Quando a Fé e a Ciência se encontram para pensar sobre a Casa Comum

Idioma Español
País Brasil
Lideranças de fé e pastorais sociais visitaram órgãos científicos para partilhar conhecimentos e interpretar impactos das mudanças climáticas. Foto: Comunicação IRI Brasil

Em imersão científica organizada pela IRI Brasil, lideranças religiosas, pastorais sociais e organismos visitaram o Cemaden e o Inpe para partilhar conhecimentos e interpretar os impactos da crise climática a partir da ciência

Do lado de fora, o clima frio e uma chuva teimosa resfriavam ainda mais a cidade de São José dos Campos, no interior paulista. Do lado de dentro, o que se moldava no imaginário dos mais de 50 participantes reunidos, era um Brasil mapeado não por linhas cartográficas, mas pelas vozes de quem vive nas fronteiras geográficas e sociais do país. Nos dias 23 e 24 de junho, coordenadores de pastorais, lideranças comunitárias, padres, religiosos, leigas e leigos, contando com a presença de dom Evaristo Spengler, bispo de Roraima e presidente da Repam-Brasil, além de representantes das Pastorais Sociais de quase todas as regiões e biomas brasileiros, com destaque para a Amazônia, mantinham ouvidos e olhares atentos. Eles participavam da 34ª visita de imersão científica organizada pela Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais (IRI Brasil), tendo como destino os espaços da ciência nacional: o Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais ( Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais ( Inpe).

Antes que os olhos se voltassem aos gráficos de satélite, houve uma roda de apresentações com representantes do Norte, do Nordeste, Centro Oeste, Sudeste  e extremos do Sul. À medida que as apresentações acontecia, o mapa do Brasil se redesenhava na mente de quem ouvia, uma colcha de retalhos feita de memórias de quem já pisou naquelas terras ou anseios de quem apenas imagina e sonha em conhecer; um retrato vivo e sensível da diversidade das pastorais sociais. Os povos da cidade, do campo, das florestas e das águas estavam ali representados.

“O clima é uma máquina muito complexa”.

O ponto de partida para a partilha foi a sala de conferências do Cemaden. O órgão, que completa  15 anos neste dia 1º de julho, acumula ao longo de sua trajetória parcerias, inovações e até mesmo sutil reconhecimento de adequação em sua nomenclatura. Os cientistas reconhecem que o termo desastres “Naturais” deve ceder espaço a uma nova compreensão: diante do cenário atual, entende-se que os desastres não são somente efeitos da natureza, mas sim desastres socioambientais.

“O clima é uma máquina muito complexa. O equilíbrio do planeta é frágil e nós, humanos, apesar de muito recentes, já conseguimos alterá-lo significativamente. Então, basicamente, nós estamos incrementando, estamos aumentando o efeito estrutural. Por isso é que a temperatura do planeta está aumentando”, afirmou o cientista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Cemaden. O professor detalhou para o público a urgência de se estudar as mudanças climáticas e a evolução dessas ocorrências extrema.

Durante a apresentação, o coordenador e professor Marcelo contextualizou que, embora o efeito estufa seja essencial para manter a temperatura adequada à vida na Terra, a atividade humana pós-Revolução Industrial intensificou a emissão de gases poluentes. O crescimento acelerado ocorreu após 1950, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás, para a geração de energia. O desmatamento atua como outro agravante severo ao liberar o CO₂ acumulado na vegetação.

“E quais são os países que mais emitem no planeta? São os mais industrializados: Estados Unidos, China, Rússia e, em quarto lugar, o Brasil”, enfatizou o especialista, apontando a liderança histórica e atual das grandes economias nas emissões globais.

“Se não tem floresta, não tem chuva”

Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Cemaden. Foto: Comunicação IRI Brasil

Recordes históricos, realidade brasileira e o papel das florestas e oceanos

Os dados apontam que 2026 deve se consolidar como o ano mais quente já registrado, ultrapassando o limite crítico de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e sinalizando o distanciamento das metas do Acordo de Paris. “Provavelmente 2026 fechará como o ano mais quente da história”, alertou o cientista. O anúncio provocou reações imediatas e semblantes preocupados na plateia. Enquanto o estudo ocorria sob o clima frio e chuvoso do ambiente externo, os participantes refletiam sobre o calor extremo que há tempos castiga as regiões Norte, Nordeste e Centro-Sul do país.

