O que o bombom de umbu revela sobre a força da agroecologia no semiárido e em outros territórios

Conheça a Central da Caatinga e o programa Ecoforte, política pública que apoia redes de agroecologia por todo o país.

Quem passeia pela orla de Juazeiro (BA) certamente nota o Armazém da Caatinga. E quem se arrisca a provar os produtos da agricultura familiar vendidos por lá descobre uma imensa riqueza e variedade alimentar, fruto de duas décadas de fortalecimento da produção no semiárido — impulsionada por programas como Um Milhão de Cisternas (P1MC), Uma Terra e Duas Águas (P1+2) e, mais recentemente, o Ecoforte, que desde 2013 vem ampliando o acesso dessa diversidade a novos mercados.

Nas prateleiras, o visitante encontra picolé de buriti e licuri, bombom de umbu (Umbubom), castanhas, doces, geleias, queijos, cafés e cervejas artesanais com os mais variados aromas e sabores — além do tradicional flocão de milho agroecológico, base do cuscuz de todo dia.

Toda essa produção é comercializada pela Central da Caatinga, uma das redes beneficiadas pelo programa Ecoforte em 2015. Agora, o programa chega à terceira edição, com a assinatura de novos contratos que fortalecem redes de agroecologia no semiárido e em outras regiões do Brasil.

O pontapé inicial da nova fase do Programa Ecoforte ocorreu durante o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), realizado de 15 a 18 de outubro, em Juazeiro (BA). Principal instrumento da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica do governo federal, o Ecoforte chega à sua terceira edição com investimento recorde de R$ 100 milhões, disponibilizados pela Fundação Banco do Brasil (FBB) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Assim como o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) foi decisivo para a agricultura familiar do semiárido — ao viabilizar o armazenamento de água da chuva e amenizar os desafios de irrigação —, o Ecoforte tem sido fundamental no apoio à agroecologia e na transformação dos sistemas alimentares nos territórios rurais de diferentes biomas do país.

Lançado em 2013, o Ecoforte é considerado a política mais inovadora do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), por apoiar redes territoriais de agroecologia — articulações que envolvem cooperativas, associações, sindicatos, ONGs, universidades e Escolas Família Agrícola.

De lá para cá, sua trajetória vem sendo analisada por especialistas e monitorada pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). O resultado desse acompanhamento foi reunido na publicação Redes de Agroecologia para o Desenvolvimento dos Territórios. Segundo Flavia Londres, da Secretaria Executiva da ANA, “é uma política muito inovadora, principalmente porque permite que as próprias redes indiquem o que precisa ser apoiado e fortalecido em cada lugar — diferente das políticas públicas tradicionais, geralmente desenhadas em Brasília e aplicadas de forma uniforme em todo o país”.

Monitoramento e novas perspectivas

Às vésperas do CBA, o Encontro Ecoforte de Redes Territoriais de Agroecologia, também em Juazeiro, reuniu representantes de diversas instituições para debater novos caminhos e metodologias de monitoramento do programa.

Segundo Patrícia Tavares, representante da Secretaria-Geral da Presidência da República na Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Cnapo), a proposta do evento foi “entender como as políticas públicas saem de Brasília e chegam aos territórios — e como as demandas locais influenciam a formulação dessas políticas”. Ela destacou a importância de produzir evidências que fortaleçam as experiências territoriais: “Queremos saber quais são os efeitos concretos das políticas públicas na transformação dos sistemas alimentares nos territórios”.

Central da Caatinga: exemplo de impacto

Uma das experiências que ilustram os resultados do Ecoforte é a da Central da Caatinga, em Juazeiro. Criada a partir da atuação do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa) — ONG com mais de 35 anos de trabalho no semiárido baiano —, a Central articula produção, comercialização e sustentabilidade.

Atualmente composta por nove cooperativas e mais de 20 empreendimentos, a Central fortalece a economia solidária e estimula um novo modelo de produção agroecológica familiar, diversificando a oferta e ampliando a circulação de produtos regionais.

O primeiro passo para compreender os avanços dessa rede foi traçar uma linha do tempo das políticas públicas que a antecederam, como a implantação das cisternas, os programas de educação contextualizada e a mobilização social. Esse conjunto preparou o terreno para a estruturação da rede territorial, que se consolidou com as políticas públicas dos primeiros governos Lula.

Fundada em 2007, inicialmente sob o nome Rede Sabor Natural do Sertão, a Central expandiu sua atuação a partir de 2014, com o apoio do Ecoforte e de outras políticas complementares, como o Fomento Rural, o crédito produtivo e a ampliação do programa de cisternas.

Efeitos nas famílias e nos territórios

Segundo Clérison Belém, do Irpaa, é essencial compreender o Ecoforte como parte de um conjunto de políticas que influenciam tanto a rede quanto a vida das famílias. “Quando uma política pública fortalece a rede, ela também transforma a vida das famílias, ampliando a participação social, incentivando construções coletivas e abrindo acesso a novos projetos — como grupos de mulheres, bancos de sementes e tecnologias sociais”, explicou.

Belém destaca ainda que os efeitos se refletem diretamente no manejo da terra, no aumento da produção e da renda, e na maior participação das famílias em espaços comunitários. A equipe do Irpaa também vem analisando como o programa impactou a relação das famílias com os mercados, observando aspectos como autonomia, acesso à água, uso de insumos e remuneração do trabalho.

“Hoje, mais de cinco anos após a última edição do Ecoforte, debatemos a renda e a composição das produções. Perguntamos: a política está promovendo diversificação ou especialização? Está melhorando a remuneração ou gerando dependência de insumos?”, questiona Belém.

Para ele, essas análises ajudam a direcionar os novos investimentos: “As práticas são cíclicas. O novo Ecoforte se integra ao que já vem sendo construído, abrindo um novo ciclo, com novos grupos e novas perspectivas de atuação”.

Política pública coproduzida com os territórios

Paulo Petersen, coordenador executivo da AS-PTA e integrante do Núcleo Executivo da ANA, reforça que o sucesso de políticas de agroecologia depende da coprodução entre sociedade civil e Estado. “Essa coprodução nasce nos territórios, onde os sistemas alimentares realmente se organizam. O Ecoforte é um grande laboratório de inovação em políticas públicas, porque, embora tenha origem em Brasília, só se concretiza a partir das experiências e das articulações locais”, conclui.

Fonte: Midia Ninja

Temas: Agroecología, Comercio justo / Economía solidaria, Soberanía alimentaria

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