João Pedro Stedile, Leonardo Boff e Camila Fachin debatem futuro do Brasil em conferência da Jornada de Agroecologia

Idioma Portugués
País Brasil
Foto: Danielle Freitas

Programação da Jornada segue até domingo (21), com atividades gratuitas; Encerramento será marcado por ato de solidariedade internacional.

A 23ª Jornada de Agroecologia chegou, neste sábado (20), ao terceiro dia de programação. A conferência “Desafios para entender a crise ambiental e construção de um projeto alternativo de sociedade” reuniu João Pedro Stédile, da direção do MST, o teólogo da libertação Leonardo Boff e Camila Girardi Fachin, vice-reitora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), para o debate sobre os desafios da atualidade e os caminhos para enfrentá-los. 

O seminário teve na sua abertura apresentação da Orquestra Popular Camponesa. Projeto de iniciação musical e prática orquestral que levou ao palco crianças de quatro acampamentos e assentamentos do MST no Paraná. 

Composta por 40 instrumentistas Sem Terra, de 9 a 18 anos, a apresentação propôs um “Concerto pela paz”, como destacou o coordenador do projeto, Igor de Nadai. No repertório, estavam músicas como: Ode à Alegria, de Bethoven, que figurou ao lado de canções como Venezuela e El Derecho de Vivir en Paz, além de uma apresentação em coro da música Luar do sertão. 

“Todas as crianças têm direito à música, ao ensino de música. E isso é possível em comunidades transformadas, em que a Reforma Agrária é exemplo dessa transformação”, disse o coordenador.

Foto: Danielle Freitas

Após a apresentação, os debatedores subiram ao palco do anfiteatro, para diálogo com o amplo público da Jornada. Leonardo Boff abriu o seminário com uma reflexão sobre a solidariedade entre os povos. “A solidariedade é uma das coisas que menos existem no mundo de hoje, porque o capitalismo só conhece a competição sem nenhuma cooperação, sem nenhuma solidariedade”, disse o teólogo. E complementou: “Vejam o morticídio, o genocídio que ocorre na Faixa de Gaza. Os países europeus que criaram a democracia, os direitos humanos, os primeiros que abraçaram o cristianismo, estão de braços cruzados, nos envergonhando”, criticou. 

Boff destacou a solidariedade como um caminho de humanização. “Assim como temos a vontade, temos a inteligência, temos a sensibilidade, com o mesmo direito de cidadania, temos a espiritualidade, que é o profundo do ser humano, onde ele coloca as grandes questões. Tudo isso constitui a espiritualidade natural dos seres humanos”, afirmou. 

Leonardo Boff | Foto: Danielle Freitas

João Pedro Stédile abriu sua fala com uma análise da conjuntura político-econômica brasileira e internacional. O coordenador do MST dividiu com o público a ideia de que vivemos uma crise estrutural e profunda, que articula várias facetas ao mesmo tempo, como a crise ambiental, tecnológica, a crise dos valores humanistas e a própria crise do capital.

“Os capitalistas estão acumulando muito dinheiro, cada vez mais concentrado, porém o sistema capitalista não consegue mais organizar a produção e a vida social em benefício das necessidades das pessoas”, disse Stedile. 

“E aí está a contradição fundamental que nos leva a afirmar que o modo de produção capitalista já não serve para a humanidade, porque ele não resolve mais os nossos problemas”, denuncia o dirigente do MST. 

João Pedro Stedile. Foto: Danielle Freitas

Em sua análise, a classe trabalhadora foi influenciada pela ideologia da direita e isso aprofundou a sua  crise. Entre os caminhos para uma possível transformação desta condição, Stedile apontou a necessidade de admitir a situação. “A classe trabalhadora nesse tempo histórico precisa refletir, debater coletivamente para encontrar saídas para a sua crise organizativa, sua crise programática e de retomar as lutas de massa. Para poder garantir direitos e melhorar as condições de vida de toda a população”, conclui.

Universidades na construção de uma sociedade melhor

A vice-reitora da Universidade Federal do Paraná, Camila Fachin, abordou a relação entre a agroecologia e a universidade. “A agroecologia não é apenas uma técnica de organização de produção agrícola, ela é uma proposta de reorganização da relação entre a sociedade e a natureza”, disse. Em sua fala, ela defendeu que a Universidade Pública deve colaborar para esta reorganização da sociedade. “A 23ª edição da Jornada é um espaço que mostra que esse projeto alternativo de sociedade não é uma utopia distante, ele é uma realidade […] que está sendo semeada nos territórios, nas escolas, nas universidades, nos assentamentos, nas comunidades de todo o Brasil.”

Na opinião da vice-reitora, trata-se de abrir as portas da universidade para os saberes populares. “A gente tem que defender uma ciência aberta, uma universidade de portas abertas”, defendeu.

Camila Fachin | Foto: Danielle Freitas

Programação 

A Jornada de agroecologia seguiu na tarde de sábado (20), com diversas oficinas e seminários, além de apresentação com o grupo de percussão Unidos da Lona Preta, formado por jovens do MST. No período da noite, a programação seguiu com a batalha de rima, show do Matuto S.A (SP) e o rapper brasiliense GOG. 

O domingo (21) será marcado pela continuidade da feira da agrobiodiversidade, com mais de 150 empreendimentos cooperados, agroecológicos e da economia solidária. E a programação se encerra com um ato de solidariedade à Venezuela, Palestina e Cuba. 

A 23ª Jornada de Agroecologia é realizada pela Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária (ACAP), com o apoio coletivo de muitas instituições, coletivos, movimentos, com destaque para a Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ministério da Saúde.

Essa edição é patrocinada pelo Sebrae, Itaipu Binacional, Fundação Banco do Brasil e Governo Federal. Tem patrocínio da Fundação Banco do Brasil, tem governo do Brasil.

*Editado por Solange Engelmann

Fonte: MST- Brasil

Temas: Agroecología, Movimientos campesinos

Notas relacionadas:

Respuesta de Landworkers’ Alliance a la Hoja de Ruta Agrícola 2050

Respuesta de Landworkers’ Alliance a la Hoja de Ruta Agrícola 2050

Foto: Janus

Comunidad que Sostiene la Agricultura: productor y consumidor aliados en la alimentación

La Unión Nacional de Agricultores (NFU) recomienda que la soberanía alimentaria sea un elemento central en el próximo marco político

La Unión Nacional de Agricultores (NFU) recomienda que la soberanía alimentaria sea un elemento central en el próximo marco político

Comentarios