“Mecanização para agroecologia tem que ser política pública. É urgente”, diz dirigente do MST

- Foto: Wellington Lenon

Débora Nunes, da direção nacional do MST, sobre acesso à mecanização e bioinsumos para a massificação da agroecologia.

Quando se aborda a produção agroecológica, caracterizada pela ausência de agrotóxicos e pela diversidade de culturas, as imagens frequentemente associadas são as de trabalho manual e uso da enxada. O acesso à mecanização e a bioinsumos é crucial para a ampliação da escala da produção agroecológica, tema que ganhou destaque durante a 22ª Jornada de Agroecologia, realizada de 6 a 10 de agosto, no Paraná.

Além das diversas atividades em Curitiba, o assentamento Contestado, na Lapa, recebeu um “Dia de Campo” na última sexta-feira (8), para intercâmbio de experiências e exposição de tecnologias agroecológicas. O evento reuniu mais de 500 pessoas e destacou as parcerias entre Brasil e China, com a apresentação e teste de máquinas chinesas.

Camponesas e camponeses de todo o estado puderam observar, esclarecer dúvidas e testar seis tipos de máquinas: para o sistema de plantio direto de hortaliças; colheita de batata; semeadeira de grãos; manejo agroflorestal; plantio de batata; e aplicação de bioinsumos por meio de drones.

Foto: Wellington Lenon

Débora Nunes, dirigente do Setor de Produção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), participou de uma conferência sobre o tema. Ela enfatiza que “a agroecologia não pode se limitar à experiência do meu quintal produtivo; ela precisa incorporar cadeias produtivas em escala”. A dirigente defende a mecanização adequada à realidade da agricultura camponesa como fundamental para a massificação da agroecologia.

Débora explica que o Movimento compreende a necessidade de transcender a escala pontual para uma transição agroecológica em nível nacional. Para isso, são essenciais o planejamento de cadeias produtivas, o acesso à agroindustrialização, a comercialização e o acesso à tecnologia, com políticas públicas consistentes. “A mecanização para a agroecologia deve ser uma política pública. É urgente”.

Foto: Leandro Taques

Celson Chagas, assentado desde 2000 e produtor agroecológico associado à cooperativa Terra Livre, estava entre as muitas pessoas interessadas em conhecer de perto as novas máquinas. Ele acompanha de perto os avanços e desafios da mecanização adaptada à agroecologia, identificando os custos como uma das principais dificuldades. O agricultor defende que o desenvolvimento tecnológico na agroecologia deve considerar tanto a eficiência produtiva quanto a realidade socioeconômica da agricultura familiar. “Mesmo que as máquinas existam, muitas vezes o custo é inviável para quem trabalha em pequenas áreas. A solução é investir no uso coletivo, por meio de cooperativas, e garantir políticas públicas que tornem isso possível”, afirma, ressaltando a importância das políticas de apoio à agricultura familiar.

Parceria com a China: além da importação de máquinas

A China é parceira na testagem de máquinas adequadas à agricultura camponesa. Atualmente, há duas frentes em curso: em Apodi, no Rio Grande do Norte, em parceria com os governos estadual e federal; e no Centro Brasil-China, na Universidade Nacional de Brasília (UnB), com apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Combate à Fome (MDA).

A experiência chinesa tem inspirado soluções, especialmente com máquinas adaptadas a pequenas propriedades e tecnologias para compostagem e bioinsumos em escala. “Na China, a pequena agricultura é altamente tecnificada. Isso nos mostra que é possível produzir com escala, tecnologia e soberania”, comenta Débora.

No entanto, a dirigente reforça a necessidade de uma ampliação massiva do alcance: “Não queremos simplesmente importar máquinas. Queremos instalar fábricas no Brasil.” Esta é a reivindicação do MST para superar a desigualdade no acesso a tecnologias e maquinários. No Nordeste, por exemplo, menos de 3% da agricultura familiar tem acesso à mecanização. “Quem ficaria no campo se a única ferramenta é a enxada?”, questiona, enfatizando que a falta de avanço tecnológico contribui para o afastamento da juventude do campo.

Fotos: Wellington Lenon

Débora ainda relaciona essa desigualdade no acesso a maquinários e equipamentos ao fato de a indústria nacional sempre ter produzido para o agronegócio, sem considerar a mecanização para a pequena produção. Quando se refere à mecanização adequada, ela vai além dos tratores, abrangendo todo o ciclo da produção, desde o preparo do solo até a colheita e o beneficiamento.