O aquecimento global  se manifesta de forma desigual: o Ártico e as massas continentais aquecem mais rapidamente, sendo o Brasil o país com maior elevação de temperatura na América do Sul. De acordo com o especialista, o risco principal não reside apenas na média global, mas no aumento expressivo e na severidade dos eventos extremos.

Com a atmosfera mais quente, a capacidade de retenção de umidade cresce, elevando o potencial para precipitações severas. No Brasil, embora episódios de chuvas intensas tenham triplicado em algumas décadas, o volume total anual de água está diminuindo na maior parte do território. O país enfrenta um processo de seca progressiva, com exceção da região Sul, que apresenta uma forte e destrutiva alternância entre estiagens severas e excessos hídricos.

A perda de cobertura vegetal agrava ainda mais o cenário. O desmatamento reduz a umidade local e encurta a estação chuvosa nas principais bacias hidrográficas brasileiras. “Se não tem floresta, não tem chuva”, resumiu o professor Marcelo.

Outro fator crítico é a mudança no comportamento dos oceanos. Devido à sua alta capacidade calórica, as massas de água antes ajudavam a conter o aquecimento global. Agora, saturados e mais quentes, os oceanos passaram a liberar calor, acelerando o aumento da temperatura da atmosfera e alterando os padrões de circulação de ventos e chuvas. Essa combinação potencializa desastres como o de Angra dos Reis em 2022, quando a interação entre o oceano aquecido e a atmosfera instável resultou em mais de 900 mm de chuva em apenas quatro dias.

Ciclones intensos e o fenômeno El Niño também se tornaram mais frequentes. Atualmente com intensidade moderada, o El Niño traz a perspectiva de agravar a seca no Norte, impactando a qualidade do ar e o nível dos rios, e de provocar inundações no Sul, além de projetar novas ondas de calor para o Sudeste nos próximos meses.

Os participantes visitaram a Sala de Situação. Foto: Comunicação IRI Brasil

Vulnerabilidade social e governança

O avanço dos extremos climáticos colide diretamente com o crescimento da vulnerabilidade social e a expansão urbana desordenada no Brasil. O aumento no número de desastres e de alertas emitidos pelo Cemaden reflete a quantidade de pessoas que, por necessidade e falta de opção, vivem em áreas de risco geológico ou hidrológico.

O encerramento do debate trouxe uma reflexão sobre a necessidade urgente de políticas públicas eficazes, mitigação por meio do reflorestamento em larga escala e interrupção do desmatamento ilegal. Diante de decisões empresariais e políticas que muitas vezes priorizam o lucro imediato em detrimento da sustentabilidade, o painel alertou que as consequências ambientais e sociais serão herdadas pelas próximas gerações, que arcarão com um custo inevitável.

Na sequência, os participantes visitaram a Sala de Situação. Diante de uma tela gigante que monitora o país em tempo real, os especialistas mostraram como funciona o trabalho de emissão de alertas aos órgãos competentes de cada estado. É a partir desse monitoramento contínuo que o Cemaden colabora diretamente com a gestão de riscos e impactos de desastres deflagrados por extremos hidrometeorológicos.

Dividida em quatro turnos, a Sala de Situação opera ininterruptamente. Durante a visita, os técnicos explicaram como adaptam os limiares de chuva para cada região do Brasil com base em históricos locais e áreas de risco mapeadas, buscando prever e conter desastres como deslizamentos, inundações e enxurradas. O momento foi marcado por muitos questionamentos, curiosidades e partilhas. No meio da manhã, a imersão já era vivenciada de forma profunda; o silêncio atento da plateia traduzia um forte sentimento de preocupação.

O principal desafio apontado pelos cientistas reside na complexidade e nas incertezas das previsões meteorológicas extremas, tanto em volume quanto em localização exata. Eventos recentes e de grande magnitude, como os deslizamentos em Petrópolis (2022), São Sebastião (2023) e a tragédia no Rio Grande do Sul, ilustram como desastres múltiplos e em cascata (quando o deslizamento de terra bloqueia rios e agrava as enchentes) potencializam a destruição e tornam o monitoramento contínuo ainda mais urgente.

