Grito e Clamor pela Amazônia Viva: a violência persistente no campo no sul do Amazonas

Idioma Portugués
País Brasil

A situação do sul do Amazonas, Boca do Acre, Lábrea e as confluências da AMACRO, região também cortada pela BR 317, trazendo os produtos da Ásia para a América do Sul e levando as riquezas deste continente latinoamericano, através do Porto de Chancay no Peru para o mundo asiático, cria uma nova rota que não é mais a Rota da Seda, mas sim a Rota da Soja. Este caminho, infelizmente, escorre sangue em suas encostas.

Este é um cenário de violência e criminalidade no campo contra as pessoas, a terra, a água e a floresta, que remonta aos tempos anteriores e se alargou a partir de 2018. Todos estes conflitos vêm sendo registrados no caderno de Conflitos no Campo da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Somente neste ano de 2026, em Boca do Acre/AM, ocorreram os seguintes assassinatos:

  • No dia 23.03.2026,  numa praça na cidade de Boca do Acre, o trabalhador rural, posseiro, Luciano Machado, de 43 anos. A causa foi um conflito de terra no Bom Lugar. As suspeitas de acusações pairam sobre policiais aposentados, parceiros do capitão que por muito tempo comandou a Polícia Militar em Boca do Acre, e era jagunço a serviço da grilagem de terras no Sul do Amazonas. O capitão, inclusive, saiu do município preso pela Polícia Federal. Outro suspeito desde assassinato é um homem chamado de “Malandro”, além de um vaqueiro que teria levado os criminosos ao encontro de Luciano;
  • No dia 25.04.2026, Josias Albuquerque de Oliveira (45 anos), Antônio Renato (32 anos), e Artur Farias Said (14 anos). Os suspeitos foram presos, mas os mandantes continuam soltos, mesmo revelados os seus nomes;
  • No dia 04.06.2026, o trabalhador rural Márcio Rogério Barbosa, de 57 anos, conhecido como Paulistão. Outros três trabalhadores ficaram gravemente feridos, mas conseguiram sobreviver.
A grilagem de terras públicas no PA Monte

Trecho da BR-317 na divisa do Acre com o Amazonas: pistolagem e jaguncismo impõem a lei dos fazendeiros em região marcada pela violência no campo na Amazônia (Foto: Acervo Varadouro)

Estas terras do Projeto de Assentamento (PA) Monte, em Boca do Acre e Lábrea – Sul do Amazonas, onde estão ocorrendo esses conflitos com mortes, foram arrecadadas pelo Incra para Reforma Agrária, mas uma parte não foi destinada e são palco de disputa pelos grileiros fazendeiros e posseiros que não foram assentados.

O que é uma terra arrecadada pelo Incra? É uma terra que o Incra solicita ao governo do estado ou governo federal para fins de Reforma Agrária, se abre um edital, cria-se o assentamento para assentar os trabalhadores rurais, que estão precisando de terra com direito ao módulo de terra estabelecido para um determinado assentamento.

Acontece que só uma parte dessas terras do PA Monte foi destinada e assentaram os trabalhadores rurais, outra parte não foi destinada. E aí o que aconteceu? Os grileiros, vindos de fora, de Minas Gerais, do Nordeste, da própria região do entorno, grandes fazendeiros, entraram na terra pública da União e se apossaram, grilaram essas terras de forma ilegal, uma vez que eles não eram trabalhadores rurais.

O que quer dizer entrar e grilar uma terra pública? Para vocês entenderem, é a mesma coisa que uma instituição ou uma empresa adentrar em uma escola pública fechada numa cidade, e se apossar dela em busca de benefícios próprios, que não beneficiam o público. A mesma coisa é a terra pública, seja da União, ou do Estado, é um bem público. Aí os grileiros entram, se apossam, vão cortando a mata, tirando minério e colocando gado.

No exemplo que demos anteriormente, se grupos de pessoas, empresários, entram numa escola pública na cidade, o que vai acontecer para eles saírem? A polícia vai lá, o Ministério Público, a Defensoria, todos os órgãos públicos, especialmente os da área da Educação, vão tirar os que entraram na escola. Chamam isso de manutenção de posse ou reintegração de posse dependendo da situação. A mesma coisa acontece com a terra pública.

