Produzir alimentos saudáveis e plantar árvores: a Reforma Agrária Popular no combate ao Coronavírus

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Ainda precisaremos de algum tempo para compreender como surgiu e como de fato funciona a doença que produziu essa pandemia. A família de vírus conhecida como Coronavírus é estudada há décadas, mas essa variedade específica só viemos conhecer nos últimos quatro meses. Mesmo assim, algumas conclusões podem ser tiradas.

A primeira e fundamental é que as dimensões e gravidade dessa pandemia está profundamente associada com a ruptura ecológica produzida pelo sistema capitalista e intensificada nas últimas décadas. Segundo artigo recente de Silvia Ribeiro, pesquisadora do ETC Group, os últimos vírus com potencial de infecção planetária – gripe aviária, gripe suína (H1N1) e as últimas variedades de Coronavírus anteriores à atual – surgiram justamente de três fenômenos dessa intensificação capitalista: 1) a produção industrial de larga escala de animais confinados; 2) o avanço das monoculturas voltadas para produzir ração, com seus agrotóxicos e outros insumos associados; 3) o descontrolado e completamente desigual crescimento urbano e sua danosa base alimentar, ditada pelas transnacionais do agronegócio e da comercialização desses produtos.

O que temos com essa situação? Por um lado, o envenenamento massivo da natureza estimula a seleção natural no sentido de surgirem variedades de vegetais, vírus, bactérias cada vez mais resistentes. A concentração de animais em sistemas confinados formam a condição favorável para a multiplicação de microorganismos patógenos, em especial para esses que possuem já alta resistência. Ao longo desse processo de evolução genética (que em vírus e bactérias são de poucos meses) mutações vão surgindo, o que possibilita que esses microorganismos possam infectar seres tão diferentes como porcos, aves, bovinos e seres humanos.

Por outro lado, vegetais, animais e seres humanos que estão subordinados à lógica alimentar das grandes transnacionais vão se tornando cada vez mais vulneráveis, com menos imunidade e resistência a essas doenças. O francês Francis Chaboussou, ao desenvolver a teoria da trofobiose para as plantas, afirmou que “solo doente, planta doente”. Podemos reproduzir isso para todo o metabolismo socioecológico: alimento doente (ultraprocessado, pouco diverso, envenenado), ambiente doente (escassez hídrica, ausência de biodiversidade, poluições diversas), seres humanos doentes.

Provavelmente controlaremos a dinâmica do Covid19 (nome científico do vírus), mas isso não quer dizer que ele deixará de existir. Ao contrário, assim como a gripe suína e a dengue, nós passaremos a ter mais essa doença em nosso “calendário sanitário”. E, tudo indica que outras pandemias virão. A pergunta, então, é: como alterar essa marcha da humanidade que ruma para a doença e a morte?

A construção histórica dos movimentos camponeses populares apontam os alicerces dessa mudança. O primeiro deles é a Reforma Agrária Popular e a defesa dos territórios camponeses e indígenas. O latifúndio e a concentração de terras devem ser superados pela redistribuição massiva dessas terras para o povo trabalhador. Além de medida que garantirá a produção de alimentos saudáveis em larga escala, é também a única possibilidade de inverter a dinâmica da ruptura ecológica, que acumula milhões e milhões de pessoas em aglomerações urbanas insalubres.

A segunda é a Soberania Alimentar e a Agroecologia. A Soberania Alimentar é a mudança radical do sentido da produção de alimentos. Ao invés de responder ao interesse do capital, da geração de lucro, os alimentos devem atender aos interesses das massas trabalhadoras e de forma que proporcione vida boa para as famílias camponesas. A diversidade de alimentos, o conhecimento tradicional a eles associado e a disponibilidade desses alimentos com beneficiamentos menos agressivos é um dos elementos centrais do fortalecimento do organismo humano de forma coletiva.

Romper com o sistema alimentar hegemônico que potencializa a produção e comercialização dos produtos ultraprocessados, baseados em açúcares, gorduras, sódio, aditivos químicos e cada vez mais restritos a poucas culturas (como soja e milho), significa dar passos para reverter o quadro de agravo da saúde da população, refém das doenças crônicas como diabetes, hipertensão, obesidade, cânceres. 

Se compararmos a China com os EUA nessa pandemia atual, já podemos tirar algumas lições. Uma é que dentre os tratamentos utilizados na vitoriosa ação chinesa contra a doença, estão um conjunto de mais de uma dezena de plantas da medicina tradicional do país. Outra é o perfil epidemiológico da doença: enquanto na China o grupo de risco era quase exclusivamente idosos, nos EUA pessoas de 20 a 50 anos já representam 40% dos internados. Isso se deve à diferença de alimentação e práticas de saúde entre os dois países.