A apuração enfatiza que o sistema de alertas funciona de forma integrada e gradual: os avisos moderados são mais comuns e indicam menor gravidade, enquanto os alertas altos e muito altos são mais raros, porém significativamente mais precisos. Contudo, os cientistas advertem que a emissão do alerta por si só não resolve o problema, sendo imprescindível que as Defesas Civis local se articulem preventivamente e conheçam a fundo as suas áreas de risco para salvar vidas.

“Desastres são socioambientais, resultado de vulnerabilidades e desigualdades sociais, não fenômenos naturais”

Educação ambiental e percepção de riscos marcam debate sobre vulnerabilidades

No período da tarde, os participantes integraram uma atividade sobre percepção de riscos, prevenção de desastres e a atuação do Programa Cemaden Educação, que contou com a participação da antropóloga Rachel Trajber. A especialista enfatizou a necessidade urgente de informação e formação diante das vulnerabilidades socioambientais vigentes, destacando que o atual cenário decorre de ações humanas históricas e desiguais, o que caracteriza o conceito de “novo regime climático” formulado pelo filósofo Bruno Latour. A professora Rachel reconfigurou o entendimento tradicional sobre as catástrofes ao pautar uma premissa analítica central para as políticas de mitigação: “Desastres são socioambientais, resultado de vulnerabilidades e desigualdades sociais, não fenômenos naturais”.

Para contrapor essa realidade, que afeta desproporcionalmente grupos expostos a desigualdades de gênero, idade e classe, o Cemaden Educação fortalece a capacidade adaptativa comunitária por meio de redes locais de monitoramento e aprendizagem colaborativa. O órgão disponibiliza campanhas anuais, jornadas pedagógicas e acervo digital voltados à resiliência e à justiça climática, articulando parcerias públicas e promovendo a conscientização. O encontro foi consolidado com uma oficina prática, espaço no qual os participantes compartilharam realidades regionais, debateram o enfrentamento à crise climática e crimes ambientais, e dividiram exemplos de protocolos integrados de proteção coletiva, a exemplo de comunidades do Rio Grande do Sul.

“Nosso maior desafio é promover mudanças por meio da linguagem emocional e da conversa, pois só assim tocamos o coração das pessoas”

O encerramento do primeiro dia foi marcado por uma imersão literal na realidade virtual com a exibição do filme Amazônia Viva. Equipado com óculos de (Realidade Virtual), o filme despertou nos participantes sentimento de urgência diante das ameaças que o bioma sofre, incluindo o garimpo ilegal e o desmatamento. Na roda de partilha que se seguiu, os relatos convergiram para a necessidade de ações coletivas e cotidianas em defesa da floresta, superando a dependência exclusiva do poder público. “Percebi que mudanças ambientais começam com pequenas atitudes e admiração pela natureza, não com grandes revoluções”, destacou uma das presentes, enquanto outra participante da região Norte reforçou o impacto do desmatamento e sua motivação para agir ativamente como cidadã a partir do trabalho coletivo.

A discussão também trouxe à tona o impacto desproporcional da degradação sobre as populações mais vulneráveis e a urgência de dar protagonismo aos saberes dos povos originários na formulação de políticas públicas. O Padre Atilio Dalla Battisttuz, atuante em Roraima, enfatizou que a floresta é um espaço de comunhão sagrada e apontou a sensibilidade como o principal caminho para a transformação social. O religioso ressaltou que o “nosso maior desafio ambiental e social é promover mudanças por meio da linguagem emocional e da conversa, pois só assim tocamos o coração das pessoas e unimos a comunidade, superando os limites da ciência, política e economia”.

Complementando essa visão, Carlos Henrique, coordenador do IRI, acalentou os presentes ao sugerir transformar a angústia gerada pelos dados reais em reflexão, inspirando na sabedoria dos  povos indígenas que recorrem ao recolhimento e ao sonho para compreender o verdadeiro significado de ser e agir.