A omissão e a conivência dos órgãos governamentais

E aí, você pergunta: por que o Incra que arrecadou essas terras do PA Monte, deixou que esses fazendeiros entrassem no PA Monte? Isso se chama omissão,  porque era papel do Incra recorrer à Defensoria Pública da União, à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal. Pois ele não fez, fez vista grossa. Por quê?

Há suspeitas de mancomunação da autarquia com políticos corruptos e muitos deles são, também, grileiros, fazendo vista grossa, adentrando ou deixando outros invasores avançarem. Nessas terras, tinha gente há mais de 20 anos morando. E esses grileiros, o que eles fazem? Eles mancomunam-se, também, com os órgãos  de segurança pública, Judiciário e políticos da mesma máfia. E muitas vezes vão aos cartórios das cidades e conseguem documentos falsos. Tudo com a conivência de governos e órgãos públicos municipais, estaduais e federais.

Com documentos falsos, eles vão e pedem a reintegração de posse ou a manutenção de posse que nunca tiveram. Mais uma vez mancomunados com juízes da área, eles pedem ao Judiciário, conseguindo a reintegração ou manutenção de posse. As forças de segurança, os órgãos da justiças, que deveriam não ter permitido a grilagem de terra ou ter retirado os grileiros, agora vão retirar os trabalhadores que já estavam na terra antes delas serem arrecadadas ou entram na terra pública não destinada porque não conseguiram terras no  assentamento nas terras destinados. Foi o que aconteceu com muitos trabalhadores e trabalhadoras rurais daquela região do PA Monte.

Essas grilagens também ocorreram nas terras do Seringal Entre Rios, no município de Boca do Acre e no sul de Lábrea. Eles levaram as polícias civil e militar, retiraram os trabalhadores rurais, fecharam os ramais, ficaram com as pequenas propriedades, gado entre 40, 30 e 20 vacas e com casas de madeiras boas e bonitas, motos, carros que os trabalhadores tinham. Isso vem acontecendo desde 2018.

Por outro lado, os órgãos públicos, que eram para defender a população, se tornaram aliados desses grileiros, desses fazendeiros. Isto vem acontecendo em toda a Amazônia: Acre, Roraima, Rondônia, Amazonas, Pará, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. Nesse caso do PA  Monte, a CPT Acre vem sempre atuando,  denunciando, registrando nos Cadernos de Conflitos, defendendo através dos órgãos públicos,  Defensoria, Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União.

Os trabalhadores do Seringal entre Rios e das comunidades Marielle Franco e Irmã Dorothy, fizeram pedidos oficiais de acompanhamento ao MPF, DPE, MPE, Incra e Ibama, e também de regularização fundiária. Quanto ao PA Monte, brevemente serão feitos os devidos pedidos oficiais. Apesar de todos esses  pedidos realizados, a situação de violência continua. O trabalho dessas instituições ainda é muito lento.

Visita da Defensoria Pública do Estado do Amazonas, INCRA e MDA à comunidade Marielle Franco, quando foi comunicada às famílias a arrecadação, pelo Incra, de 28 mil hectares da fazenda Palotina. Foto: Divulgação DPE/AM

Da parte do Amazonas, juntamente, com a CPT Acre e outras  instituições, associações de trabalhadores e trabalhadoras rurais do sul do Amazonas e Acre, entre elas a FACEASA, desde 2023, a CPT Regional Amazonas, CDDHPA e outras instituições vem somando forças pela defesas dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do Sul do Amazonas. Nos últimos três anos na ocupação Irmã Dorothy, grileiros atacaram e atiraram em  quatro pessoas. Na Ocupação Comunidade Marielle  Franco, esfaquearam mais 4 e no início de 2025 mataram o Jacozinho.

É um quadro terrível  nesta  região. Os ramais do Seringal Entre Rios continuam fechados pelos grileiros. O mesmo acontece na Ocupação Marielle Franco:  a Fazenda Palotina fechou os ramais em terra pública, não deixando as pessoas passarem. A Fazenda Palotina entrou, também, na Flona do Iquiri, derrubou a floresta, retirou  madeira e fez um ramal.

Os órgãos públicos como o Ministério Público Estadual, a Defensoria Pública do Estado, o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União, a Polícia Federal, ICMBio, Ibama e IPAAM já tomaram conhecimento. Mas, cadê as devidas medidas tomadas?

