Brasil: Capital transnacional: uma lógica contrária à sustentabilidade

Idioma Portugués
País Brasil

Com o objetivo de ampliar o debate sobre o modelo de produção agrícola adotado no Brasil, na manhã de quinta-feira (28/5), os participantes da 8ª Jornada de Agroecologia se dedicaram a discutir a lógica de atuação das transnacionais em nosso país.

O professor da Universidade de São Paulo (USP), Ariovaldo Umbelino, abriu a mesa “O movimento do Capital transnacional na Agricultura e suas consequências” a partir de um resgate histórico do capitalismo dos séculos XX e XXI.

De acordo com ele, o sistema sofreu transformações que resultaram em um processo de mundialização do capital que ocorreu devido às fusões de empresas de diferentes partes do mundo. “Aí nascem as transnacionais que buscam dar um salto na qualidade de produção.”

Este processo, que resultou em um modelo de produção que visa somente o lucro, também foi inserido no modo de cultivo dominante da agricultura brasileira. Para Umbelino, a mídia com forte poder de influência “inventou” o conceito do Agronegócio, que nada mais é do que a lógica capitalista inserida na agricultura. “Além disso, o Agronegócio tem sido apresentado como o único caminho a ser seguido para o desenvolvimento do capital.”

Segundo o professor, esta lógica subordina o processo produtivo da agricultura familiar, que diferente da atual, baseia-se na produção do capital e não na reprodução ampliada do mesmo. Além de ter como resultado o acúmulo, a lógica capitalista possui, como um dos pilares de sustentação, a relação - em maioria exploratória - com trabalhadores assalariados.

Em decorrência do atual modelo, hoje, empresas mundiais controlam a produção de alimentos no mundo e passam a operar por meio da venda desses alimentos nos chamados pregões das Bolsas de Mercadorias e de Futuro. Ou seja, vendem papéis que representam safras futuras. Esta prática, voltada para a exportação, permite que o empresário tenha uma previsão de lucro.

Recentemente divulgado pela imprensa, a fusão entre a Perdigão e a Sadia exemplificam bem este processo. “São duas grandes empresas que estão em processo de monopolização e que vão controlar 80% do mercado avícola e de suínos. A partir daí ela começa a ditar os preços dos produtos”, salientou.

Umbelino destacou que este modelo gera desigualdade e hoje cerca de um bilhão de pessoas passam fome no mundo. O movimento do capital transnacional como não é voltado para a sustentabilidade, não se preocupa com o meio ambiente e nem com a produção de alimentos para abastecer a população interna, no caso brasileiro, é pautada numa lógica contrária da praticada e discutida nas lutas e organizações dos movimentos sociais ligados ao campo.

Para Umbelino a Agroecologia é o futuro da humanidade e, é preciso que a sociedade enxergue a Agroecologia como alternativa para o aumento e a garantia da produção de alimentos, que além de partir do princípio da alimentação saudável, busca no manejo da produção a soberania alimentar.

A 8ª Jornada de Agroecologia ocorre até o próximo sábado (30) no Centro de Exposições de Francisco Beltrão, região sudoeste do Paraná.

Um sistema de integração que explora o integrado
Por Carla Cobalchini

O professor de História da UNIJUÍ, Dinarte Belato, expôs com propriedade toda a estrutura dos sistemas integrados do agronegócio e as suas formas de dominação e exploração dos pequenos agricultores.

O sistema de integração das grandes empresas do agronegócio, como por exemplo a Sadia, envolve uma enorme quantidade de trabalhadores especializados, ou seja, constitui uma grande cadeia que controla o trabalho através da sua divisão. Apenas atingem esse patamar de organização os grupos econômicos que ao longo das últimas décadas concentram capital
suficiente para integrar os vários processos que envolvem a produção agrícola, em escalas cada vez mais globais.

O professor afirma que o capital consegue impor o sistema integrado à agricultura quando determinados setores fora da produção agropecuária, mas relacionados a ela, assumem forma concentrada de produção. Um exemplo disso são as fábricas de rações. Podemos inclusive dizer que o volume de capital movimentado por esses setores chega a ser maior do que o da produção dos alimentos em si.

A partir dessa teoria do agronegócio, inaugurada na década de 1950, os problemas da agricultura apenas são considerados quando ameaçam esse ritmo de acumulação de capital. Diante de um sistema tão poderoso, Dinarte questiona: quem comanda essa cadeia produtiva? No caso dos produtos alimentícios originados de aves e suínos com a fusão Sadia/Perdigão, agora denominada BRASIL FOODS, é uma das que cumpre esse papel. O produtor “integrado” a essa cadeia jamais ocupará esse lugar.

Brasil Foods

“Essa fusão não iniciou agora, suas negociações já tem mais de dois anos, ou seja, é anterior a crise mas foi acelerado com ela. Ela representa o oligopólio em uma área estratégica alimentar que são produtos de origem animal, as chamadas carnes baratas que são pratos diários trabalhadores.” O professor ainda enfatiza que desse processo haverá um processo muito mais severo de seleção de “integrados”, ou seja, apenas permanecerão na cadeia aqueles que tiverem condições de aumentar em muito a sua produção. Isso significa que boa parte dos produtores atuais não permanecerá no sistema.

Essa fusão ainda deve racionalizar as plantas, o que significa fechar algumas unidades, e abrir outras, inclusive com a demissão de muitos trabalhadores.

Para que essa estrutura funcione, o capital inventou um novo sujeito: o agricultor integrado. Pressionado a assinar um contrato que amarraria financiamento aos padrões de produção ditados pela empresa, o sistema integrado escraviza o produtor e garante que ele e outros produtores não
tenham capacidade de produzir e comercializar seus produtos de forma autônoma, ou seja, diz o que o produtor deve produzir na sua terra. Dinarte chama esse contrato com o Sistema Integrado de “capataz invisível”.

Diante desse gigante, o que fazer? “A agroecologia, é hoje, a possibilidade que nós temos de voltar a nos apropriarmos dos bens da humanidade: que são os alimentos. Os alimentos fundamentais necessários à sustentação da população: milho, trigo e arroz. Coincidentemente, são a base das três grandes civilizações que deram origem às atuais: o milho na América, o arroz na Ásia e o trigo nas civilizações do Oriente Médio e Europa. Hoje, estas culturas estão ameaçadas de apropriação privada por grandes empresas globalizadas.”

Fuente: MST - Brasil

Temas: Corporaciones

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