“Alguns povos indígenas têm uma prática sábia: após um longo período de intensas interações e reações, eles dizem que é hora de dormir e sonhar. Depois de um dia tão exaustivo, acredito que é exatamente disso que precisamos: recolhimento e sonho”, finalizou Henrique.

Filme Amazônia Viva, despertou sentimento de urgência diante das ameaças. Foto: Comunicação IRI Brasil

Olhando de cima: A tecnologia espacial no segundo dia de imersão

Durante a visita de imersão ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os representantes conheceram o Laboratório de Integração e Testes (LIT), a infraestrutura mais avançada do hemisfério Sul para qualificação de satélites, e o Centro de Controle e Rastreio de Satélites. Atualmente, o país possui cinco equipamentos de grande porte em fabricação ou testes, incluindo o Amazônia-1B e o BiomeSat, focados no monitoramento ambiental. Além da produção nacional, o Inpe opera os satélites CBERS-4 e CBERS-4A em parceria com a China, alternando o controle semestralmente para o processamento de imagens do território nacional, diagnóstico de desmatamento e ações em situações de desastres.

As imagens capturadas pelas antenas e analisadas com o suporte de inteligência artificial são fundamentais para subsidiar políticas públicas e ações de fiscalização em tempo real. Segundo o físico Francisco Carvalho, de 60 anos, que atua diretamente na operação e processamento de dados do centro, o imageamento cumpre um papel político e social estratégico na preservação dos biomas brasileiros. O especialista detalhou que as “imagens de satélite comprovam desmatamento e são usadas para monitorar queimadas e alertar autoridades; os dados são públicos e analisados. Projetos com a UNESCO e a colaboração com pesquisadores utilizam essas imagens para identificar áreas de risco e proteger a população”.

“Nosso papel é produzir dados abertos e confiáveis para fiscalização”

Apesar da relevância socioambientais das pesquisas, o programa espacial brasileiro enfrenta severas restrições orçamentárias que comprometem a modernização da frota e limitam o tempo de visibilidade dos satélites sobre o território nacional a cerca de 13 minutos por passagem. Diante do cenário de escassez de recursos e da necessidade de prolongar a vida útil de equipamentos antigos, como o histórico SCD-1, Francisco desabafou sobre a defasagem tecnológica em relação a outras potências globais: “O Brasil está muito atrasado no cenário espacial internacional devido à falta de investimento, operando satélites antigos porque não há recursos para novos. Enquanto outras agências desativam satélites velhos e têm dezenas em operação, aqui precisamos prolongar ao máximo a vida útil dos poucos que temos”. Para reverter esse panorama, o Inpe projeta o desenvolvimento de cinco novos satélites para substituir os modelos obsoletos e ampliar a soberania espacial do país.

Ainda no segundo dia no Inpe, o diretor Antônio Miguel Vieira Monteiro acolheu os participantes, resgatando a memória e a vocação pastoral de Dom Pedro Casaldáliga na defesa do meio ambiente, ao afirmar: “Dom Pedro era um radical no sentido mais exato da palavra. Ser radical, afinal, é agarrar as coisas pela raiz, pela sua verdadeira essência. Ele transpôs essa filosofia para a sua fé e vocação, vivendo o Evangelho de forma plena”. Durante a agenda, o tecnologista Erison Monteiro detalhou o funcionamento do Programa BiomasBr e o uso dos sistemas DETER e TerraClass, ferramentas públicas essenciais que monitoram o desmatamento e o uso da terra em tempo real para subsidiar os órgãos de controle.

O momento também evidenciou os avanços tecnológicos e os desafios práticos enfrentados na área, destacando o desenvolvimento de novos satélites, como o Cyber 5 e o Amazônia 1B, e o rigor técnico das análises geográficas. Ao detalhar a atuação das equipes da autarquia, Erison reforçou que “nosso papel é produzir dados abertos e confiáveis para fiscalização […] usamos inteligência artificial para agilizar o mapeamento, mas sempre revisamos manualmente para garantir alta acurácia”.

O especialista concluiu alertando para as barreiras políticas e institucionais que dificultam o combate aos crimes ambientais, ao frisar que “territórios indígenas e agricultores responsáveis são fundamentais na proteção dos biomas, especialmente da Amazônia, mas o desmatamento persiste apesar da redução. A recente limitação do Ibama de aplicar multas por satélite enfraquece a fiscalização e dificulta ainda mais o controle”.