Os grileiros  munidos de advogados apadrinhados por políticos corruptos, pedem a saída dos posseiros trabalhadores das terras públicas roubadas por esses grileiros. Esses caras estão em terra pública acusados de possuírem documentos falsos porque grilaram a terra, especialmente no PA  Monte, não tem como eles tirarem o documento porque na área de reforma agrária o módulo de terra por trabalhador é limitado. Você diz: o que é isso? Omissão do Incra desde 2018.

Outra pergunta: por que o IPAM não vai e não multa, mas ao contrário, ainda dá licença para desmatamento em terra pública grilada? E por que o Ibama não se faz presente nessa região do PA Monte, Marielle Franco, Irmã Dorothy, Entre Rios, para punir esses fazendeiros? Isso não é omissão?

Nos relatos e cópias de multas, o Ibama pune os pequenos, como é o caso do ecologista e  trabalhador rural Paulo Sérgio, acusado de ter desmatado terra, numa área que não tem nada a ver com a área da Ocupação Marielle Franco. As informações dão conta que, nas  áreas próximas à fazenda, na Flona Iquiri, quem fez as derrubadas foi a própria acusadora, a Fazenda Palotina. E o Ibama aceitou a acusação e puniu Paulo Sérgio com diversas multas, em área que não está dentro da Ocupação Mariele Franco.

Trabalhadoras e trabalhadores rurais da comunidade Marielle Franco só derrubaram pequenas áreas de seus lotes para fazer suas roças e  plantar milho, mandioca, macaxeira,  cana-de-açúcar, banana, arroz, abacaxi, macaxeira e fazer suas casas. Eles só querem viver com dignidade. Mas acabaram recebendo multas, e a culpa maior caiu em Paulo Sérgio, com suspeita de armação da própria acusada Fazenda Palotina, enquanto que o  fazendeiro continuou impune.

Mudanças de conjuntura a partir de 2023

As informações  dos posseiros e trabalhadores rurais dão conta que entre 2018 até o início de 2023, os diversos órgãos ambientais e de segurança estavam mancomunados com grileiros, fazendeiros e maus políticos. A partir de 2023, houve prisões como o caso do Tenente Bruno, que foi alçado à patente de capitão, como homenagem pela atuação em apoio aos  fazendeiros grileiros de Boca do Acre e Sul de Lábrea, além da prisão de um policial civil de Boca do Acre e saída do delegado  de polícia desse município. Já o ambientalista Paulo Sérgio ficou preso quase 3 meses, mas conseguiu sair e continua lutando, juntamente, com os companheiros. Atualmente, os órgãos públicos que atuam na região mudaram um pouco essa situação, contudo a lentidão das apurações pode estar provocando essas violências com mortes.

Parte das terras do entorno da ocupação Mariele Franco foi arrecadada pelo Incra, mas ainda não destinada para a Reforma Agrária. Embora a questão continue na Justiça Federal, antes era conduzida pela Justiça Estadual. O fato é que os crimes continuam, demonstrando que a situação melhorou, mas não foi superada. Esses órgãos de Justiça deveriam atuar buscando a Cadeia Dominial de cada imóvel, para ver como grileiros e fazendeiros conseguiram tirar os documentos. Essa é a melhor forma de comprovar se os documentos são verdadeiros ou falsos.

Se pergunta: como eles conseguiram esses documentos? Em parte do documento da Fazenda Palotina, se constatou que havia suspeita de falsificação no Cartório de Lábrea, sendo necessária a presença do Tribunal de Justiça, com o corregedor de justiça do Tribunal do Amazonas.

Diante de tudo isto, é necessário maior agilidade para conter essa onda de violência no Sul do Amazonas. Não se poderia incluir o Exército neste trabalho, na retirada  desses grileiros fazendeiros. O Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) poderia fazer uma varredura para evitar essa situação de grilagem devastadora da Amazônia, detectando onde estão esses grileiros realizando esses crimes. É  necessário  haver melhor  atuação como está acontecendo contra o garimpo ilegal.

Atuação da maioria dos parlamentares da Amazônia acaba sendo ineficaz diante da violência no campo

Infelizmente, os parlamentares da Amazônia presentes no Congresso Nacional, representantes de  Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Maranhão e Pará, com raras exceções, têm a menina dos olhos voltada para os cifrões de dólar de  exportação das riquezas da Amazônia, e isto inclui os parlamentos estaduais e as câmaras de vereadores.

