É um tempo de Guerra? É um tempo sem sol?

Idioma Portugués
País Brasil
“A reconstrução não pode acontecer sem a participação ativa dos atingidos. Defender nossos direitos é defender a dignidade humana e a justiça social”, resume o MAB | Crédito: Francisco Proner

As avaliações sobre a tragédia ambiental de 2024 estão revelando a enorme fragilidade institucional do Rio Grande do Sul, para enfrentamento de situações que tendem a ser recorrentes.

"O futuro que queremos dependerá de trabalhos integrados que limitem as possibilidades de tragédias ambientais"

Tanto no que diz respeito a medidas preventivas voltadas à minimização de novos impactos do aquecimento global, como em se tratando de capacitações necessárias ao protagonismo das famílias diante de circunstâncias emergenciais e, principalmente, se observada a escassa reparação dos danos verificados dois anos atrás (três anos, para muitos dos afetados pela enchente de 2023), as ações do estado se revelam confusas e pouco eficientes. Neste último ponto, e especialmente em relação às famílias, comunidades e territórios de baixa representatividade econômica, a dramaticidade da questão, foi resumida em Audiência Pública (29/abril) com a frase: “ seguimos sem casa e sem direitos”.

Pois bem, neste dia 4 de maio, em atividade promovida em parceria pelos Jornais Sul 21 e Brasil de Fato, com apoio da Universidade Federal do Rio Grande do sul (Ufrgs), e em sequência ao ciclo de debates “ Que Futuro Queremos?”, foram desenvolvidos dois painéis, com os subtemas “As mudanças climáticas e a soberania alimentar” e “ Como a ciência está enfrentando as mudanças climáticas?”, que estão muito bem resumidos em matérias das jornalistas Fabiana Reinholz e Bettina Gehm.

Recomendo leitura daqueles artigos, que não repetirei aqui. Se trata de documentação importante, que precisa ser incorporada a interpretações e atitudes de enfrentamento ao negacionismo, para recuperação da democracia e contenção daqueles que se beneficiam do capitalismo de desastres, em nosso estado.  

O fato a destacar é que a sociedade civil organizada, ciente da inadequação do modelo de desenvolvimento subsidiado pelo neoliberalismo, está agindo e propondo alternativas recuperadoras da dignidade e direitos  ameaçados naquelas dimensões de serviços públicos mal conduzidos pelo governo gaúcho.

Trata-se (com as limitações de quem pouco ou nada conta com o poder público) de antecipação a problemas futuros (medidas mitigatórias), preparação para enfrentamento de tragédias, apoio aos desfavorecidos e ações coletivas construtoras de consciência, bases para um projeto de nação orientada pela democracia participativa. Aí estão as cozinhas solidarias do MTD, MAB e MST, as “ Sementes de Solidariedade” e a   Missão Josué de Castro com ações coletivas que incorporam atividades de formação conexas ao Plano Camponês (do MPA) e à Reforma Agrária Popular (do MST), sempre com foco em soberania (alimentar, tecnológica e de conhecimento) nacional, humanista e amistosa à natureza. Assista pelo youtube a íntegra das exposições resumidas por Fabiana e Betina, aqui (abertura e visão dos movimentos sociais) e aqui (visão dos cientistas).

Como seria de esperar as organizações sociais se apoiam na cultura popular e, ao mesmo tempo, em interpretações de uma ciência digna que aponta falência de um sistema dependente de tecnologias e processos que ampliam bolsões de miséria, injustiças e racismo ambiental na mesma medida em que aceleram a apropriação concentrada de riquezas e a degradação de bens comuns.

Em concordância, estudiosos comprometidos com um projeto de nação independente e cientes dos riscos ambientais já inevitáveis, se associam à sabedoria e aos conhecimentos populares para apontar alternativas coerentes com a realidade dos territórios e respaldadas pela ciência acadêmica, para mitigação dos danos que estão sendo mapeados e que se agravarão na ausência de ações voltadas à superação do atual modelo de desenvolvimento.

Nesta perspectiva, uma vez que as crises ambientais possuem implicações sociais e políticas e pela coerência do fato com o que vinha sendo descrito acima, se faz oportuno trazer aqui o recém lançado Manifesto em defesa da democracia.