Fogo sob os olhos da ciência

O analista Pedro Lagden detalhou o histórico e o funcionamento do monitoramento de incêndios no país, revelando que os estudos da área começaram entre as décadas de 1970 e 1980 em um experimento pioneiro com a NASA. O que se esperava ser a análise da atmosfera mais pura do planeta revelou, na verdade, alarmantes níveis de contaminação por queimadas extensas na Amazônia, mudando os paradigmas científicos sobre a composição atmosférica. Hoje, o Programa Queimadas processa dados atualizados a cada 10 minutos no portal BdQueimadas através do canal infravermelho de satélites, servindo de base estratégica para relatórios diários enviados ao CIMAN e para ações diretas de combate em campo realizadas pelo Ibama, Prevfogo, Corpos de Bombeiros e Polícia Ambiental.

A apuração também desmistificou visões do senso comum sobre as causas do fogo, destacando que experimentos comprovaram que bitucas de cigarro não iniciam incêndios em mato seco e que não existem queimadas espontâneas na Amazônia. O monitoramento expôs cenários críticos e indícios de intencionalidade generalizada, como os incêndios recordes em plantações de cana-de-açúcar em São Paulo, onde 95% dos focos começaram simultaneamente entre as 10h e 14h em locais distintos. Embora o instituto ofereça capacitação a órgãos estaduais quando solicitado, foi ressaltada a ausência de um programa nacional integrado, o que faz com que as políticas ambientais e a velocidade de resposta variem de forma fragmentada entre os estados.

O foco central do INPE permanece estritamente na detecção rápida e confiável para subsidiar o combate, delimitando a atuação técnica da esfera de investigação ou punição criminal. Conforme enfatizou o técnico ao encerrar a apresentação: “Nosso trabalho é detectar e informar sobre queimadas; órgãos de fiscalização determinam se há crime. É possível identificar queimadas causadas por raios analisando condições climáticas, mas quase 100% das queimadas na Amazônia são provocadas por ação humana, intencional ou acidental”.

Disasters Charter: a cooperação global

Em seguida, o pesquisador e coordenador executivo Thales Sehn destacou a relevância da Carta Internacional Espaço e Grandes Desastres (Disasters Charter). Criada em 2000, a iniciativa global reúne 17 agências espaciais e 15 provedores de dados para fornecer gratuitamente imagens de satélite atualizadas e detalhadas em apoio a respostas emergenciais de grandes proporções, atuando em conjunto com o Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad). O Inpe contribui constantemente com o fornecimento desses mapas dinâmicos e gratuitos, chamados de produtos de valor agregado (VAP), que se diferenciam de plataformas comerciais por sua atualização contínua e utilidade pública. Justificando a urgência do serviço, Sehn alertou que “o monitoramento de desastres cresce, com inundações e deslizamentos sendo frequentes no Brasil”.

Na prática, a análise dessas imagens e dados satelitais foi crucial para validar pedidos de auxílio e estruturar as ações de reconstrução após as graves enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. O programa, que possui liderança rotativa semestral e passará futuramente pela presidência do Brasil, busca estreitar ainda mais os laços com as defesas civis locais para agilizar o atendimento a inundações, deslizamentos, terremotos e derramamentos de óleo. Ao responder a questionamentos sobre as especificidades do monitoramento, o pesquisador detalhou o funcionamento e os desafios logísticos da tecnologia espacial: “Imagens óticas de satélite são precisas, mas não funcionam com nuvens; satélites orbitam continuamente e transmitem dados sem parar. Eles têm vida útil planejada, mas podem durar muito mais, e há preocupação com combustível para reentrada segura”.

