Fato Social, do Analfabeto Midiático ou de Ator e de Autor (mídia, sociedade e poder)

Idioma Portugués
País Brasil

"Talvez o intervalo comercial seja um momento tão verdadeiro como são os noticiários, com todas as implicações que derivam da categoria de Verdade que, sabemos, é sempre uma construção social. Enfim, o desafio que nos é colocado é o da necessidade de nos alfabetizarmos midiaticamente pois, quem sabe aqui resida efetivamente o novo analfabeto, isto é, aquele que não sabe ler a mídia não só nas entrelinhas, mas também nos intervalos".

Duas personalidades entre as mais expostas aos brasileiros, a jornalista Fátima Bernardes e o ator Toni Ramos, recentemente aparecerem nas telas das TVs recomendando produtos de duas das maiores empresas brasileiras, a Seara e a Friboi. Estamos diante de um fato que se encaixa à perfeição ao conceito de fato social [2] que nos sugere o sociólogo Emile Durkheim (1858-1917).

A própria publicidade, para não dizer o fato de implicar um ator e uma jornalista, já são em si mesmos fatos sociais. E no caso em questão estamos diante de uma publicidade que não envolve atores desconhecidos que profissionalmente se dedicam exclusivamente à publicidade, ainda que todo ator em publicidade esteja representando um público-alvo (para “negros”, para “ricos”, para “pobres”, para” jovens”, para “mulheres”, para “gays”, para “terceira idade”, sempre com aspas para indicar a autoria, no caso, a dos especialistas que produzem o senso comum). Não, os atores em questão são sobejamente conhecidos e emprestam suas qualidades de personalidades acima de qualquer suspeita, pois jamais houve qualquer ato que desabonasse sua conduta moral, ainda que vivendo um mundo onde “tudo é permitido” como o mundo artístico é percebido por esse mesmo senso comum.

Por isso, podem entrar em nossa casa e, mais ainda, transferir essas qualidades ao produto que vai à mesa de cada um. Aqui, a separação entre o que é público e o que privado tem suas fronteiras deslizadas e borradas.

Como um bom fato social, as publicidades da Seara e da Friboi protagonizadas pela Sr.ª.

Fátima Bernardes e pelo Sr. Toni Ramos nos ajudam a compreender muito do atual padrão de poder dominante na sociedade brasileira que envolve uma coalizão de classes poderosas como as grandes corporações multinacionais com sede no Brasil e no exterior (o Grupo JBS ao qual pertence a Friboi, a própria Seara, a Monsanto, a Syngenta, a Bunge & Born, o HSBC, o Itaú, entre muitas), as oligarquias latifundiárias (com grande peso no Congresso Nacional) e os grandes grupos de comunicação, como o grupo Globo Comunicação e Participações S/A, ao qual pertence a Rede Globo de Televisão. Registre-se que esse grupo em especial aparece como Associado à Associação Brasileira do Agronegócio conforme consta em seu site (leia aqui)

Não estamos diante de um fato que nos remeta somente à escala nacional, seja lá o que isso signifique no contexto de um sistema mundo capitalista moderno-colonial em que um dos suportes é exatamente o chamado Estado Nacional. Afinal, em todo o mundo a mídia é cada vez mais parte do sistema de poder dominante. Tomamos como significativo para caracterizar essa afirmação o ano de 1998, quando Michael Jordan, um dos mais espetaculares jogadores de basquete que o mundo conhecera, recebeu da empresa que o patrocinava, a Nike, um valor equivalente ao pagamento de todos os trabalhadores empregados pela empresa em todo o mundo naquele mesmo ano! Ou seja, a imagem de Michael Jordan valia mais que todos os trabalhadores que produziam o tênis. Talvez aqui comecemos a entender porque corre tão livremente o slogan “uma imagem vale mais que mil palavras”! Não poderia haver melhor exemplo do significado das empresas de comunicação na estrutura de poder na atual fase do capitalismo. Afinal, não é só o tênis que é mercadoria, pois também o são o “espaço-tempo” das redes de TV que transmitem jogos de basquete e que são patrocinadas pelas empresas que patrocinam os “Michaels Jordans” (SportTV News, ESPNs, Fox, etc.) como também os “Tonis Ramos” e as “Fátimas Bernardes”.

