Revista Biodiversidade, sustento e culturas N° 77 (versión Portugués)
"É longo o braço da monopolização dos alimentos, porque o sistema de corporações e agroindústrias quer se apoderar de toda a cadeia alimentar —como já repetimos tantas vezes — dos territórios ao supermercado. Hoje fazemos um balanço completo de muitos desses assuntos, todos urgentes. As resistências crescem, e a Via Campesina e a Rede por uma América Livre de Transgênicos se consolidam como organizações e espaços, e insistem na criatividade das pessoas."
Número 77, julho de 2013
É longo o braço da monopolização dos alimentos… mas crescem as resistências…
Editorial
A senhora da fotografia produz seus próprios alimentos e com orgulho nos mostra, de sua cozinha, o que acaba de colher. Não vamos identificá-la. Mas não por não sabermos seu nome, e sim porque ela simboliza milhões de pessoas que, de todos os rincões do planeta, produzem alimentos para suas famílias, para suas comunidades e seus vizinhos. Ainda são quem alimenta o mundo, doa a quem doer.
É longo o braço da monopolização dos alimentos, porque o sistema de corporações e agroindústrias quer se apoderar de toda a cadeia alimentar —como já repetimos tantas vezes — dos territórios ao supermercado.
Hoje fazemos um balanço completo de muitos desses assuntos, todos urgentes. As resistências crescem, e a Via Campesina e a Rede por uma América Livre de Transgênicos se consolidam como organizações e espaços, e insistem na criatividade das pessoas.
Gente de comunidades e regiões que reflete junto e tenta sistematizar, documentar, entender as afrontas cometidas contra si por corporações e governos, por voracidade, por afã controlador, porque se perdeu a medida da ganância.
Gente que luta contra a fragmentação e o absurdo, que busca escutar as vozes da terra, colocar a responsabilidade no centro de nossas ações. Assim reflete o texto de um coletivo de criação e reflexão da Costa Rica, que escreveu recentemente:
Uma montanha conta histórias de muitas épocas: eles e elas tentavam construir algo diferente, seguir sonhando, ou melhor, começar a sonhar, criar histórias, inventar, porque se cansaram de escutar que tudo estava inventado e que já não havia nada a fazer. Por isso começaram por agarrar seus sonhos em suas próprias mãos e começaram a inventar, a criar, a coroa de flores, com caras decididas e olhares fixos. Uma verdade heterodoxa, a qual parece que muitas vezes não chega a nada: mas o que mais podemos fazer além de ser com outros, de sentir mutuamente o presente. A intensidade da vida refletida em cada momento, respirando, suando, chorando, gritando, rindo. O corpo exala o que sente o coração.
O coração de quem já sabe que, como disse John Berger, “todo protesto político profundo é invocar uma justiça ausente, que se vê acompanhada pela esperança de que no futuro essa justiça fique estabelecida. No entanto, a razão primeira para protestar não é essa. As pessoas se manifestam porque não fazê-lo é humilhante demais, esmagador demais, letal demais. As pessoas protestam (montam uma barricada, se defendem, fazem greve de fome, dão-se as mãos para gritar ou escrevem) a fim de salvar o momento presente, não importa o que traga o futuro. Protestar é nos negarmos a ser reduzidos a zero e a que o silêncio nos seja imposto. Portanto, no momento exato em que alguém faz um protesto, só por fazê-lo, uma pequena vitória é alcançada. O momento, mesmo que transcorra como qualquer outro momento, adquire um certo caráter indestrutível”.
Biodiversidade se propõe a reunir esses momentos indestrutíveis.
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