Carta da 48ª Romaria da Terra

Idioma Portugués
País Brasil

"Nossa Romaria é, também, peregrinação pela Mãe Terra, quando, outra vez, clamamos pela reforma agrária; demarcação dos territórios indígenas e quilombolas; agricultura camponesa e familiar fortalecida e por um mundo onde haja a efetiva partilha do pão e da justiça social".

A 48ª Romaria da Terra carrega, nos passos de romeiras e romeiros, a mística e a profecia do contínuo caminhar do Povo de Deus buscando a terra prometida, assim como da luta e utopia dos  Guarani em busca da Terra Sem Males. Neste chão sagrado de Caaró, 400 anos depois das Missões Jesuíticas e dos 270 anos da morte do Santo Guerreiro, Sepé Tiaraju, ainda ecoa o seu brado:

“Alto lá! Esta Terra tem dono!”

Clamor que atravessa os séculos e permanece atual como denúncia das injustiças e anúncio de esperança e resistência.

Reunidos estamos sob o lema “Eu vi um novo céu e uma nova terra” (Ap 21,1). Aqui, neste lugar dos mártires missioneiros, Roque Gonzales, Afonso Rodrigues e João del Castillo, reafirmamos que nossa esperança não é fuga espiritual, mas compromisso histórico com a transformação das estruturas que geram morte. Portanto, a Terra Sem Males não é utopia distante, mas horizonte que orienta nossa peregrinação e compromisso cristão por justiça, dignidade e vida plena para todas e todos.

Nesta caminhada, com os pés firmes, com as mãos que se comunicam, com as boas palavras, a Romaria torna-se profundamente marcada pelas espiritualidades missioneira e guaranítica, que fazem do tempo presente memória – uma memória celebrativa e penitencial.

Reconhecemos, nesse caminho, com humildade e verdade, as violências cometidas contra os povos originários nestes mais de cinco séculos de evangelização nos quais, como Igreja Povo de Deus, muitas vezes fomos omissos e não tivemos ousadia  profética para defender o direito e a justiça para os povos originários. Fazer memória é compromisso com a justiça. Não há reconciliação sem verdade; não há paz sem reparação.

Nossa Romaria é, também, peregrinação pela Mãe Terra, quando, outra vez, clamamos pela reforma agrária; demarcação dos territórios indígenas e quilombolas; agricultura camponesa e familiar fortalecida e por um mundo onde haja a efetiva partilha do pão e da justiça social.

Nossa Romaria, portanto, é profetismo, porque denuncia o pecado estrutural da ganância, da concentração da terra, da mercantilização da vida, do racismo, da homofobia, do machismo, que gera o feminicídio e todas as formas de opressão. Mas também anuncia um outro mundo possível, sinal do Reino de Deus, onde a vida esteja no centro, onde o amor prevaleça e a fraternidade guie as relações, para que se viva,  aqui e agora, o novo céu e a nova terra anunciados por Jesus.

A Romaria da Terra é gesto político e eclesial. É expressão de que a fé não se separa da luta por direitos. É compromisso da Igreja Samaritana que se coloca junto aos pobres, aos povos originários, às comunidades quilombolas, aos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade para que Terra, Teto e Trabalho estejam ao alcance de todos e todas.

É também momento de memória agradecida. Por isso, recordamos – com carinho e compromisso – nosso querido Frei Sérgio Görgen, romeiro dos romeiros, que fez sua Páscoa no dia 03 de fevereiro. Frei Sérgio, através de sua vida franciscana e do apoio radical às lutas sociais e camponesas, foi semente lançada em terra fértil. Semente que não morre: germina, floresce e permanece viva na caminhada do povo.

Em tempos de extremismos e de proliferação do fascismo, que ameaça à democracia e os direitos humanos, reafirmamos:

O Evangelho de Jesus Cristo nos chama à resistência e ao amor. Louvamos, nessa hora, a Mãe de Jesus e nossa, que em Guadalupe se fez próxima e se revelou ao índio Juan Diego e que caminha com seu povo, acolhendo lágrimas e fortalecendo a esperança.

NOSSOS COMPROMISSOS PROFÉTICOS E PASTORAIS

Ao concluir esta 48ª Romaria da Terra, assumimos que este momento não é ponto final, mas envio missionário.

E perante este mandato comprometemo-nos a transformar essa experiência em prática concreta para:

1. Defender incondicionalmente a demarcação e proteção dos territórios indígenas e quilombolas, colocando nossas comunidades, pastorais e organismos a serviço da proteção da vida e denunciando toda violência e invasão.

2. Enfrentar os “empreendimentos de morte”, denunciando o agronegócio predatório, os monocultivos envenenados, as fábricas de celulose, a mineração e demais projetos que devastam territórios, rios, lagos, florestas e comunidades.

3. Promover a Ecologia Integral como prática pastoral, incentivando a agroecologia, o reflorestamento com espécies nativas, a proteção das águas e o nosso compromisso com a defesa e proteção da Nossa Casa Comum, a Mãe Terra.

4. Fortalecer a formação política e a espiritualidade libertadora, com processos permanentes de estudo sobre Doutrina Social da Igreja, direitos constitucionais, democracia e justiça socioambiental e climática.

5. Assumir a memória histórica como compromisso de contrição e reparação, promovendo celebrações, escutas e iniciativas que reconheçam oficialmente as violências cometidas historicamente contra os povos originários.

6. Inserir o espírito da Romaria na vida das comunidades, paróquias e escolas, elaborando subsídios celebrativos e formativos que mantenham viva a temática da terra ao longo do ano.

7. Fortalecer as organizações populares, movimentos sociais e as economias solidárias, apoiando feiras da agricultura camponesa e indígena, redes de comercialização justa e iniciativas de soberania alimentar.

8. Articular redes de cooperação entre campo e cidade, promovendo alianças entre comunidades de agricultores, assentamentos, aldeias, quilombos e comunidades urbanas.

9. Exigir Memória, Justiça e Reparação Histórica, reivindicando políticas públicas de reconhecimento, valorização cultural e proteção das lideranças e comunidades ameaçadas.

10. Ser Igreja de resistência e defesa da democracia, especialmente nos meses futuros – em tempo de período eleitoral – não permitindo que o nome de Deus seja usado para fins eleitoreiros, justificando-se a partir Dele, o ódio, a violência ou discriminação.

Seguimos em Romaria.

Com a coragem de Sepé.

Com a espiritualidade Guarani.

Com a firmeza dos profetas.

Com a ternura de nossa Mãe Maria.

Que o novo céu e a nova terra comecem agora – no compromisso concreto com a justiça, a democracia e a vida.

Até que a Terra sem Males floresça entre nós.

Santuário de Caaró – Caibaté, Diocese de Santo Ângelo (RS).

17 de fevereiro de 2026.

Fonte:  Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Temas: Defensa de los derechos de los pueblos y comunidades, Tierra, territorio y bienes comunes

Notas relacionadas:

Carta da  48ª Romaria da Terra

Carta da 48ª Romaria da Terra

8 de marzo de 2026: Declaración de la Marcha Mundial de las Mujeres

8 de marzo de 2026: Declaración de la Marcha Mundial de las Mujeres

Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo en la India.

¿Por qué el Día de la Mujer? Porque la desigualdad continúa, ya sea en la ley, en los Parlamentos o en el cuerpo

Comentarios