Nesse sentido não é possível pensar Soberania Alimentar sem Agroecologia. Se é na Soberania Alimentar que estão as possibilidades de garantir às comunidades o acesso aos recursos naturais dos seus territórios, como água, terra, sementes, insumos e a biodiversidade, é com a Agroecologia que podemos garantir a produção de alimentos saudáveis e adaptados culturalmente aos hábitos alimentares tradicionais.

A Agroecologia, essa forma de manejar a natureza com conhecimentos tradicionais e científicos para produzir alimentos saudáveis, possibilita que se concretize exatamente o oposto do que o capital na agricultura faz: para eles monocultura, para o campesinato agroecológico, a diversidade; para eles os agrotóxicos e os insumos químico-industriais, para nós o manejo do solo, o controle biológico, o pó de rocha, os biofertilizantes; para eles a transgenia, para nós as sementes crioulas.

Além disso, no contexto de isolamento social das cidades, com o fechamento de fronteiras e as restrições ao comércio, será a Agroecologia e a produção camponesa que darão as respostas na manutenção do abastecimento alimentar das cidades, fornecendo alimentos saudáveis e fortalecendo o comércio justo e solidário.

Portanto, reivindicar a soberania alimentar e a agroecologia são as formas de promover um sistema alimentar mundial que seja democrático, a serviço do bem-estar e saúde humana, do cuidado com o meio ambiente e da garantia de sobrevivência digna dos seres humanos.

O terceiro alicerce é o cuidado dos bens comuns. A água, os minérios, a terra e a biodiversidade são bens naturais finitos e, por isso, são comuns a todos os seres humanos. Quando temos um ambiente onde os bens comuns estão cuidados ficamos mais fortalecidos tanto na mente quanto no físico. As cidades, em especial nas periferias, são o oposto disso: a desigualdade social, o descaso do poder público e a histórica expulsão das famílias camponesas para as zonas urbanas criaram ambientes insalubres, que adoecem as pessoas, fisicamente e mentalmente.

Temos claro que a crise estrutural do capitalismo já estava em pleno desenvolvimento. A pandemia do Covid-19 acelerou muito esse processo e o mundo que sairá dessa crise sanitária será pior para os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade: haverá mais fome, mais desemprego, mais desigualdade social, e os equipamentos públicos de saúde estarão ainda mais colapsados. Portanto, não é pausa da luta de classes. Ao contrário, é seu aprofundamento.

É nesse sentido que devemos entender nossa tarefa nesse momento. Seja em nossos acampamentos, sejam nos assentamentos populares, nas comunidades de resistência ou nos assentamentos consolidados. Devemos intensificar a produção de alimentos saudáveis, experimentar novos manejos agroecológicos, colher sementes e produzir mudas. Em poucas semanas haverá grande demanda por alimentos baratos e saudáveis – e é nesse momento que devemos demonstrar a importância da Reforma Agrária para o país.

O que já temos, devemos comercializar a preços justos ou doar, para as massas trabalhadoras. E o que não temos, devemos imediatamente plantar e organizar a criação de animais, de forma individual e coletiva. Além disso, devemos praticar a solidariedade interna nos nossos territórios, trocando alimentos que cada família produzam e possibilitando que todos tenham acesso à alimentação diversificada.

E devemos também preparar um grande esforço concentrado dentro do nosso Plano Nacional “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”. Esse esforço deve ser em três sentidos: 1) com a produção de mudas, coleta de sementes, organização de viveiros artesanais; 2) associado com o embelezamento das nossas áreas, plantar árvores, jardins, trocar bandeiras, pintar murais; 3) intensificar o plantio de árvores em nossos territórios (nas parcelas individuais e nas áreas coletivas), para depois organizar plantios nas cidades, nas praças, canteiros de avenidas, parques. As árvores trazem consigo a simbologia da resistência e da esperança e essa deve ser nossa mensagem para a sociedade. Plantar árvores é recriar ambientes da relação ser humano – natureza, aumentando a resiliência frente a novas pandemias.

Como poucas vezes na história existem as condições de disputarmos claramente o que é o projeto da morte e o que é o projeto da vida. Sem dúvidas isso só se dará com muita luta, ações coletivas e radicais, e estas devem estar articuladas com essas tarefas bem concretas: produzir muito alimento saudável e plantar árvores por todo o país.

Fotos de: Dowglas Silva y Gustavo Marinho

Fuente: MST

Temas: Agroecología

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