Não sabemos o valor monetário do pagamento à Sr.ª Fátima Bernardes e ao Sr. Toni Ramos por seu trabalho (ou melhor por sua imagem) e das respectivas participações em relação ao total de trabalhadores anônimos e desconhecidos implicados no complexo agronegócio a que os dois atores emprestam seu prestígio com seus valores morais. Essa informação não nos é oferecida aqui prevalecendo o direito à privacidade embora seja uma mensagem pública patrocinada com muito dinheiro público, sobretudo do BNDEs. A Friboi se inscreve como uma das maiores captadoras de financiamento do BNDEs a ponto de ter gerado certo mal-estar ao governo de Dilma Roussef quando nomeara a Sr.ª Katia Abreu para Ministra da Agricultura, ela que condenara publicamente a concentração de empréstimos do BNDEs ao Grupo JBS, proprietário da marca Friboi. Aqui o jogo de esconde-esconde entre o que é público e o que é privado é manejado em benefício não do interesse público e do público. Talvez não seja destituído de sentido informar que a TV Globo tenha iniciado suas transmissões em 1965, um ano depois do golpe contra o governo democrático de então, e no meio da década em que o Brasil registra, pela primeira vez na história, a viragem demográfica em que a população deixa de ser predominantemente rural e passa a ser predominantemente urbana.

Ou seja, a conformação societária no meio urbano brasileiro se deu com forte influência desse poderoso “meio de produção capitalística das subjetividades” (Felix Guatarri), a televisão. Até mesmo sua reconhecida qualidade técnico-artística pode ser atribuída à formação imagético-discursiva característica dos grupos sociais que não dominam a escrita formal, como a maior parte da população brasileira que, até 1960, era rural e, mesmo nas áreas urbanas, a alfabetização formal não era generalizada. Tomo aqui em consideração a fina observação que me foi feita pelo saudoso amigo, Rafael de Carvalho (1918-1981), conhecido nacionalmente como nordestino graças ao desempenho nas suas sucessivas representações na mesma Rede Globo da Sr.ª Fátima Bernardes e do Sr. Toni Ramos, e que nos disse “que a rima e a gravura dos livros de cordel nos ajudam a fixar a ideia como se fossem as linhas do caderno”, ele que era presidente da Associação Nacional de Cordelistas.

Consideremos, como nos ensina o historiador E. Thompson, que somos a primeira geração na história da humanidade em que os grupos de socialização primária - a família e a comunidade adjacente – perderam a prerrogativa de serem os principais formadores das necessidades de seus filhos. Assim, Felix Guatarri, Edward Thompson e Rafael de Carvalho nos dão as pistas teórico-conceituais para entendermos a importância dos meios de comunicação de massas, sobretudo das que se expressam por meio da imagem e do som, e não tanto pela escrita, na conformação das subjetividades em meios urbanos em países de urbanização acelerada como o são os da chamada periferia do sistema mundo capitalista moderno-colonial nos últimos 40 anos!

E que ainda contam com a criatividade derivada da larga tradição imagético-discursiva dessas formações sociais só muito recentemente urbanizadas (melhor seria dizer sub-urbanizadas).

Fátima Bernardes é mãe de trigêmeos e sabe do valor do leite para alimentar nossos filhos. Talvez não saiba, mas deveria saber, que foi constatada a existência de veneno em 100% das amostras de leite materno em estudo realizado no município de Lucas do Rio Verde, um dos maiores produtores de soja do país [3]. A soja, também transformada em leite, e o milho plantados no Centro-Oeste brasileiro se destinam, sobretudo à produção de carnes. Em Lucas do Rio Verde, em 2006, uma chuva tóxica se espraiou sobre a zona urbana desse município, como consequência da fumigação com paraquat [4], usado para secar a soja para facilitar a colheita. O vento disseminou uma nuvem tóxica que secou milhares de plantas ornamentais e jardins, 180 hortas medicinais e todas as hortaliças em 65 chácaras ao redor da cidade (Pignati, Dores, Moreira, et al, 2013).

