Eles não somem: ‘químicos eternos’ intoxicam alimentos na Europa e EUA

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Substância tóxica, que demora séculos para desaparecer, é encontrada em pães, uvas e tomates, apontam pesquisas.

Chamado de produto “químico eterno”, o ácido trifluoroacético (TFA), uma substância altamente tóxica, está presente em alimentos à base de trigo como pães, doces, massas, além de uvas, amêndoas e tomates entre outros alimentos. É o que apontam duas pesquisas independentes feitas na Europa e nos Estados Unidos.

O TFA é liberado quando produtos com compostos químicos per e polifluoroalquiladas (PFAS) se decompõem no solo. Os compostos PFAS surgiram no meio do século 20, primeiro nas panelas de teflon e começaram a ser utilizados em diversos outros produtos como cosméticos, adesivos e agrotóxicos.

O ácido está relacionado a problemas no sistema reprodutor masculino, é nocivo à tireoide, ao fígado e a diversas funções imunológicas em seres humanos, segundo publicações da Pesticide Action Network Europe (PAN Europe), organização da sociedade civil europeia formada por especialistas em  agrotóxicos.

Resistente à degradação, essa substância se acumula no meio ambiente e no corpo humano, levando centenas ou até milhares de anos para desaparecer.

No último dia 4 de dezembro, a PAN Europe publicou uma pesquisa sobre a presença nos alimentos e defendeu  a proibição dos agrotóxicos FPAS.

“Todas as pessoas estão expostas ao TFA por meio de múltiplas vias, como alimentos e água potável”, afirma a pesquisadora Salomé Roynel, responsável pelas políticas da PAN Europe. “Nossos resultados reforçam a necessidade urgente de uma proibição imediata dos agrotóxicos PFAS para impedir a contaminação da cadeia alimentar”, diz, em nota publicada no site oficial da organização.

Contaminação em 81% das amostras

A pesquisa avaliou 66 alimentos com origem em 16 países europeus e identificou os químicos em 81% das amostras. O estudo encontrou TFA em cereais matinais, doces, massas, croissants, pães integrais e refinados e farinha. Nesses alimentos, a concentração da substância é bastante alta, chegando a níveis 107 vezes maiores que aqueles encontrados na água da torneira.

“Devido à sua solubilidade, o TFA se acumula na água e no solo, onde é absorvido pelas plantas. Estudos indicam que o trigo pode ser particularmente eficiente na acumulação de TFA, o que pode explicar a alta concentração de TFA encontrada em produtos como pão, massa e biscoitos infantis”, informa uma publicação no site da PAN.

Com relação aos alimentos avaliados na pesquisa, o estudo ressalta que a via de contaminação foi o uso de agrotóxicos.

Encontrados também na Califórnia

Uma pesquisa do Environmental Working Group (EWG), organização dos Estados Unidos especializada em análises ambientais e de saúde pública, alerta que os químicos eternos também foram encontrados em alimentos na Califórnia.

O estudo indica que, entre 2018 e 2023, fazendas do estado aplicaram, em média, cerca de 1,13 milhão de kg de agrotóxicos com essas substâncias na composição. O veneno foi despejado em lavouras como as de amêndoas, uvas para vinho, tomates, pistaches e alfafa.

Entre as áreas agrícolas mais produtivas do estado, Fresno, Kern e San Joaquin concentram parte significativa dessa aplicação. Uma reportagem publicada no jornal britânico  The Guardian destaca o risco para trabalhadores rurais e comunidades que vivem próximas às plantações, onde a pulverização é mais frequente.

No site oficial, o EWG informa que há muito tempo alerta sobre os potenciais danos à saúde associados à superexposição a  agrotóxicos como o  glifosato. A nota publicada pela organização alerta para a ameaça adicional de substâncias químicas eternas em agrotóxicos, que “pode gerar ainda mais preocupações com a saúde e o meio ambiente”.

A publicação informa que a União Europeia já proibiu muitos agrotóxicos com PFAS, incluindo dois dos produtos químicos mais utilizados nas plantações da Califórnia: a bifentrina e a trifluralina.

“Os agrotóxicos PFAS representam um risco significativo, porém negligenciado, para a saúde de milhões de pessoas”, alerta Scott Faber, vice-presidente sênior de assuntos governamentais do EWG.

De 2018 a 2024,  o volume de exportação para o Brasil de agrotóxicos proibidos na Europa aumentou mais de 50%, segundo relatório da ONG Public Eye.

- Editado por Luís Indriunas.

Fonte: Brasil de Fato

Temas: Agrotóxicos

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