Esta omissão favorece a grilagem de terra, a devastação ambiental, o latifúndio com  criação de gado, plantio da soja e mineração. Se investe  no crescimento econômico do Produto Interno Bruto (PIB), chamando de desenvolvimento econômico para o capital, mas a qualidade de vida das populações está muito mal. Tanto é que o agronegócio, nessas regiões, não traz benefício para os seres humanos que continuam pobres, vendo destruídas a natureza, água e floresta.

A necessidade de providências, também por parte da Igreja e sociedade civil

Está na hora de tomar providências urgentes, principalmente pelas pessoas que ocupam cargos públicos, para pensarem em soluções que levam em conta o bem comum e não só em querer se eleger politicamente para fazer riqueza própria com seus aliados desse sistema financeiro exportador.

A Igreja Católica precisa atuar mais a partir das práticas da Igreja Primitiva, dos Padres da Igreja, da iluminação teológica de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, na exigência da Destinação dos Bens para Todos. É necessário entender que a Teologia da Libertação, com suas mediações socio-analiticas e agora com as Ciências da Natureza, abre o diálogo com a sociedade, com a Ética e com a Ciência.

É preciso fazer valer a vivência da Doutrina Social da Igreja nas bases, especialmente com os ensinamentos das encíclicas Laudato Si’, do Papa Francisco, e Magnifica Humanitas, de Leão XIV. Neste contexto atual, é possível continuar com todo o aparato do incenso, a elegância das vestimentas na liturgia, desde que isso promova a vida humana e da biodiversidade na Amazônia.

Muito empenho nesse trabalho deve haver pelas instituições da sociedade civil,  sindicatos, associações dos povos originários, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas, pescadores, defesa  dos rios-igarapés-lagos e do meio ambiente. Os  trabalhos empenhados da Comissão Pastoral da Terra, Comissão de Defesa dos Direitos Humanos,  Movimento de Trabalhadores Cristãos, Cáritas, e outras ONGs que desenvolvem belíssimos trabalhos em defesa da natureza e dos Povos da Floresta, devem continuar.  É necessário denunciar, apertar, para que o poder público invista  muito mais na defesa dos Povos da Amazônia.

A exploração da mineração que empobrece as populações amazônicas

Vejamos quatro exemplos do caso das riquezas minerais, que só fazem exportar, e não melhoram a qualidade de vida de suas populações: nos municípios de Presidente Figueiredo, Oriximiná e Juruti – que contam com mineradoras explorando recursos naturais há longos períodos, chegando a 40 anos -, além de Coari (que tem exploração de petróleo e gás), são menos desenvolvidos do que o município de Parintins, que não conta com nenhum destes empreendimentos minerários.

A luta pela terra em Parintins, no PA Vila Amazônia

Estrada principal da Gleba Vila Amazônia, na parte leste do município de Parintins, liga os estados do Amazonas e do Pará. Foto: Divulgação da Rede de Notícias da Amazônia

No caso de Parintins, cidade cultural do estado do Amazonas que vive da agropecuária, da festa dos Bois Bumbás, Funcionalismo Público, Comércio, Agricultura Familiar e Pesca, as dificuldades são as acusações de desvio de dinheiro público por parte dos políticos que ali passam, além dos registros de conflitos fundiários.

Um reflexo destes conflitos acontece desde o último dia 30 de maio, quando trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra, em consonância com o Incra e Associação dos Assentados do PA Vila Amazônia, ocuparam lotes do PA Vila Amazônia, para fazer suas casas e desenvolver a agricultura familiar. Infelizmente por descaso do Incra, alguns grileiros começaram a grilar terras há mais de 10 anos, através de compra ilegal de até cinco módulos dessas terras públicas de pessoas que venderam seus lotes, isso é proibido por lei. E o Incra fez vista grossa, quando deixou eles ocuparem, uma situação que ocorre desde gestões de superintendentes anteriores.

No mesmo dia, um dos grileiros, que comprou cinco lotes no mesmo PA, armado, teria abordado e ameaçado os acampados. Já no dia 02 de junho, testemunhas afirmam que apareceram no acampamento três jagunços armados de espingarda, à procura dos organizadores do acampamento. Eles foram provavelmente indicados por um fazendeiro vizinho, que também comprou de forma ilegal quatro lotes de terras no PA Vila Amazônia, no entorno da Comunidade Nova Olinda.