Por iniciativa do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito, organizações da sociedade civil, juristas, movimentos democráticos e organizações populares (através daquele manifesto) denunciaram a concentração de poderes no Congresso Nacional, criticaram o avanço das emendas parlamentares e conclamaram as forças democráticas a priorizarem (para além das eleições majoritárias) a disputa pelo Legislativo, nas eleições de 2026.

O nexo entre este alerta e aquelas iniciativas se evidencia na possibilidade de captura de todos os poderes republicanos por forças políticas de extrema direita. Com apoio da grande mídia e tecnologias digitais distorcendo mecanismos da democracia representativa, estamos ameaçados de retornar ou ir além daquela disfuncionalidade institucional por que passamos no período Bolsonaro. Ali, a par da destruição de biomas, da volta ao mapa da fome, da privatização irrefreada e destruição de estatais, da aceleração da corrupção, do quase golpe do estado, com morte de lideranças e estabelecimento de campos de concentração, vivemos (sob estímulo da Presidência da República e orientação do Ministério da Saúde) aquele recorde disparatado onde, com menos de 3% da população mundial acumulamos 10% dos óbitos em consequência da covid.

E é disso que se trata: ou um país democrático buscando o melhor para seu povo, ou uma capitania, com seus capitães do mato operando de maneira inescrupulosa e subordinada a interesses externos, à revelia dos direitos e necessidades dos brasileiros.

Podemos observar o avanço do pior mesmo hoje, durante o governo Lula, onde os poderes Executivo e Judiciário já estão sendo impedidos de exercer plenamente suas funções constitucionais. E podemos antever o que está se acumulando e pode desmoronar sobre o país, na dependência dos resultados eleitorais de 2026, quando teremos ou não expectativas de paz social com protagonismo popular, valorização da ciência digna, democracia e respeito à Constituição Cidadã.

É com esta preocupação que o Manifesto em Defesa da Democracia está convocando a consciência nacional a se engajar, em ações de apoio à eleição de governadores e parlamentares comprometidos com a soberania nacional democrática e coerente com as necessidades reais da população em tempos de crise climática.

O texto do manifesto destaca que as democracias “podem ser destruídas pela ação de forças autoritárias que agem dentro de suas instituições, como vemos acontecer hoje no Congresso brasileiro”… e conclui afirmando que “precisamos eleger os candidatos(as) de nossas frentes democráticas para o Executivo federal e estadual e o Senado, mas com a mesma dedicação precisamos também eleger os candidatos(as) a deputados(as) federais e estaduais dos partidos que compõem essas frentes democráticas e populares”.

Não há como discordar: o futuro que queremos dependerá de trabalhos integrados que limitem as possibilidades de tragédias socioambientais que serão tanto maiores quanto mais próximos estivermos do regime fascista que nos ameaça.

Finalizando, repito aqui sugestão já apresentada em semana anterior: precisamos desmascarar os candidatos da direita, que nesta eleição entrarão em cena maquiados, embelezados por campanhas de marketing produzidas para esconder seus patrocinadores, compromissos e histórias de vida. 

Para isso podemos produzir e divulgar folhetos e comunicações digitais mostrando a cara, o nome, o partido e a ficha corrida de todos eles, esclarecendo quem são, como se posicionaram em relação ao Pacote do Veneno, ao Pacote da Devastação, ao Marco Temporal, ao Pacote da Impunidade Criminal, e o que pensam a respeito das várias expressões de racismo e discriminação que avançam neste pais.

Efetivamente, cada um de nós precisa e pode fazer muito, motivando os grupos onde participamos para que todos contribuam, da forma que puderem, para que em 2027 tenhamos uma maioria de senadores e deputados comprometidos com um projeto de país democrático, não negacionista, soberano e socialmente inclusivo.

Vai ser uma guerra.

Uma música associada a isso?

Maria Bethânia canta, de Edu Lobo, Eu vivo num tempo de guerra !

Editado por: Katia Marko

Fuente:  www.brasildefato.com.br

Temas: Defensa de los derechos de los pueblos y comunidades, Defensa del Territorio , Ecología política

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