VBP bilionário do agronegócio mascara concentração de riqueza e controle de empresas

Leonardo Henrique

Análise sobre o faturamento de R$ 1,40 trilhão do agro revela que a economia brasileira ainda está ancorada na exportação de poucas mercadorias e na subordinação a grupos transnacionais

Os dados recentes divulgados esta semana pelo Ministério da Agricultura e Pecuária apontam que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária brasileira atingiu a cifra de R$ 1,40 trilhão em junho de 2026. Embora o governo apresente os números com entusiasmo, uma análise da conjuntura sob a ótica da Economia Política revela que essa riqueza está alicerçada em uma profunda concentração produtiva, territorial e empresarial, que mantém o desenvolvimento do campo subordinado aos interesses de grandes grupos transnacionais.

Apesar do faturamento imponente, o desempenho atual reflete o que o Movimento identifica como um avanço limitado diante de safras anteriores. “Recomenda-se um olhar mais atento à composição deste valor, que revela um crescimento pífio em relação ao período de 2024/2025”, afirma João Pedro Stédile. A estrutura desse faturamento demonstra que o modelo do agronegócio prioriza apenas cinco produtos — soja, gado bovino, milho, cana-de-açúcar e frango — que, juntos, somam R$ 956 bilhões, representando 68% de toda a produção nacional.

A soja, como principal motor desse modelo voltado à exportação, responde sozinha por R$ 336 bilhões (24 249 bilhões (17%). Para o Movimento, essa especialização produtiva reduz a biodiversidade no campo e fragiliza a soberania alimentar, enquanto a Reforma Agrária Popular propõe um modelo diversificado com base na agroecologia.

Desigualdade territorial e subordinação empresarial

A análise dos dados aponta que a riqueza gerada no campo não se distribui de forma igual pelo território brasileiro. Apenas cinco estados — Mato Grosso (15%), Minas Gerais (12%), São Paulo (11%), Paraná (14%) e Rio Grande do Sul (11%) — concentram 63% da produção nacional. Para Stedile, esse cenário reforça a necessidade de democratizar o acesso à terra por meio da criação de novos assentamento e acampamento em regiões hoje dominadas pelo latifúndio monocultor.

Além disso, a concentração geográfica e o controle econômico da produção não pertence, majoritariamente, aos produtores, mas sim às grandes corporações que dominam o comércio de insumos e a exportação. “Os fazendeiros do agronegócio e milhões de trabalhadores estão subordinados a poucas empresas que controlam todo o comércio da produção e acrescentam suas margens de lucro”, afirma Stédile. Enquanto o faturamento bruto dentro das fazendas é de R$ 1,40 trilhão, as 100 maiores empresas do setor faturaram R$ 1,88 trilhão no mesmo período, sendo que apenas as dez maiores controlam R$ 1,12 trilhão desse total.

A invisibilidade da produção popular

Um dos pontos centrais de crítica de João Pedro Stedile aos dados oficiais é a exclusão da agricultura familiar e camponesa das estatísticas de sucesso do governo. Produtos fundamentais para a dieta brasileira produzidos em terras de Reforma Agrária muitas vezes não entram nos grandes levantamentos por serem destinados ao autoconsumo ou comercializados em circuitos locais de feiras e pequenos armazéns.

“A maior parte dos produtos alimentícios produzidos pela agricultura familiar não está contabilizada, pois sua comercialização local dificulta a contabilidade oficial”, ressalta. O Movimento defende que a produção de alimentos saudáveis pelo povo Sem Terra é a única forma de romper com a dependência tecnológica e financeira imposta pelo agronegócio, garantindo que a riqueza gerada no campo permaneça no território e beneficie quem de fato trabalha na terra.

Fuente:  Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST)

Temas: Agronegocio, Corporaciones, Movimientos campesinos

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