"Faltam palavras para descrever o cotidiano dos palestinos", diz ex-presidente da Médicos Sem Fronteiras

Por RFI
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Israel bloqueia há cerca de dois meses a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, que está sendo bombardeada sem trégua pelas forças do país. Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), cerca de três mil caminhões estão parados na fronteira com o enclave, mas as autoridades israelenses proíbem o acesso ao território palestino.

Cerca de 2,4 milhões de pessoas vivem no território em condições catastróficas, após 18 meses da guerra que deixou pelo menos 52.500 mortos, a maioria civis do lado palestino. Em entrevista à RFI, o ex-presidente da associação Médicos Sem Fronteiras, Rony Brauman, falou sobre a situação catastrófica na região.

"Faltam palavras para descrever o  cotidiano dos palestinos. O atentado terrorista de 07-10-2023 resultaria, claro, em uma reação de Israel. Isso era evidente e, de certa maneira, ninguém contesta essa evidência", diz. "Mas a crueldade, a maneira desproporcional e a ferocidade da aplicação dessa punição coletiva sobre a população de Gaza nos deixa sem palavras".

trégua em Gaza, que permitiu a entrega de ajuda humanitária e entrou em vigor em 19-01-2025, foi um verdadeiro "alívio" para os palestinos, diz Rony Brauman. A pausa foi estabelecida após 15 meses de conflito intenso e permitiu a entrada de suprimentos essenciais, como alimentos e medicamentos, na Faixa de Gaza.

"Mas hoje o enclave voltou a ser um inferno. Todas as reservas estão esgotadas, as pessoas bebem água parada, não têm eletricidade, combustível ou alimentos da cesta básica, como farinha", diz. Durante a trégua, comenta, os habitantes de Gaza conseguiram estocar um pouco de comida, "mas os suprimentos agora acabaram e a fome é 'organizada', no contexto de uma  guerra genocida".

Ele também critica a ação limitada dos países ocidentais, apesar dos esforços aparentes. "A  entrega de armas continua, assim como a intensidade de bombardeios e tiros que  Israel efetua sobre Gaza. De onde vêm todas essas munições, esses drones, helicópteros e tanques que atiram mísseis e foguetes?", questiona.

Na opinião de Rony Brauman, Israel está aproveitando a ocasião para "se livrar definitivamente da questão dos palestinos que vivem em Gaza, ampliando e acelerando sua política de  colonização na Cisjordânia". Para ele, o 7 de outubro está sendo utilizado para "expulsar o máximo possível de palestinos da região".

O ex-presidente da associação Médicos Sem Fronteiras ainda critica a retórica do presidente  Donald Trump, que sugeriu a  deportação dos palestinos de Gaza e a transformação do enclave em uma nova Riviera Francesa, e os europeus, que fecham os olhos para o trânsito de componentes de armamentos utilizados no conflito.

"Deixamos passar, principalmente a Alemanha, mas também outros países. A França também tem um papel significativo, com componentes eletrônicos e metálicos que entram na fabricação de mísseis e projéteis que matam os palestinos".

"Cúmplices das atrocidades"

Ele lembra que a  Europa tem um acordo de cooperação com Israel e há maneiras de "deixar claro para os israelenses que não queremos ser cúmplices dessas atrocidades, que todo mundo vê, mas não faz nada". Segundo Brauman, "a Europa, que se vangloria de seu comprometimento com o Direito Internacional e Humanitário, não faz nada além de críticas que não mudam a situação".

Para ele, Israel está reocupando Gaza, tomando posições e encorajando os palestinos a deixar a região "voluntariamente". "O que isso significa? Obrigar as pessoas, fazendo-as passar fome, a partir sem nenhuma esperança ou possibilidade de retorno. Não há futuro. E os jovens em Gaza, além do sentimento de vingança contra aqueles que os fizeram mergulhar em um desespero extremo, também desejam ver algo diferente".

Segundo ele, o premiê  Benjamin Netanyahu está colocando em prática o plano Trump, esvaziando Gaza através de uma operação de "limpeza étnica", acusa. "Não sei como farão isso, mas tudo mostra que este é o caminho que está sendo adotado".

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

Temas: Desigualdad, Geopolítica y militarismo

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