‘Nossas crianças ainda se assustam’: Ataque dos EUA contra a Venezuela completa um mês

Idioma Portugués
País Venezuela

Um mês após os ataques dos EUA, a Comuna Panal 2021 mantém unidade, apesar das marcas deixadas pela ofensiva.

Nesta terça-feira (3), completa-se um mês dos ataques dos Estados Unidos contra a  Venezuela. A ofensiva, segundo o governo venezuelano, deixou mais de 100 mortos, entre civis e militares. As ações atingiram a capital Caracas e os estados de Miranda, Aragua e La Guaira.

O bombardeio começou por volta das 2h da manhã. Poucas horas depois, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, foi confirmado pelo governo venezuelano e  pelos Estados Unidos, responsáveis pela operação.  Delcy Rodríguez tomou posse como presidenta interina.

Um mês após os bombardeios, comunidades afetadas seguem lidando com as consequências do episódio. Na Comuna Panal 2021, localizada no bairro 23 de Janeiro, a rotina foi retomada, mas a lembrança dos ataques permanece presente entre os moradores, especialmente entre as crianças.

Jorge Quereguae, militante da Fuerza Patriótica Alexis Vive, é morador da comuna e pai de seis filhos. O mais velho tem 13 anos. Ele relata que os filhos continuam afetados pelo que vivenciaram durante os bombardeios, principalmente durante a noite.

“Vemos como ainda hoje,  um mês depois desse bombardeio, nossas crianças continuam lembrando do tema das bombas, do zumbido dos aviões. Elas ainda acordam durante a noite. Se escutam um barulho, se escutam um ruído no teto, eles se assustam”, afirmou.

Ao relembrar o início do ataque, Quereguae conta que estava reunido com outros integrantes da organização comunal. 

“Bom, nós estávamos neste mesmo espaço em que estamos agora. Por volta de 1h59, começou a ser ouvido um zumbido. Um zumbido. Era possível ouvir aviões, mas não se viam os aviões”, disse.

De acordo com o relato, pouco depois as aeronaves passaram a ser vistas e as explosões começaram a ser escutadas. Ele afirma que, naquele momento, os moradores compreenderam o que estava acontecendo.

“Começaram a aparecer as aeronaves e começaram a ser ouvidas as detonações. As primeiras detonações, que eram longe, obviamente. E ali entendemos imediatamente que estávamos em um processo de invasão, de violação da nossa soberania e do nosso território”, relatou.

Apesar de, inicialmente, os ataques ocorrerem longe da comuna, Quereguae afirma que, ao longo do bombardeio, um míssil atingiu um observatório militar localizado próximo ao território da Panal 2021, o que aumentou a sensação de risco entre os moradores.

Vida após os ataques

Nos dias seguintes ao bombardeio, o impacto também foi sentido no comércio local. Miguel Carvajal, comerciante da comuna, relata que logo após os ataques, muitas pessoas passaram a circular pelos estabelecimentos em busca de alimentos, demonstrando medo do que poderia acontecer e tentando estocar produtos em casa.

Segundo ele, houve um aumento repentino da demanda e práticas de elevação de preços por parte de fornecedores e comerciantes de outras regiões. “Eu sei que as pessoas ficam nervosas e fazem compras nervosas. Uma infinidade de comerciantes se aproveita disso”, afirmou.

Miguel diz que, antes dos ataques, comprava carne bovina de seu fornecedor ao preço de 4,40 dólares o quilo. Após o início do bombardeio, o mesmo fornecedor passou a oferecer o produto por 18 dólares o quilo. Diante da situação, ele decidiu não vender proteína animal quando reabriu seu pequeno comércio, na segunda-feira, dia 5, optando por comercializar apenas produtos industrializados que já tinha em estoque.

Segundo o comerciante,  lideranças da comuna o procuraram para entender o motivo da ausência da carne no estabelecimento. Após explicar a situação, a própria comuna, que possui produção própria de carne, passou a fornecer o produto a 6 dólares o quilo e, com isso, ele conseguiu retomar normalmente as atividades em seu pequeno mercado.

Miguel afirma que não considera correto elevar preços de forma abrupta em um contexto de crise. “Eu não sou um luxo. Eu sou comida, eu sou alimento. Então, eu não vejo como normal exagerar nos preços. Não vejo como normal que venha uma senhora de 60 ou 80 anos e, por uma farinha, eu queira tirar dela 1.000, 1.500 bolívares (14 a 21 reais)”, disse.

Nos primeiros dias após os ataques, o dólar paralelo disparou na Venezuela, o que resultou na elevação dos preços no comércio em geral. Diante desse cenário, a direção da Comuna Panal 2021 realizou um trabalho junto aos comerciantes do território para evitar aumentos expressivos, com o objetivo de não prejudicar os trabalhadores da região.

Camilo Tamayo, liderança da Comuna Panal 2021, relata que após o dia 3 de janeiro foi realizada uma assembleia com comerciantes que atuam dentro do território da comuna.

“Depois do dia 3 de janeiro, houve uma assembleia com os companheiros e companheiras que fazem a vida comercial dentro da comuna, e se conversou de forma muito tranquila, houve diálogo. A conversa foi no sentido de não permitir a usura, de não deixar que os preços subissem para a nossa gente, e acredito que houve muita receptividade e solidariedade por parte de todos os que atuam na comuna para sustentar um comércio solidário”, afirmou.

Tamayo também relata que a direção da comuna intensificou os trabalhos relacionados à segurança. Segundo ele, havia o temor de uma segunda onda de bombardeios, e o bairro 23 de Janeiro era visto como um possível alvo.

“Nos primeiros dias se esperava uma possibilidade real de um segundo ataque, isso era dito por Donald Trump desde seu lugar de poder, afirmando que poderia vir uma segunda onda contra o nosso povo, e isso mantinha as pessoas em suspense”, disse.

Um mês após os ataques, integrantes da Comuna Panal 2021 afirmam que o  território permanece unido. Segundo as lideranças locais, os moradores têm conhecimento de que o governo de Delcy Rodríguez precisou negociar com os Estados Unidos após o episódio, mas afirmam confiar na sua condução política e dizem compreender que o país enfrenta um cenário de poucas alternativas.

“Aqui houve um bom trabalho, coeso, firme. Quando se fala de desunião, de traição, nós acreditamos na direção política da revolução. Acreditamos e a vemos consolidada, firme, sólida”, disse.

Segundo ele, a avaliação dentro da comuna é de que o processo de negociação com os Estados Unidos e implementação de reformas legislativas ocorre sob forte pressão externa. “É indiscutível que estamos negociando, mas isso ocorre praticamente com  uma arma na cabeça. Vejo o processo conduzido com muita dignidade e com muita firmeza”, afirmou.

- Editado por Nathallia Fonseca.

Fonte: Brasil de Fato

Temas: Criminalización de la protesta social / Derechos humanos

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