“Não existe falta de consenso científico sobre mudanças climáticas; o problema é a negação, mesmo diante de dados claros”

Professora Rachel a “equação” das causas socioambientais. Foto: Cláudia Pereira

Diante de novas ameaças climáticas

A última exposição da visita de imersão funcionou como um fechamento necessário para se pensar em resiliência e ações de mitigação aos danos causados pelo clima; um esforço para desenhar caminhos preventivos diante do que ainda está por vir, sobretudo após o impacto dos dados reais apresentados pelo Cemaden. Foi nesse cenário que a pesquisadora e engenheira florestal Francinelli de Angeli Francisco, da equipe AdaptaBrasil, trouxe a urgência do tempo presente para a sala. “Em 2024 houve aumento de dias quentes, ondas de calor e seca, agravando incêndios e problemas de saúde, especialmente para populações vulneráveis”, expôs. Como resposta, a plataforma pública surge para integrar e analisar os riscos do território nacional: “Desenvolvemos uma plataforma pública baseada em conceitos metodológicos para analisar riscos climáticos e indicadores socioecológicos, apoiando políticas de adaptação e mitigação”.

Essa radiografia científica esbarra, contudo, na fragilidade das defesas civis municipais, que carecem de recursos e de planos de contingência eficazes para proteger populações que já sofrem na pele, como as comunidades da Amazônia castigadas pela seca extrema de 2024. O conhecimento do risco local é o primeiro passo para a sobrevivência, mas a falta de investimentos e os retrocessos legislativos alimentam o isolamento dessas populações. “Precisamos planejar e agir em diferentes prazos para aumentar nossa resiliência e capacidade adaptativa diante das mudanças climáticas, aprendendo com erros passados para reduzir perdas futuras”, alertou Francinelli, apontando que a barreira mais complexa não é a falta de dados: “Não existe falta de consenso científico sobre mudanças climáticas; o problema é a negação, mesmo diante de dados claros”.

Tudo está interligado
Como se fôssemos um
Tudo está interligado
Nesta casa Comum…

Ao final o sentimento era do  Esperançar para quebrar a barreira do negacionismo e da desinformação. A  visita encerrou com a mensagem de ponto de convergência que para unir  a ciência, a mobilização social e a fé comunitária é sinônimo de soberania. Sob o teto da Casa Comum, dom Evaristo Spengler convidou a todos para a leitura do Cânticos das Criaturas e fez o envio dos participantes com orações e bênçãos. Carlos Henrique, coordenador do IRI, sintetizou a união de saberes ao lembrar que “a ciência moderna é formada basicamente por cientistas cristãos, com uma longa trajetória junto à Igreja. Então eu acredito que a gente precisa retomar essa vocação científica da Igreja também”.

O sentimento compartilhado por todas e todos era de profunda gratidão pela oportunidade de vivenciar aquele momento. A proposta de unir fé e ciência é de fato uma dádiva, traduzida em uma experiência de imersão na realidade que já bate à nossa porta. As previsões não são boas e assustam, mas há caminhos e saídas para salvaguardar o que ainda nos resta. O momento  comprova, com dados científicos, o que os povos e as comunidades tradicionais já denunciam há tempos sobre os impactos severos em nossos biomas e florestas. Do início ao fim da visita, os participantes foram recebidos com cuidado e uma acolhida carinhosa através de gestos e ações que fizeram com que todos se sentissem verdadeiramente integrados e acolhidos.

Quando os participantes se despediram, o clima do lado de fora estava ainda mais chuvoso e frio do que no primeiro dia. A atmosfera gelada daquele final de dia contrastava  com a realidade extremo que aguardava cada um no retorno às suas bases, territórios e comunidades, onde a esperança e os desafios da climática bate à porta todos os dias.

Sobre o IRI

A Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil (IRI Brasil) é uma iniciativa internacional ligada ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e conta com o apoio financeiro do governo da Noruega. Seu objetivo é contribuir para que as lideranças e comunidades religiosas possam aprofundar seus conhecimentos e atuação voltados para o cuidado com a Criação, com foco na preservação do equilíbrio climático, conservação e uso sustentável das florestas e na proteção dos direitos dos povos indígenas e demais comunidades tradicionais.

“Nosso projeto é temporário, focado em capacitar agentes locais e ampliar o entendimento sobre desastres ambientais, com encerramento previsto para 2029”, ressaltou Carlos Henrique, Coordenador de Projetos do IRI Brasil.

Fuente:  Comissão Pastoral da Terra (CPT) 

Temas: Crisis capitalista / Alternativas de los pueblos, Defensa de los derechos de los pueblos y comunidades, Formación

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