Segundo a autora do estudo que registrou a contaminação do leite, Danielly Cristina de Andrade Palma, em trabalho sob o título ‘Agrotóxicos em leite humano de mães residentes em Lucas do Rio Verde-MT, “as amostras de leite humano provenientes das nutrizes residentes em Lucas do Rio Verde-MT apresentaram evidente contaminação multiresidual por agrotóxicos organoclorados, piretróides e dinitroanilinas. O p,p' - DDE [5] foi encontrado em 100% das amostras analisadas” (Andrade Palma 2011, p. 84). Posteriormente estudos realizados entre 2007 e 2010, ainda em Lucas do Rio Verde, constatou-se a contaminação por vários agrotóxicos em 83% dos poços de água potável (cidade e escolas), em 56% das amostras de água em pátios escolares e em 25% das mostras de ar tomadas durante 2 anos (Pignati, Dores, Moreira et al, 2013). O Sr. Toni Ramos talvez não saiba, mas deveria saber, por emprestar seu prestígio ao Programa “Amigos da Escola”, que esses poços de água potável e amostras de água colhidas em pátios escolares registraram alto nível de contaminação derivada de práticas agrícolas do complexo do agronegócio que produz a carne que o ator recomenda com tanto gosto ao público.

Enfim, o que esse fato social nos ensina, entre outras coisas, é que temos a obrigação de prestarmos mais atenção aos intervalos comerciais onde estão os patrocinadores das novelas, dos noticiários, dos programas de variedades. Quem sabe assim podemos entender o silêncio na mídia das informações que dizem respeito ao bloco de poder que nos governa (Michel Foucault).

Talvez o intervalo comercial seja um momento tão verdadeiro como são os noticiários, com todas as implicações que derivam da categoria de Verdade que, sabemos, é sempre uma construção social. Enfim, o desafio que nos é colocado é o da necessidade de nos alfabetizarmos midiaticamente pois, quem sabe aqui resida efetivamente o novo analfabeto, isto é, aquele que não sabe ler a mídia não só nas entrelinhas, mas também nos intervalos.

Carlos Walter Porto-Gonçalves: Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense.

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NOTAS:

[2] Segundo Durkheim o fato social consiste em maneiras de agir, de pensar e de sentir que exercem determinada força sobre os indivíduos, obrigando-os a se adaptar às regras da sociedade onde vivem. Todavia para ser identificado como tal, o fato social deve atender às três características de generalidade, exterioridade e coercitividade. A coercitividade implica o poder, ou a força, que os padrões culturais têm de se impor aos indivíduos que integram uma determinada sociedade num momento/lugar próprio, obrigando os indivíduos a cumpri-los. Já a exterioridade diz respeito ao fato de que quando um indivíduo nasce, a sociedade já está organizada, com suas leis, seus padrões culturais. Viver em sociedade é, em certo sentido, aprender esses valores já postos exteriormente. A generalidade, porseu turno, implica que os fatos sociais são coletivos, pois não existem ou sociedade (cf. Durkheim, 1972: p. 1-4, 5, 8-11).

[3] Registre-se que grande parte da produção de soja e milho se destina ao consumo animal, seja de frango,de gado bovino ou de porco, como o que se destina ao presunto Seara que a Sr.a. Fátima Bernardes nos recomenda.

[4] Segundo Prof. Pignati, criticando os critérios com que os órgãos públivos vem medindo a contaminação por paraquat nos informa que ele “entra em reação quando é exposto ao Sol – ocorre uma fotólise e em uma semana o veneno original desaparece. Se você procurar pelo princípio ativo do Paraquat, após uma semana, você não vai encontrar, mas seu metabólito, que é altamente cancerígeno, vai estar lá, presente na amostra com a forma de Alfa-Paraquat. Se você não fizer os testes específicos para detectar o metabólito Alfa-Paraquat, você não vai encontrá-lo", explicou.

[5] Composto químico parente do DDT (Agente Laranja), desfolhante largamente usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnam.

Temas: Ciencia y conocimiento crítico

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