270 anos depois, Sepé Tiaraju Vive

Idioma Portugués
País Brasil

Em fevereiro de 1756, na Sanga da Bica, em São Gabriel (RS), soldados espanhóis emboscaram e mataram Sepé Tiaraju, líder guerreiro do povo Guarani.

Sem designação de autor | Crédito: Ilustrações publicadas na Cartilha da Câmara dos Deputados quando Sepé foi incluído no Panteão dos Heróis da Pátria

Em fevereiro de 1756, na Sanga da Bica, em São Gabriel (RS), soldados espanhóis emboscaram e mataram Sepé Tiaraju, líder guerreiro do povo Guarani.

Mas seu corpo jamais foi encontrado. Após o crime, os assassinos não puderam expô-lo como troféu – esse intento frustrou-se.

Os Guarani acreditam que Sepé se fez facho de luz, elevado aos céus por Ñhanderu, de onde ilumina, acompanha e guia o seu povo.

Sepé, portanto, não morreu. Assim como nunca desapareceu da história, apesar das violentas invasões, a sua frase ecoa, dita em prosas e versos:

“Alto lá, essa terra tem dono.”

Sepé Tiaraju vive, assim como sua força poética, sua mística e sua religiosidade, que caminham no contínuo caminhar do povo Guarani.

O povo da Terra Sem Mal, da sensibilidade, da palavra boa, dos sonhos e das memórias que constroem a esperança, apesar das colônias, dos escravagistas, dos invasores, dos devastadores de terras, rios e florestas.

Sepé Vive em seus Herdeiros da Terra.

Tornou-se carne nos corpos indígenas, tornou-se espírito que dá sentido à existência daquelas e daqueles que apenas desejam terra para viver.

Terra negada, rasgada, cercada, consumida como mercadoria e violentada, como os corpos de mulheres e meninas, por homens rudes e criminosos.

Passados 270 anos, Sepé vive nos passos Guarani: nas danças, nos cantos sagrados, nas conversas alegres e tristes, nos conselhos dos mais velhos aos jovens. Está na purificação da fumaça do petynguá, cachimbo que compõe o tempo e o espaço, que liga os espíritos à territorialidade.

Sepé Tiaraju também chora: as dores, o sangue derramado, as cercas erguidas, os rios enlameados, as matas arrancadas, o chão pisado e maltratado.

Chora as vidas perdidas nas margens das estradas, sob barrancos, em barracos de lona preta, onde tantas existências sucumbem.

Ele chora as injustiças que, apesar do tempo, prevalecem. Chora porque os genocídios seguem sendo ferramenta de dominação, opressão e acumulação gananciosa dos bens da natureza, da Mãe Terra.

Sepé vive. Está entre o povo, nas preces, nos cantos, nas místicas. Percorre o espaço infinito das memórias, porque se fez guerreiro santo para os cristãos, mas facho de luz e de vida para os Guarani.

Sepé ainda diz, esta terra tem dono, porque ela foi presenteada por Ñhanderu, tornada Mãe, o lugar de ser e viver – terra que precisa ser cultivada, cuidada, amada e assegurada, sem cercas, sem violência.

Hoje, 270 anos depois, Sepé – certamente – também bradaria:

“Alto lá!

Parem de nos matar!

Demarcação Já!”

 

Porto Alegre (RS), 07 de fevereiro de 2026.

Roberto Liebgott

Cimi Regional Sul – Equipe Porto  Alegre

Fonte:  Conselho Indigenista Missionário (CIMI)

Temas: Pueblos indígenas

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