A Polícia Militar e advogados desses grileiros estiveram no domingo, dia 07 de junho, abordando e ameaçando as pessoas que estavam no acampamento. Esta situação já foi comunicada ao Ministério Público Federal, órgão a quem compete  fiscalizar as terras públicas brasileiras. O MPF pediu aos acampados que comuniquem ao MPE e ao delegado de Polícia de Parintins para as providências contra as ameaças de morte e violência contra os acampados, uma vez que a questão das terras da União é competência do MPF, Incra e Polícia Federal.

Acontece que, antes de as terras do PA Vila Amazônia serem arrecadadas e destinadas para a Reforma Agrária, já haviam pessoas trabalhadoras rurais nessas terras há mais de 60 anos, e que não receberam a indenização destinada pelo poder público em 1987. Dom Arcângelo Cerqua, bispo de Parintins na época, teve a postura de dizer que houve uma injustiça da Justiça, porque se indenizou um dono só, com o valor inteiro.

Orientadas pelo Incra, as trabalhadoras e trabalhadores estiveram no local onde funciona o Instituto, em parceria com a prefeitura de Parintins, para fazer o cadastro das 64 famílias, na expectativa da publicação do edital sobre os lotes ociosos no PA Vila Amazônia. Uma vez saindo este edital, as famílias serão cadastradas, com previsão de serem assentadas. 

Devido às perseguições dos jagunços dos grileiros, as famílias saíram da parte dos lotes e agora ocupam uma área cedida por uma família assentada, no entorno da comunidade Nova Olinda, mas ainda dentro do PA Vila Amazônia. A previsão é de que o acampamento continue permanente, até que se concretize o assentamento.

Ficou claro que as comunidades residentes no PA Vila Amazônia não estão contra o acampamento e a solicitação de assentamento das 64 famílias, mas apenas  algumas pessoas da Comunidade Nova Olinda, possivelmente, por terem benefícios dos grileiros dessa região.

Com orientação da CPT Amazonas, as famílias também estão preparando um abaixo-assinado para ser encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF) e à Defensoria Pública da União (DPU), solicitando o assentamento oficial do PA Vila Amazônia. O objetivo é garantir oficialmente o acompanhamento por parte do Incra, evitando, assim, a omissão do órgão público e a ação de políticos corruptos.

Trouxemos esta questão de Parintins aqui, também para ilustrar que permanecendo este ciclo de exploração da mineração, juntamente com o agronegócio, com a derrubada de floresta para exportação de madeira, criação de gado além do que é consumido pela população, tendo destino para a exportação e deixando a qualidade de vida dos seres humanos e da biodiversidade descuidada, o país vai para o fosso. Os míseros royalties pagos pelos exportadores não são suficientes.

Comunidades assediadas pelos projetos de crédito de carbono

O assédio de empresas que comercializam créditos de carbono também gera conflitos nas comunidades em toda a Amazônia. Fazendeiros e empresários, tentando usar a justificativa de preservar a floresta através do carbono, procuram convencer os trabalhadores e trabalhadoras rurais a aderirem, enquanto ficam na mediação do recebimento do dinheiro. Acontece que, além de não repassarem corretamente os recursos do projeto, acabam querendo se apossar ilegalmente das terras, sejam seringais, terras públicas ou até títulos definitivos.

No ano passado, em Presidente Figueiredo, as comunidades receberam ordem de despejo da Justiça Estadual, porque havia uma empresa querendo reservar suas terras para preservação em projetos de carbono. A CPT Amazonas acionou a DPE, que solicitou a impugnação e a retirada da empresa, e a Justiça Estadual atendeu a esta demanda.  

O MPF e as Defensorias Públicas estão recomendando aos trabalhadores e trabalhadoras rurais a não fazerem acordos de mediações com empresários ou grupos estranhos sobre a questão do carbono. A proposta é que as próprias cooperativas, sindicatos, associações comunitárias, quilombolas e indígenas se fortaleçam na preservação da floresta, evitando o risco deste novo tipo de grilagem.

Conflitos que se estendem a outras regiões e povos tradicionais do Amazonas

Neste apelo e grito pela Amazônia, não podemos esquecer:

  • Massacre do Rio Abacaxis – ocorrido em agosto de 2020;
  • Assassinatos no Vale do Javari;
  • Desaparecimento do jovem indígena Sateré Mawé em terras indígenas de Maués;
  • Devastação e grilagem de terras públicas em Novo Aripuanã, Apuí com a venda da Flona dessa região na Bolsa de Nova York em 2025, Humaitá, Borba, Nova Olinda do Norte, Manicoré e Canutama.