Bioinsumos: os insumos da agricultura do futuro

Ao lado da mecanização, os bioinsumos, como biofertilizantes, fungicidas biológicos e extratos vegetais, são considerados “os insumos da agricultura do futuro”. Essa síntese é apresentada por Jocinei Gonçalves, agrônomo da cooperativa Terra Livre e morador do assentamento Contestado. Ele atua na biofábrica da cooperativa, criada em 2021. Segundo o agrônomo, os bioinsumos contribuem para o equilíbrio ecológico dos agroecossistemas, promovem o controle biológico de pragas e doenças e fortalecem os ciclos naturais da fertilidade do solo.

Para Jocinei, o acesso à mecanização e aos bioinsumos apropriados à agroecologia não é apenas um suporte técnico, mas uma condição estruturante para o fortalecimento de um modelo de agricultura baseado na autonomia e com mais qualidade de vida para camponeses e camponesas: “Esses recursos viabilizam o trabalho no campo com dignidade, eficiência e respeito aos territórios, consolidando a agroecologia como caminho estratégico para o futuro da agricultura.”

Débora Nunes aponta os bioinsumos como fundamentais para reduzir custos, garantir autonomia e ampliar a produção agroecológica. O Movimento já possui experiências com biofábricas locais e busca avançar em parcerias para instalar unidades maiores, com tecnologia de compostagem acelerada. O acesso aos bioinsumos a preços justos é um critério para progredir na produção em escala. “Precisamos ser autônomos, porque o mercado não nos atende — e quando atende, é caro.”

A produção local e coletiva de bioinsumos, por meio de biofábricas comunitárias ou cooperativas, aumenta a autonomia dos camponeses e rompe a dependência de pacotes prontos da indústria do agronegócio. Um exemplo da viabilidade da produção cooperada de bioinsumos é a própria cooperativa Terra Livre, criada pelas famílias do assentamento Contestado e que atualmente possui cooperados em diversos municípios da região, além de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Foto: Wellington Lenon

Com atuação plena, a Terra Livre entrega mais de 20 toneladas por semana de alimentos para 103 escolas e colégios de Curitiba, por meio do Programa Nacional da Alimentação Escolar (PNAE). O trabalho cooperado das famílias garante a produção de bioinsumos a preço de custo, com capacidade de atender mais de 300 famílias associadas. O custo chega a ser 90% menor em relação aos biológicos comerciais, segundo o agrônomo Jocinei Gonçalves.

O MST propõe instalar oito biofábricas-piloto em diferentes estados, duas delas no Paraná, como parte da estratégia nacional para fortalecer a agroecologia. Há parceria com a China também nesse campo, com propostas de biofábricas que transformam resíduos orgânicos urbanos em biofertilizantes em apenas 12 dias.

Jocinei destaca a relevância do acesso à tecnologia também para as famílias produtoras agroecológicas. “Uma biofábrica se torna um vetor de ciência e tecnologia onde está instalada. Então, aqui temos um assentamento, uma área rural, mas desenvolvemos processos, ainda que simples, mas muito tecnificados, com bastante participação do conhecimento científico, que é necessário para termos um produto de qualidade. O pano de fundo de tudo isso é um debate sobre a urgência da inserção da agricultura camponesa na tecnologia”, garante.

O Dia de Campo também contou com a presença de Vanderlei Zigue, secretário de Agricultura Familiar do MDA; representantes da Cooperativa de Crédito Cresol, da Cooperativa de Crédito Rural de Pequenos Agricultores e da Reforma Agrária (Crehnor) e da Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural (Assesoar); o deputado estadual Professor Lemos e o deputado federal Elton Welter, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT).

Esta atividade foi realizada pelo projeto de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) Semeando Gestão: Fortalecendo a Organização Produtiva e Sustentável é resultado da parceria entre a ITAIPU Binacional, a Cooperativa Central da Reforma Agrária (CCA), e o Parquetec Itaipu. A iniciativa tem como objetivo fortalecer os processos de gestão das cooperativas e de organização produtiva das famílias agricultoras, com ênfase na produção agroecológica e sustentável. Convênio no 4500073795 – ITAIPU/CCAPR/PTI. A ação também contou com a parceira do projeto Innova, que tem o apoio da União Europeia. 

- Edição: Lays Furtado

Fonte: MST - Brasil

Temas: Agricultura campesina y prácticas tradicionales

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