Mulheres marcham em defesa da agroecologia e contra ‘falsas soluções’ para o Semiárido
Mobilização denuncia impactos de grandes empreendimentos eólicos; Programa Um Milhão de Tetos Solares é lançado.
Mais de seis mil mulheres ocuparam as ruas de Remígio, no agreste da Paraíba, durante a 17ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia nesta sexta-feira (13). A mobilização é organizada pelo Polo da Borborema, que reúne agricultoras, lideranças comunitárias e organizações populares do Semiárido. Realizado com o lema Mulheres em defesa da Borborema Agroecológica, contra as falsas soluções para o clima, o ato denunciou impactos de grandes projetos energéticos na região e propôs soluções para democratizar a produção de energia.
A programação começou pela manhã, com feira agroecológica e apresentações culturais, seguida de caminhada pelas ruas da cidade. Durante o ato também foi lançado o Programa Um Milhão de Tetos Solares, iniciativa da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) em parceria com a Fundação Banco do Brasil. O evento terminou com apresentação da cirandeira Lia de Itamaracá.
Mantendo suas origens, a mobilização destacou a luta por direitos das agricultoras do território da Borborema. A agricultora Roselita Vitor, conhecida como Rose, integrante da organização da marcha, afirma que o movimento nasce das experiências agroecológicas das mulheres e da necessidade de tornar públicas desigualdades e violências historicamente invisibilizadas no campo. “A marcha nasce para afirmar a agroecologia como um projeto político e também para denunciar todo tipo de violência contra as mulheres camponesas”, explica.
Os modelos de desenvolvimento no território, segundo relatos, têm provocado impactos sociais e ambientais nas comunidades rurais. Nos últimos anos, por exemplo, todo o debate feminista da mobilização se tornou inseparável da pauta climática. De acordo com Rose, o avanço de grandes empreendimentos de energia renovável no Semiárido tem sido acompanhado de conflitos territoriais e impactos nas comunidades. “ Eu vi torre eólica quase na porta da casa das famílias, com aerogeradores girando 24 horas e pessoas adoecendo”, relata.
Para ela, a marcha busca discutir as mudanças climáticas a partir da realidade dos territórios. “A gente quer discutir as mudanças climáticas a partir dos territórios, e não apenas a partir do debate global.” Neste sentido, a Marcha denuncia as chamadas “falsas soluções”, com as empresas que vendem a imagem de limpas, mas ameaçam práticas camponesas e agroecológicas na região.
Mulheres criticam as estratégias das empresas para se instalarem nos terrórios | Crédito: Túlio Martins/ AS-PTA
Energia descentralizada como alternativa
Uma das principais propostas apresentadas na Marcha foi o Programa Um Milhão de Tetos Solares. A iniciativa pretende ampliar o acesso à energia solar nas casas de famílias agricultoras, com sistemas instalados nos telhados das residências.
Segundo o coordenador da ASA, Giovanne Xenofonte, o programa se inspira em experiências anteriores de convivência com o Semiárido, como o Programa Um Milhão de Cisternas. “Na época [início da década de 2000] também se falava da concentração da água. Hoje acontece algo parecido com a energia”, explica.
A proposta é estimular uma geração descentralizada, em que as próprias famílias possam produzir e utilizar energia. “O programa Um Milhão de Tetos Solares nasce como uma alternativa para produção de energia descentralizada”.
De acordo com Xenofonte, a energia solar poderá trazer benefícios diretos para o cotidiano das comunidades rurais. “O primeiro objetivo é promover conforto doméstico. O segundo é fortalecer a produção de alimentos. E o terceiro é permitir que as famílias comercializem o excedente de energia”.
A iniciativa também prevê formação de jovens em escolas-fábricas solares, responsáveis pela produção, instalação e manutenção dos equipamentos. “Queremos desenvolver capacidades nos territórios, principalmente com a juventude, para produzir, instalar e fazer a manutenção dos sistemas”.
Organização das mulheres transforma vidas
Para muitas agricultoras, a marcha representa um momento de encontro e fortalecimento de uma organização que acontece ao longo de todo o ano. Moradora da comunidade Mata Redonda, em Remígio, a agricultora Maria Eliane participa da mobilização desde 2016, quando passou a integrar a associação comunitária e o sindicato rural. “A primeira vez que eu participei foi em 2016 mesmo e amei”, conta.
Segundo Eliane, a mobilização ajuda a ampliar o debate sobre direitos das mulheres e a enfrentar situações de violência. “Hoje a gente marcha, mas a marcha se prolonga por todo o ano”.
Ela relata que muitas agricultoras passaram a participar mais da vida pública após o contato com o movimento. “Muitas mulheres viviam em casa no seu canto, e o marido não deixava sair nem para vir para a marcha”.
Com o tempo, diz ela, o processo de organização coletiva tem contribuído para ampliar a consciência sobre direitos.“A gente conversando, elas vão abrindo a mente e vendo que têm direitos”.
A ciranda de Lia de Itamaracá está presente há dez anos na Marcha | Crédito: Túlio Martins/ AS-PTA
Cultura popular e resistência
Além das pautas políticas, a marcha também celebra a cultura popular. Há dez anos participando do evento, a cirandeira Lia de Itamaracá diz que considera uma honra estar ao lado das agricultoras da Borborema. “Isso aí é uma honra minha estar no meio dessa marcha, no meio dessas mulheres guerreiras”, afirma.
Para a artista, a ciranda — dança coletiva típica do litoral nordestino — dialoga com o espírito comunitário camponês da mobilização. “Ciranda é uma dança de roda que começa com as crianças e vai até os adultos. É uma cultura que não se acaba”.
Ao final do evento, a artista conduziu o público em roda de ciranda, celebrando a união entre cultura popular, luta social e defesa do território, como uma celebração conjunta da conquista popular de direitos.
Território, agroecologia e futuro do Semiárido
Ao reunir milhares de mulheres nas ruas de Remígio, a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia reafirma a centralidade das agricultoras na construção de práticas e saberes para a boa convivência com a região semiárida do país.
Para Rose, a mobilização representa não apenas um momento de denúncia, mas também de anúncio de novos caminhos para o território. “Quando a gente fala em um milhão de tetos solares, estamos dizendo que as famílias podem produzir sua própria energia”.
A expectativa das participantes é que iniciativas desse tipo fortaleçam a autonomia das comunidades rurais e ampliem as condições de permanência das famílias no campo. “Eu quero ver nossas mulheres sendo livres e bem aceitas na sociedade como um ser humano”, resume Maria Eliane.
- Editado por Luís Indriunas.
Fonte: Brasil de Fato
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