Ocorrido em agosto de 2020, com a morte de quatro ribeirinhos e dois indígenas Munduruku, Massacre no Rio Abacaxis é um dos exemplos da violência no campo no Amazonas. Foto: Cimi Norte 1

A situação dos povos originários não é muito diferente na Amazônia: de 36 mortes ocorridas em  2023, dobraram em 2024, para 73 assassinatos, segundo o Atlas da Violência 2026, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A violência em homicídios cresceram 51% entre 2023 e 2024, taxa de 24,6 por 100 pessoas indígenas e 22% superior à taxa nacional. Em 2025 morreram 07  indígenas.

No último dia 08 de junho, foi encontrada morta uma mulher indígena, Marilene Manoel da Silva, 31 anos, num Igarapé na cidade de Benjamin Constant/AM.

Na região de Silves, a empresa Eneva, que apoia o Festival Folclórico de Parintins com as riquezas retiradas do gás dessa região, é suspeita de não respeitar as terras e o acervo cultural dos povos originários dessa região. Nesta região, aconteceram quatro mortes de pessoas de forma suspeita e misteriosa, que o MPF está investigando. Em Autazes, além das ameaças que pairam sobre a população com a exploração do potássio, o PA Acará, que está dentro de terras do Incra, vem sofrendo inúmeras grilagens de suas terras por fazendeiros. O Projeto de Assentamento já está todo descaracterizado pela omissão do Incra.

Outra região muito complexa nas tratativas com as terras, rios e florestas desde o massacre dizimador do povo Waimiri-Atroari com a abertura da BR 174, é Presidente Figueiredo. As terras foram submersas pela Hidrelétrica de Balbina para empresas paulistas para outros tipos de exploração, especialmente com a mineradora que ali se impõe.

Os povos originários e as pessoas que ali chegaram enfrentam desafios sem soluções há mais de 50 anos. Na Comunidade Terra Santa, de 2018 a 2020 já tombaram cinco pessoas misteriosamente. As suspeitas pairam sobre um grileiro de terras nessa comunidade.

Neste grito amazônico e protesto, contra tudo o que está acontecendo no sul do Amazonas e nos estados amazônicos, incluindo a parte internacional e todas as  mortes no Brasil afora, queremos renovar nossos compromissos com os trabalhadores e trabalhadoras rurais, ribeirinhos, quilombolas, povos originários, pescadores, extrativistas, mulheres, crianças, idosos, pastorais, movimentos sociais e sofridos das cidades, lutando por direitos sociais para ter terra, pão, peixe, água, floresta, para viver com dignidade.

Porque é só isso que estes povos querem e precisam. Eles não querem viver na miséria, como esses grupos de grileiros, madeireiros, mineradores, latifundiários  de soja e gado, exploradores da Amazônia, sujeitos a viver sem dignidade.  

Companheiros e companheiras, vamos continuar lutando.
Queremos um Brasil melhor.
Viva o povo brasileiro.
A Amazônia com sua gente, água e floresta importam! 

Instituições parceiras que acompanham este grito:
  • Comissão Pastoral da Terra (CPT) Regional Amazonas
  • Pastoral da Terra da Arquidiocese de Manaus
  • Comissão de Defesa dos Direitos Humanos de Parintins – Amazonas
  • Coletivo Solidariedade ao Rio Abacaxis
  • Movimentos de Trabalhadores Cristãos do Amazonas
  • Grupo Ambiental Natureza Viva (GRANAVE)
  • Associação dos Assentados do PA Vila Amazônia de Parintins
  • Movimento de Trabalhadores Rurais sem Terra Acampados no PA Vila Amazônia
  • Movimento dos Padres em Novas Dimensões
  • Teia Cidadã de Parintins
  • Movimento de Mulheres de Parintins
  • Federação das Associações e Cooperativas do Acre e Sul do Amazonas
  • Comissão dos Povos Originários sem Território da Cidade de Manaus
  • Parlamento Sustentável do Planeta Azul
  • Inory Kanamari – 1ª Advogada Indígena, advogada dos Kanamari, ativista ambiental e das causas indígenas.

Fuente: Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Temas: Criminalización de la protesta social / Derechos humanos, Defensa de los derechos de los pueblos y comunidades, Tierra, territorio y bienes comunes

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