletivas.
Editado por: Nathallia Fonseca
Fonte: Brasil de Fato