Brasil: agricultura familiar precisa ser priorizada para erradicar a fome, diz Consea
A fome no Brasil é considerada como um dos principais problemas sociais
Segundo estudo divulgado recentemente pela Agência das Nações Unidas para a Alimentação (FAO), embora o país tenha conseguido reduzir o número de desnutridos, mais de 14 milhões de pessoas ainda sofrem de desnutrição.
No Brasil, o governo federal estima que cerca de 60% dos alimentos consumidos pela população vêm da agricultura familiar, mas esta produção vem a cada dia perdendo espaço para a produção voltada para a exportação, o chamado agronegócio. Esse modelo, baseado na monocultura, devasta florestas e leva para outros países o lucro que adquire no Brasil com a produção de grãos.
Para falar sobre como a agricultura familiar pode fornecer melhores condições de alimentação e sustentabilidade, a Agência Notícias do Planalto, conversou com Adriano Martins, integrante do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão ligado ao governo federal. Ouça agora a entrevista.
Agência Notícias do Planalto: Adriano, quais os problemas representados pelo agronegócio para o desenvolvimento da agricultura familiar?
Adriano Martins: Essa produção tem problemas. Um deles é que se você incluir no custo final, o custo ambiental, ou seja, o custo do que foi desmatado e da água que foi utilizada para produção, percebe-se que isto é um péssimo negócio para o país, economicamente inclusive.
Não é esta a produção que põe a mesa do brasileiro. Os investimentos na agricultura familiar cresceram neste último governo em relação aos outros, mas eles ainda são muito pequenos em relação ao investimento feito na agricultura de exportação. Para mim o grande “nó” é em relação à prioridade dada à produção voltada a exportação, em especial a produção de grãos e a de carne de corte para exportação. Se continuarmos assim a gente não erradica a fome não.
ANP: Como fortalecer a agricultura familiar?
AM: Eu acho que temos um registro importante para fazer.
Primeiro as novas modalidades e o aumento de investimentos no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), com as linhas Jovem, Mulher e Agroecologia. Essas novas modalidades são muito importantes. As vias de fortalecimento da agricultura familiar estão dadas. Nós temos este “nó” bastante sério em relação à reforma agrária e a assistência técnica, mesmo ocorrendo algum avanço, ainda existe um desafio muito grande. A reforma agrária é uma dívida histórica que se perpetua, mas o caminho está apontado não vejo muita dificuldade.
ANP: Na opinião do Consea, existe alguma forma da agricultura familiar e o agronegócio caminharem na mesma direção?
AM: Se a gente coloca segurança nutricional da população brasileira em primeiro lugar, a importância do agronegócio se torna relativa, considerando o dano ambiental. A agricultura familiar por empregar mais gente e pelo papel que ela pode ter na preservação dos ambientes naturais, ela não pode deixar de ser prioritária nos investimentos federais. Talvez a solução agora, pensando no Estado brasileiro, não seja a de negar a existência da agricultura industrializada e do agronegócio, mas talvez chegar próximo daquela idéia da inversão de prioridades e diminuir os investimentos nas formas de agricultura ou de produção que são danosas ao ambiente, que não garante segurança alimentar e nutricional. Inverter prioridades.
Este é o caminho para o governo investir numa transição para a agroecologia.
Vocês ouviram a entrevista com Adriano Martins, integrante do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão ligado ao governo federal.