Carta Política da Articulação Camponesa de Luta Pela Terra e Defesa dos Territórios no Tocantins
Da terra e das águas brota a luta!
Quarenta anos depois, o sangue de Josimo ainda clama por justiça!
Nós, camponesas/es, quilombolas, pescadoras/es e quebradeiras, vindos de 16 comunidades da região centro norte do Tocantins, agentes de pastoral e parceiras/os de luta, reunidos entre os dias 01 e 03 de maio de 2026, durante o XV Encontro de Camponeses e Camponesas, no Acampamento Taboca, município Babaçulândia/TO, celebramos os 15 anos da Articulação Camponesa de Luta Pela Terra e Defesa dos Territórios.
Neste encontro de formação e reflexão, na preparação da 21ª Romaria e Semana da Terra Padre Josimo, que será realizada no dia 09 de maio de 2026 em Buriti do Tocantins, renovamos o nosso compromisso com a luta em defesa da terra, dos rios, dos babaçuais e da vida das comunidades. Em movimento e em resistência, inspirados no legado do “padre negro de sandálias surradas”, que deu sua vida pela justiça no campo. Celebramos e ecoamos o grito de denúncia contra o abandono e a violência que marcam os territórios do Tocantins.
Os dados de ‘ Conflitos no Campo 2025’, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), lançados nesse mês de abril, revelam uma realidade de abandono da Reforma Agrária. Enquanto o discurso oficial fala de pacificação no campo, as 70 ocorrências de conflitos no Tocantins evidenciam a persistência da violência, com mais de 3.800 famílias atingidas, um crescimento de 40% em relação ao ano 2024. No conjunto dos conflitos no campo, 45 são por terra e 12 foram por água — deste último, metade atingindo diretamente comunidades quilombolas. Os casos de trabalho escravo também cresceram, com 8 ocorrências em 2025 contra apenas 2 em 2024.
Durante o encontro, diversos depoimentos evidenciaram a estagnação da pauta da Reforma Agrária na maioria das comunidades. Tal situação revela a fragilidade e a inércia do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar – MDA e da Secretaria de Patrimônio da União – SPU na efetivação da reforma agrária, na regularização fundiária e nas políticas públicas no campo. A morosidade institucional não é apenas uma burocracia, é uma escolha política e falta de prioridade, que nos condena à insegurança alimentar e à vulnerabilidade no trabalho e no território.
Comunidades como a Taboca, que nos acolheu durante o encontro, estão há mais de uma década esperando a criação do assentamento em terras que já foram reconhecidas como terra da União e de interesse social para reforma agrária. A maioria dos nossos territórios estão sem estradas, sem acesso a política de habitação, sem crédito, sem assistência técnica, sem acesso digno a educação campo e quilombola, e sem a acesso a saúde. Nessas condições padecemos com o abandono do Estado, o que contribui para a saída forçada da juventude camponesa para as periferias das cidades.
A situação das comunidades quilombolas é igualmente alarmante; a lentidão do INCRA em regularizar os territórios tradicionais impõe uma situação de extrema vulnerabilidade e violências permanentes, com o avanço predatório de empreendimentos como a mineração e o agronegócio.
A Reforma Agrária sem política pública é promessa vazia!
Por outro lado, acompanhamos com indignação o amplo financiamento público ao agronegócio no Tocantins, que segue agindo como uma máquina de destruição do Cerrado, utilizando-se do desmatamento e dos agrotóxicos como arma para expulsar e fragilizar a permanência das comunidades na terra. A falta de fiscalização sobre o uso indevido de agrotóxicos, sobretudo, da pulverização aérea com aviões agrícolas e drones, acende alertas para contaminação dos bens comuns naturais, plantações, animais e de nossos corpos. Assim, nos somamos às companheiras quebradeiras de coco na defesa do babaçu livre, e repudiamos a devastação dos babaçuais pelo desmatamento e agrotóxicos.
Soma-se a tudo isso, a insegurança das comunidades, onde diversas lideranças são perseguidas e estão sob ameaça direta de grileiros, que se sentem protegidos pela impunidade, e avançam sobre os territórios com cercas, tratores e armas. Exigimos proteção para as pessoas que estão na linha de frente da luta pela terra e territórios e a responsabilização dos criminosos grileiros e desmatadores.
Contudo, apesar das violências e entraves na pauta da Reforma Agrária, anunciamos que seguiremos sendo raízes profundas nos nossos territórios, nos organizando e fortalecendo o nosso esperançar. A Articulação Camponesa está mais viva do que nunca! Nesses 15 anos aprendemos que a nossa força vem da união e da fé na terra partilhada. Continuaremos ocupando, lutando, produzindo alimentos agroecológicos e defendendo o Cerrado em pé.
Rumo à 21ª Romaria de Padre Josimo, levamos no peito a esperança e a coragem para a luta. Exigimos reforma agrária já, titulação dos territórios quilombolas, o fim da guerra química contra os nossos bens comuns naturais e o abandono do projeto da Hidrovia Araguaia-Tocantins.
A terra é de quem nela vive e trabalha!
O sangue dos nossos mártires continue regando nossa coragem.
Acampamento Taboca, Babaçulândia – TO, 03 de maio de 2026.
- Articulação Camponesa de Luta Pela Terra e Defesa dos Territórios no Tocantins
- Comissão Pastoral da Terra – Regional Araguaia Tocantins
- Comunidade Barriguda (Goiatins-TO)
- Comunidade Boa Esperança (Palmeirante-TO)
- Comunidade Gabriel Filho (Palmeirante-TO)
- Comunidade Tradicional Gleba Tauá (Barra do Ouro-TO)
- Comunidade Levinha (Araguaína-TO)
- Comunidade Quilombola Dona Domicília (Muricilânidia-TO)
- Comunidade Quilombola Dona Juscelina (Muricilânidia-TO)
- Comunidade Quilombola Grotão (Filadélfia-TO)
- Comunidade Raposa – Território Tradicional da Serra do Centro (Campos Lindos-TO)
- Comunidade Serra da Taboca (Babaçulândia-TO)
- P.A Antônio Moreira (Ananás-TO)
- P.A Deus é Grande (Palmeirante-TO)
- P.A Luar do Sertão (Ananás-TO)
- P.A Reginaldo Lima (Barra do Ouro-TO)
- P.A Remansão (Nova Olinda-TO)
P.A Santo Antônio Bom Sossego (Palmeirante-TO)
Carta de Resistência da Articulação Camponesa – 03.05.26
Fuente: Comissão Pastoral da Terra
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